Minha trajetória como vereadora em Florianópolis e, por um período, como deputada federal em Santa Catarina, me trouxe uma constatação dura: ocupar um espaço de poder sendo mulher, lésbica, feminista e de esquerda ainda é um ato de coragem e resistência.

A violência política de gênero é real e brutal. Sinto isso na pele em suas mais diversas formas. Desde ameaças diretas — como um e-mail em 2023 com o meu endereço e uma ameaça de morte, que seguem impunes, até o assédio dentro da própria Câmara Municipal que denunciei

Apesar da condenação do agressor por danos morais, o próprio Legislativo afastou as acusações de assédio sexual e violência política. Na época, mesmo tendo deixado o cargo por ser suplente, ele foi nomeado para um cargo comissionado dentro da estrutura do parlamento. É revoltante ver uma instituição que deveria ser plural insistir em manter estruturas patriarcais, naturalizando e invisibilizando os casos de assédio.

Além disso, há as formas mais sutis e constantes de deslegitimação: interrupções sistemáticas na fala, distorções do nosso posicionamento, ataques nas redes sociais e exclusões deliberadas de decisões.

Minha experiência, infelizmente, não é isolada. Ela é compartilhada por muitas mulheres e pessoas LBTI+ que, como eu, ousam ocupar lugares historicamente negados a nós.

A violência não nos atinge da mesma forma

A violência política de gênero não nos atinge a todas da mesma forma. Mulheres negras, indígenas, trans, periféricas, lésbicas ou com outros marcadores sociais enfrentam camadas adicionais de opressão, tornando-se alvos de uma violência interseccional

Essa violência é direcionada não somente porque ocupamos esse espaço, mas porque representamos outro projeto de sociedade: um que afronta a cisheteronormatividade compulsória, o racismo estrutural e o autoritarismo das elites.

Quando diversidade é só fachada

A sub-representação feminina nas instituições — ainda somos menos de 20% nas câmaras, assembleias e no Congresso Nacional — é um reflexo direto dessa violência. Mesmo com a legislação de cotas, os resultados são desiguais porque as barreiras são estruturais. 

E, enquanto os partidos tratarem nossa presença como marketing, e não como compromisso político, continuaremos sendo silenciadas e tokenizadas, incluídas apenas para criar uma ilusão de diversidade, sem real mudança nas estruturas de poder.

A omissão do Estado e os limites da lei

A Lei nº 14.192/2021 é um marco importante no reconhecimento da violência política de gênero. Contudo, sua aplicação é extremamente limitada. 

Faltam canais de denúncia acessíveis, protocolos de acolhimento, profissionais preparados e, principalmente, vontade política para garantir que essa legislação funcione. A lei falha ao não contemplar as especificidades de gênero, raça e classe que atravessam essa violência, e se concentra quase que exclusivamente em situações eleitorais, deixando de lado o que acontece no cotidiano de diversos espaços de decisão – como partidos políticos, sindicatos, mandatos parlamentares, movimentos sociais e conselhos de participação popular.

Eu sinto isso no dia a dia. A violência política se manifesta no modo como as instituições são organizadas, nas barreiras invisíveis que restringem nosso protagonismo, na exclusão deliberada de mulheres de espaços decisórios.

Quantas vezes nossas propostas são deslegitimadas, nossos recursos cortados, ou nossas denúncias internas ignoradas? Essa é uma violência que nos afasta da vida pública.

É por isso que promovemos, junto a mais de 30 organizações, mandatos e entidades, a Conferência Livre Violência Política de Gênero nos Espaços de Poder: Democracia Não se Cala. Nosso objetivo vai além de denunciar: queremos um espaço de debate, de partilha de experiências — as minhas, as suas, as de tantas outras — e de construção coletiva de soluções para enfrentar esse desafio que ameaça a própria vitalidade da nossa democracia. 

Quando metade da população é impedida de exercer plenamente seus direitos políticos, o pacto democrático se enfraquece, abrindo espaço para autoritarismos e desigualdades persistentes. Quando a presença de mulheres — especialmente as que desafiam a norma — é constantemente ameaçada, o que está em jogo não é apenas nosso direito de existir na política, mas o próprio futuro democrático do país.

Se queremos uma política comprometida com a justiça social, os direitos humanos e a diversidade, precisamos proteger quem se atreve a construí-la. A democracia não se cala. E nós também não.

Como participar da Conferência?

A Conferência Livre “Violência Política de Gênero nos Espaços de Poder: Democracia não se Cala” será um espaço virtual e gratuito de escuta, troca e construção coletiva de propostas para enfrentar essa realidade.

Data: 9 de agosto (sábado)
Horário: das 8h às 13h
Formato: Virtual, pela plataforma Zoom
Inscrições abertas até 7 de agosto

Clique aqui para se inscrever

Conheça o texto-base, os eixos de discussão e quem está organizando essa conferência clicando aqui.

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  • Carla-Ayres

    Cientista social, mestre em Ciência Política pela UFSCar e doutora em Sociologia Política pela UFSC. Militante desde a a...

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