Quando a Gaviões da Fiel escolhe um enredo que dialoga com ancestralidade e futuro, ela faz mais do que apresentar um espetáculo. Ela afirma que as vozes que vieram antes de nós continuam vivas, pulsando, ensinando. O tema “Vozes ancestrais para um novo amanhã” é verdadeiro um chamado coletivo para reconhecer quem esteve aqui antes da construção das cidades, das avenidas,dos prédios públicos.

Estive presente na avenida nesse momento tão simbólico. Não apenas como espectadora, mas como mulher indígena e como representante do povo. Desfilei na terceira alegoria que representava a luta e resistência dos povos indígenas contra a destruição (Xawara), era focada na batalha espiritual.

Ver nossas narrativas ganharem corpo, cor, som e respeito diante de milhares de pessoas foi emocionante e político. Foi a prova de que quando ocupamos espaços, transformamos consciências.

Representatividade não é favor. É um reconhecimento histórico.

É admitir que os povos originários, as populações negras, as comunidades tradicionais e periféricas ajudaram a construir este país com suas mãos, seus corpos, sua cultura e sua resistência. Quando essa história ocupa o centro da avenida, ela ocupa também o centro do debate público.

Mas não há reconhecimento verdadeiro sem garantir direitos concretos. Falar de ancestralidade exige falar de território. Exige enfrentar o debate sobre o chamado marco temporal, tese que busca restringir a demarcação de terras indígenas apenas às áreas ocupadas em 5 de outubro de 1988. Essa interpretação ignora expulsões, violências e deslocamentos forçados que marcaram a história dos povos indígenas no Brasil.

Defender os territórios indígenas é defender a Constituição, proteger biomas, preservar saberes milenares e garantir a sobrevivência física e cultural de povos que seguem sendo ameaçados. Território é vida. É memória. É futuro.

O Carnaval, enquanto manifestação popular, também é espaço de denúncia e consciência. Ao trazer para a avenida narrativas ancestrais, ele contribui para romper silêncios históricos e questionar estruturas que ainda insistem em apagar existências.

Além de potência simbólica, ele é uma das maiores expressões econômicas do Brasil.  Movimenta a economia, gera emprego e renda, fortalece o turismo e sustenta milhares de famílias, costureiras, músicos, aderecistas, soldadores, cenógrafos, ambulantes, técnicos de som e luz. Falar de Carnaval é falar de indústria criativa, de desenvolvimento e de dignidade para quem vive da arte.

Cidades que reconhecem o valor dessa cadeia produtiva investem. Entendem que cultura não é gasto: é investimento social e econômico. Sabem que cada real aplicado retorna em geração de renda, autoestima coletiva e projeção nacional e internacional.

Além disso, a avenida também foi ocupada por indígenas de diversas regiões do país, representantes de muitos povos que carregam histórias, línguas e cosmovisões próprias. De Santa Catarina, tivemos a presença marcante do povo Xokleng, com protagonismo especial das mulheres, que levaram força, dignidade e memória para esse momento histórico. 

Esse movimento dialoga com algo maior: a presença crescente de um olhar indígena na Justiça, no Parlamento e em Brasília, fortalecida por lideranças como a ministra Sonia Guajajara e por tantos indigenistas comprometidos com os direitos originários. É essa construção coletiva que reafirma a defesa de que o Brasil precisa se tornar, de fato, um país indigenista, que reconheça seus povos originários não como parte do passado, mas como sujeitos políticos fundamentais para o presente e para o futuro da nação.

Infelizmente, quando um governo estadual passa mais de uma década sem investir de forma consistente no Carnaval, o que se perde não é só o brilho da avenida. Perde-se a oportunidade. Perde-se competitividade. Perde-se a representatividade. Se houvesse maior compromisso público com essa indústria cultural, teríamos mais chances de ver nossas histórias, nossas raízes e nossos povos ocupando com força os grandes palcos do país.

Reconhecer o valor das vozes ancestrais é também garantir orçamento, política pública e planejamento. É compreender que cultura é ferramenta de educação, de combate ao preconceito e de construção de futuro.

Um novo amanhã só é possível quando há coragem de olhar para trás, honrar quem sempre esteve aqui e assegurar que seus direitos não sejam relativizados.

As vozes ancestrais continuam ecoando. E ecoam também na defesa inegociável dos territórios indígenas, contra qualquer tentativa de reduzir direitos constitucionais. Cabe a nós decidir se vamos silenciá-las pela omissão ou amplificá-las com compromisso, investimento e ação.

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    Primeira vereadora indígena de Florianópolis (SC). Presidenta da Comissão da Mulher da Câmara. Embaixadora pelo Clima em...

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