“E agora, o que vai ser de nós? Quando vai acontecer de novo?”: a inquietação expressa por lideranças feministas nas oficinas promovidas pela Associação Portal Catarinas, em Porto Alegre, nos dias 1 e 2 de agosto, ecoa na carta enviada a autoridades públicas. 

O documento, escrito por mulheres que atuaram nas enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, cobra respostas sobre a proteção das populações mais vulneráveis e sobre as medidas para mitigar os efeitos da crise climática. A carta nasce de um processo participativo que valoriza a memória coletiva e as redes de cuidado tecidas por mulheres e comunidades durante e após a tragédia.

O documento é assinado por mulheres de diferentes trajetórias e frentes de luta: mães, lideranças comunitárias, promotoras legais populares, defensoras de direitos humanos, mulheres de axé, trabalhadoras do sexo, comunicadoras, além de integrantes de coletivos, redes e organizações sociais. Todas elas se reuniram nas Oficinas Incidência Política para Justiça Reprodutiva e Climática para construir, de forma coletiva, demandas e questionamentos ancorados em suas vivências, saberes e experiências territoriais.

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As oficinas Incidência Política para Justiça Reprodutiva e Climática aconteceram no Espaço Força e Luz, centro da capital gaúcha, e tiveram apoio do Instituto E Se Fosse Você?. A iniciativa integra o compromisso do Catarinas com o FP2030, uma iniciativa global que busca garantir acesso universal ao planejamento familiar e aos direitos reprodutivos até 2030, e tem o apoio da FP2030, Share-Net Colômbia, Profamilia e Save the Children.

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Participantes das oficinas | Crédito: Roberta Perin/Portal Catarinas.

Em fevereiro, o Catarinas lançou o Guia da Esperança: práticas para garantir justiça reprodutiva e climática, publicação que, a partir da integração entre conhecimento científico e experiência vivida, apresenta diretrizes para enfrentar as desigualdades de gênero em contextos de crise climática.

Juntamente com o guia, foram publicadas três reportagens especiais e duas web stories que abordam os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul, em maio de 2024, sobre os grupos mais vulneráveis, especialmente mulheres e meninas. Durante as oficinas realizadas em Porto Alegre, o Catarinas apresentou o guia às lideranças, que, em conjunto, discutiram suas propostas e coordenaram a redação da carta.

Corpografia: politizando as emoções no corpo coletivo

A partir das ideias apresentadas no Guia da Esperança, as oficinas valorizaram a memória coletiva e as redes de cuidado formadas pelas próprias mulheres e comunidades durante e após o desastre climático. Participaram 12 lideranças feministas de diferentes movimentos sociais, que avaliaram o guia em relação ao conteúdo, linguagem, aplicabilidade, acessibilidade e com sugestões de melhorias. 

As participantes também vivenciaram a corpografia — metodologia feminista que reconhece o corpo como território de memória e autocuidado. Na prática, a atividade consistiu em formar grupos para desenhar um corpo coletivo, sobre o qual foram inscritos símbolos e imagens que expressavam sentimentos e experiências vividas durante a enchente.

“A partir do mapeamento das emoções e sentires incorporados no desenho, estabelece-se um autorretrato coletivo, possível de ser escutado e localizado no tempo histórico presente e passado. A corpografia, portanto, busca emergir leituras individuais e coletivas das trajetórias experienciadas pelas mulheres”, explica Nicole Ballesteros, presidenta da Associação Portal Catarinas, que conduziu as oficinas.

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Crédito: Roberta Perin/Portal Catarinas.

A ação partiu do reconhecimento de que também é preciso cuidar da saúde mental das lideranças, que estão constantemente dedicadas a cuidar de outras pessoas. “Esses corpos-territórios nas enchentes, ora fortalecidos — já que estiveram à frente dos processos de acolhimento e assistência — ora fragilizados, interiorizaram de diferentes maneiras as experiências da catástrofe”, complementa Nicole, que ministrou a oficina.

Entre dores, memórias e resistências, a corpografia transformou vivências individuais em denúncia coletiva, revelando tanto a injustiça territorial quanto a força das práticas de cuidado e esperança. O luto pelas perdas materiais e simbólicas foi trazido em relatos como o de Claudia Prates, da Marcha Mundial das Mulheres: “Eu via todos os dias a água subindo um pouco mais, até que ela entrou na minha casa. Perdi quase tudo que tinha no andar de baixo, inclusive as fotos da Marcha”, contou emocionada. 

A psicóloga Tayara Maronesi, do Instituto E Se Fosse Você?, destacou a importância da memória como ferramenta coletiva de enfrentamento. Para ela, as lembranças funcionam como cicatrizes que não devem ser esquecidas, “para que nunca mais se repita”. Assim como na pandemia, acrescentou, não existe “novo normal”: é preciso resgatar a memória para seguir adiante de forma coletiva. Responsável pela mediação da corpografia, Tayara teve papel fundamental no apoio às mulheres diante dos gatilhos emocionais despertados pela experiência das enchentes.

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Crédito: Roberta Perin/Portal Catarinas.

