No último sábado (26), Juliana Garcia dos Santos Soares, de 35 anos, foi espancada com mais de sessenta socos no rosto pelo então namorado Igor Eduardo Pereira Cabral, de 29, um ex-jogador de basquete, dentro de um elevador em Natal (RN). Juliana teve fraturas múltiplas na face e na mandíbula e precisará passar por cirurgias. Eduardo foi preso em flagrante e vai responder por tentativa de feminicídio.

Sancionada em outubro de 2024 pelo presidente Lula, a nova Lei do Feminicídio (14.994/2024) torna o feminicídio crime autônomo e aumenta a pena de reclusão de 20 para 40 anos. Antes, era tratado como qualificadora de homicídio, com penas de 12 a 30 anos.

O vídeo da agressão foi divulgado nesta segunda-feira, 29 de julho, e escancarou a brutalidade a que milhares de brasileiras ainda estão submetidas, todos os dias, muitas vezes longe das câmeras, da repercussão, e, principalmente, da Justiça.

O agressor já havia sido denunciado por outros episódios de violência, mas, como tantos outros homens no Brasil, foi protegido por uma estrutura que desacredita a palavra feminina, adia decisões judiciais e falha em interromper ciclos de violência mesmo diante de alertas evidentes e sucessivos.

Em 2024, o país registrou 1.459 feminicídios, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, e 83.114 casos de estupro, um recorde histórico.

Os dados são do Mapa de Segurança Pública de 2025 do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O documento ainda indica que a taxa nacional de feminicídios no Brasil é de 1,34 por 100 mil mulheres, com os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Maranhão e Paraná apresentando os índices mais alarmantes. Em números absolutos, São Paulo e Rio de Janeiro lideraram, com cerca de 250 e 107 casos, respectivamente.

Nos estados de Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, uma mulher foi assassinada a cada 17 horas, geralmente por alguém que ela conhecia ou com quem dividia a vida, como revela a Rede de Observatórios da Segurança.

Os números não apenas denunciam a gravidade do problema, como exigem ação urgente. A violência de gênero persiste não por falta de sinais, mas por ausência de atenções e respostas. Quando uma mulher denuncia e medidas rígidas não são tomadas imediatamente em favor da proteção dessa vítima, o sistema envia uma mensagem clara para ela: “você está sozinha. E desprotegida”.

A raiva como herança masculina

Mas há algo ainda mais estrutural e silencioso que sustenta tudo isso: a cultura da violência masculina.

O modelo de masculinidade que impera no Brasil, e em grande parte do mundo, ensina os homens, desde a infância, a sentirem apenas uma emoção com total liberdade em detrimento das outras: a raiva.

Muitos meninos são podados ao chorar, sentir medo, tristeza, vergonha, felicidade em “excesso” ou por demonstrar afeto, por exemplo. São punidos quando são sensíveis, mas recompensados e valorizados quando são mais duros, frios e competitivos. Crescem acreditando que impor-se é dominar, e que dar espaço para a vulnerabilidade é sinal de fraqueza, exceto, quando essa dor fica fora de controle e se manifesta como fúria.

É assim que a raiva se transforma em “linguagem afetiva”. Em lugar de diálogo, há o grito. Em vez de vulnerabilidade, a agressão. E quando não há limite nem consequência para nada disso, essa raiva vira violência, soco, estupro e feminicídio.

Educar os meninos é salvar vidas

Enquanto não educarmos os meninos para sentirem, reconhecerem suas emoções e respeitarem os limites do outro, e os seus próprios, continuaremos apenas apagando os focos de incêndios de uma floresta que arde há séculos.

A autora Silvia Federici, no livro “Mulheres e Caça às Bruxas”, afirma que “a caça às bruxas não foi um surto de irracionalidade, mas um projeto político, parte fundamental da construção do Estado moderno e da disciplina dos corpos femininos”. Se ontem, portanto, queimavam mulheres que lutavam por liberdade, hoje as matam por sua autonomia. O sistema apenas mudou de roupagem.

Em “Calibã e a Bruxa”, outro livro da autora, Federici reforça que o terror imposto ao longo da história sobre as mulheres foi essencial para que o patriarcado se firmasse como parte da lógica capitalista. “O corpo da mulher tornou-se o campo de batalha em que se travou a luta pelo novo poder. Um corpo a ser domesticado, vigiado e punido”. Um corpo acuado em um minúsculo elevador. E esse campo de batalha nunca deixou de existir. Ainda hoje, ele se manifesta nos lares, nos relacionamentos, em delegacias que ignoram denúncias, em escolas que não ensinam sobre masculinidade violenta e nas famílias que não conversam.

Quando vai ser diferente?

Não é mais possível tratar esses casos absurdos como exceções. Eles são sintomas de um país doente, onde o que se diz ser amor pode virar ameaça. Onde um lar pode se tornar o lugar mais perigoso para uma mulher. E o medo de morrer, ou ser violentada, desde a infância, é real e recorrente.

Precisamos romper com a lógica que silencia, isola e culpa as vítimas. Que ainda pergunta “o que foi que ela fez para apanhar desta maneira?”, “por que não saiu antes?”, ou “por que se submeteu a isso?”. O questionamento deve ser “por que ele se sentiu autorizado a agredi-la moral, emocional e fisicamente?”

Termino este texto lamentando pela mulher espancada em Natal, com o rosto desfigurado, o corpo ferido e a alma machucada para sempre. Acuada em um canto de um elevador pequeno, sem possibilidade de defesa ou qualquer chance de ajuda. Também penso em todas as que não tiveram tempo de pedir socorro. Nas que foram silenciadas antes de conseguir dizer “não suporto mais”.

Se quisermos viver em um país onde mulheres parem de morrer, os homens precisarão reaprender a viver. E nós, enquanto sociedade, deveremos reaprender a educar. Porque só haverá futuro para as meninas quando houver recomeço para os meninos. Um recomeço longe da raiva e da violência emocional e física. E mais perto do amor, do respeito e da empatia.

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  • Claudia Guadagnin

    Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e Mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas....

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