Reconhecimento da dívida histórica do Estado brasileiro, paridade racial e de gênero nas estruturas de poder e criação de um Fundo Nacional de Reparação. Essas são algumas das 11 reivindicações centrais do manifesto da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, divulgado na terça-feira, 25, em Brasília (DF). No mesmo dia, cerca de 300 mil mulheres ocuparam a Esplanada dos Ministérios para afirmar que, sem reparação, não há democracia possível.

Dez anos após a primeira marcha nacional, o documento nomeia o que o país ainda evita reconhecer: a escravidão e a colonialidade estruturam as desigualdades do presente. Em um dos encontros que antecederam a marcha, Lúcia Xavier, Coordenadora Geral da ONG Criola, sintetizou o sentido político dessa demanda. 

“Não é apenas a redistribuição dos recursos acumulados pela escravidão, mas também daqueles produzidos pelo nosso trabalho cotidiano. Nós não temos cidadania plena e tampouco acesso aos bens e serviços constituídos por nós mesmas”, afirmou durante o evento “Vozes da Diáspora” promovido pelo Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos.

Ao longo do texto, as mulheres negras articulam demandas econômicas, territoriais, políticas e culturais, reivindicando desde financiamento permanente para ações reparatórias até mudanças constitucionais que garantam presença proporcional de pessoas negras nos tribunais superiores e nas casas legislativas.

Elas defendem um novo pacto civilizatório, capaz de romper com a lógica de violência, exploração e racismo que marca o século 21, e reafirmam o protagonismo das mulheres negras na construção de um futuro verdadeiramente justo e igualitário em termos de gênero e raça.

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Gestoras do impossível em marcha por Reparação e Bem Viver

Essa agenda tomou as ruas da capital federal neste 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. A data homenageia as irmãs Mirabal, assassinadas em 1960, na República Dominicana, por ordem do ditador Rafael Trujillo, e dialoga diretamente com a luta contra a violência de gênero que, para as mulheres negras no Brasil, ganha outras camadas de complexidade, como o racismo estrutural e a violência estatal. 

“A violência contra as mulheres é uma crise ética, é uma crise civilizatória. Precisamos dizer o que isso representa. Um país que mata mulheres é um país que fracassa”, declarou a jornalista, professora e escritora Rosane Borges. 

A caminhada, iniciada por volta das 11h sob chuva, reuniu delegações de todos os estados, trabalhadoras, quilombolas, indígenas, jovens, artistas e lideranças comunitárias, além de mulheres de mais de 40 países. Acompanhadas por trios elétricos e carros de som, elas entoaram cantos, palavras de ordem, e realizaram performances e homenagens às mulheres negras que constroem a história em todo o mundo — até o sol voltou a abrir, como se acompanhasse a força crescente do ato. 

Crédito: Kelly Ribeiro

Ali, foi realizada a leitura do novo manifesto político da Marcha, reforçando as urgências identificadas pelo movimento diante de um contexto marcado por retrocessos, desigualdades e impactos climáticos.

“Nós estamos apresentando um conjunto de propostas para essa nação e queremos dizer que esse potencial de mobilização só existe porque nós somos as gestoras do impossível. Pedimos paz, equidade, respeito à dignidade das pessoas, e respeito à dignidade das pessoas negras, em particular”, destacou Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, integrante da coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste e do Comitê Impulsor Nacional da Marcha.

A dívida do Estado com as mulheres negras

Após o ato, uma comitiva de 12 representantes do Comitê Nacional da Marcha foi recebida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin. A reunião teve como eixos a responsabilização do Estado brasileiro pelas violências que atravessam a vida das mulheres negras, a necessidade urgente de justiça para as vítimas de operações policiais e o reconhecimento, pelo Judiciário, do projeto político que a Marcha afirma ao Brasil e ao mundo.

Entre as demandas apresentadas estiveram o acesso público a arquivos do Judiciário relacionados à escravidão, a criação de protocolos específicos para monitorar processos que envolvem agentes de segurança pública e a garantia de celeridade em casos de violência policial, muitos dos quais se arrastam por mais de uma década.

A violência policial e a chacina ocorrida no Rio de Janeiro em outubro foram denunciadas nos discursos de lideranças políticas e de movimentos sociais ao longo da marcha, tanto no trio da região Sudeste quanto nos demais. No encontro com Fachin, Tauã Brito, moradora do Complexo da Penha (RJ), relatou o horror que viveu com a execução de seu filho. 

“Meu filho tentou se entregar, mas os policiais não deixaram nem que eu chegasse perto. Ele estava amarrado, esfaqueado e com um tiro na cabeça. Eu pedi que levassem preso, que dessem uma chance. Ele tinha 20 anos. A favela só recebe morte. Não entra educação, política pública, oportunidade”, denunciou. 