Justiça climática deve partir de políticas públicas voltadas às necessidades das mulheres

Entre as participantes esteve Fabiane Dutra, militante feminista há 26 anos, presidenta do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e assessora da Procuradoria Especial da Mulher na ALRS. Integrante da União Brasileira de Mulheres (UBM), já representou o movimento em espaços como o Fórum Social Mundial e o G20 Social. Em 2024, durante as enchentes no estado gaúcho, esteve na linha de frente do atendimento às mulheres, papel que reforça sua trajetória e posições de liderança — como já registramos nas reportagens do Catarinas

“Acompanhamos de perto, as mulheres numa situação muito vulnerável, muitas vezes sem absorvente, sem uma calcinha, sem o mínimo de dignidade menstrual. Mas ainda assim, sofrendo violência, sendo abusadas e com dificuldades de acesso aos serviços. E o pior, isso não acontece só durante a calamidade”, recorda sobre o desastre climático.

Fabiane enfatiza a importância de que a justiça climática seja pensada a partir da vida de meninas e mulheres. Ela observa que, enquanto a reconstrução do Rio Grande do Sul tem priorizado a indústria e a agropecuária, não há políticas públicas voltadas às necessidades desses grupos sociais. 

Para a presidenta do conselho, a reconstrução do estado precisa compreender a justiça reprodutiva em sentido amplo — não restrita à saúde sexual e aos direitos reprodutivos, mas vinculada também ao direito à moradia, à soberania alimentar e ao acesso a serviços essenciais. “Muitas escolas e creches ainda não retomaram as condições anteriores às enchentes”, alerta.

Entrega da carta: ‘não esquecemos para que não se repita’

A carta é um documento coletivo construído a partir do diagnóstico inicial feito com base na abordagem de design de políticas, que parte da escuta ativa e da compreensão das experiências concretas das comunidades. Esse método permitiu identificar lacunas e formular questionamentos precisos ao poder público, com foco nas necessidades reais das populações mais atingidas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul.

O texto da carta não apresenta soluções pré-definidas, mas, sim, um conjunto de perguntas estratégicas que buscam respostas formais, públicas e imediatas sobre políticas, orçamentos, ações de prevenção, reconstrução e participação social. Essas perguntas estão diretamente relacionadas à perspectiva de gênero, à justiça reprodutiva e climática e à reparação das perdas sofridas, abrangendo temas como saúde, moradia, combate à violência, geração de renda e saúde mental.

“Após um ano e três meses, não aceitamos silêncio, descontinuidade ou promessas vazias. Queremos compromisso formal, resposta oficial por escrito e cronograma de implementação com prazos e canais de participação efetiva da sociedade civil. Nossa memória segue viva, e é ela que nos move: não esquecemos para que não se repita”, destaca trecho do documento.

A carta foi entregue pessoalmente por Paula Guimarães, diretora executiva do Portal Catarinas, ao deputado Pepe Vargas (PT), presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS), e à deputada Bruna Rodrigues (PCdoB), procuradora da mulher na ALRS, em encontro realizado em 5 de agosto. Também participaram Fabiane Dutra e Manuela D’Ávila, presidenta do Instituto E Se Fosse Você?, Tayara Maronesi, psicóloga do instituto, que atua com perspectiva de gênero, raça, classe e decolonial, e Fran Rodrigues, coordenadora do Plantão de Apoio Colmeia, projeto do Instituto.

“Ainda não existe um protocolo consistente para emergências climáticas que considere as perspectivas de gênero e raça. E isso é fundamental, porque o ‘novo normal’ são essas situações que estamos vivendo. Exigir diretrizes nesse sentido é essencial para enfrentar essa realidade sem aprofundar ainda mais as desigualdades”, alertou Fabiane durante a entrega do documento.

Já a diretora executiva do Portal Catarinas, Paula Guimarães, destacou que, nesses contextos, não basta garantir a reabertura de creches, é preciso assegurar o acesso a contraceptivos, ao aborto legal e a uma rede ampla de direitos fundamentais, sem os quais as mulheres, que são historicamente cuidadoras, ficam ainda mais sobrecarregadas. Ela lembrou que a presença das lideranças mulheres na linha de frente não ocorre por acaso: “No cotidiano, já assumem esse papel, e isso se intensificou durante as enchentes”.

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Da esquerda para a direita: Fabiane Dutra, Franciele Rodrigues, Manuela D’Ávila, Pepe Vargas, Paula Guimarães, Bruna Rodrigues e Tayara Maronesi | Crédito: Maria Clara Viegas/Instituto E Se Fosse Você?.

O deputado Vargas reconheceu a importância do documento, especialmente no cenário em que desastres climáticos tendem a ser cada vez mais frequentes. “Nesses momentos, infelizmente, quem mais sofre é quem está nas vulnerabilidades de classe, gênero, raça e deficiência”, complementou. A deputada Bruna lembrou que o Rio Grande do Sul viveu cinco anos consecutivos de tragédias, entre pandemia, secas e enchentes, cujos impactos ainda marcam profundamente a vida dessas pessoas. “Um plano de saúde mental para situações de emergência é urgente”, apontou.

A partir da entrega da carta e da conversa, o presidente da ALRS e a Procuradora da Mulher propuseram realizar audiências públicas em municípios atingidos pelas enchentes, além de organizar um protocolo de gênero e infância para situações de emergência climática, a ser encaminhado para o poder executivo.

Além da entrega presencial, a carta também foi enviada por e-mail a órgãos do governo estadual, deputadas e deputados estaduais, e aos Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, dos Direitos Humanos e da Cidadania, do Desenvolvimento Social, e das Mulheres.

Como continuidade do processo, está prevista a divulgação de um relatório sobre a ação e, posteriormente, a reformulação do Guia da Esperança a partir das contribuições e melhorias propostas durante as oficinas.

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