Após ouvir as denúncias e reivindicações, Fachin reconheceu a legitimidade das pautas apresentadas e afirmou que o país não pode adiar mais a presença de mulheres negras nos espaços de maior poder da República. “Eu espero não sair enquanto não tenha pelo menos uma juíza negra. E isso que eu estou dizendo agora eu já disse. O Brasil precisa enfrentar essa dívida”, afirmou o ministro. 

Pautas diversas, mesma luta

Além da denúncia da violência policial, diversas outras pautas ganharam centralidade na Marcha, evidenciando que não existe uma única experiência de ser mulher negra no Brasil. A luta por justiça reprodutiva, por exemplo, que já aparecia como eixo fundamental na Carta de 2015, permanece igualmente urgente. O documento reconhecia, e a Marcha volta a reafirmar, que o controle sobre o próprio corpo, o acesso à saúde e o direito a uma maternidade segura e desejada são dimensões inseparáveis da luta antirracista.

Crédito: Dino Santos | CUT

“Nosso compromisso é ampliar o acesso à informação qualificada e defender que justiça reprodutiva é justiça racial e é justiça social. Hoje estaremos nas ruas para dizer ao país que não há democracia possível sem garantir que mulheres negras vivam com dignidade, autonomia e direitos respeitados”, afirmou Vitória Régia da Silva do Comitê de Justiça Reprodutiva, em coletiva de imprensa antes da marcha.

As mulheres negras com deficiência também estiveram na marcha para reivindicar visibilidade e autonomia, atuando não apenas como participantes, mas como formuladoras de uma agenda realmente inclusiva. A determinação ficou nítida no relato de Luciana Viegas, do Instituto Vidas Negras com Deficiência e do Comitê de Mulheres Negras com Deficiência.

“Fomos questionadas: ‘Mas vocês vão marchar? Vocês estão na cadeira de rodas’. E elas responderam: ‘Nós vamos marchar, porque marchar é um ato político. Se estivermos pulando, de muleta, andando ou rodando, nós iremos marchar. Nós nos convocamos para essa luta’”.

Crédito: Kelly Ribeiro

As discussões sobre justiça climática também se integraram à Marcha, reforçando que a crise ambiental tem cor, território e gênero — e que são as mulheres negras, especialmente das periferias, quilombos e comunidades tradicionais, as primeiras a sentir e enfrentar seus impactos. Essas desigualdades refletem a amplitude das pautas levadas por elas, cada uma atravessada por realidades distintas, mas unidas na mesma luta.

Do Congresso às ruas: seis dias de mobilização e construção de futuro

A programação oficial da Marcha, iniciada em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, e encerrada no dia 26, articulou luta política, cuidado e coletivo. Durante seis dias, a capital federal se tornou um território de encontros em que cada atividade dialogava diretamente com as propostas do movimento. 

Enquanto a abertura da marcha acontecia no Museu Nacional, por exemplo, o Congresso Nacional sediava uma Sessão Solene em homenagem ao movimento, no Plenário Ulysses Guimarães. Presidida pela deputada Benedita da Silva, o evento contou com a presença das deputadas Talíria Petrone, das ministras Margareth Menezes, Macaé Evaristo, Anielle Franco e Márcia Lopes. 

“O povo brasileiro é a mulher negra. Como Benedita abriu caminho para mim, nós temos a obrigação de abrir caminho para outras. A agenda que o Brasil precisa – do Bem Viver e da dignidade – passa pela reparação e pela presença de mulheres negras em todos os espaços de poder”, destacou Talíria. 

Paralelamente às agendas institucionais, atos, plenárias, rituais e performances dividiram espaço com rodas de partilha, vivências de acolhimento e atividades culturais. Mulheres de diferentes territórios, gerações e experiências se reconheceram umas nas outras, fortalecendo tanto a agenda política quanto os vínculos que sustentam essa mobilização nacional — agora também global.

Encerrando o dia da marcha, o show de Larissa Luz — que gravou o tema musical desta edição — levou o público do pátio do Museu Nacional a cantar em coro: “mete marcha, negona, rumo ao infinito; bote a base, solte o grito”. Antes dela, se apresentaram Ebony, Célia Sampaio & Núbia, Prethaís e Luana Hansen, que gravou o tema da 1ª Marcha, de 2015. 

Já no dia 26, a programação, que ainda incluía oficinas e debates, terminou com o Samba Coisa de Pele, reafirmando que arte, política e ancestralidade caminham juntas na construção de um país que reconheça e valorize, de fato, a potência das mulheres negras.

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  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

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