Quando propôs uma investigação parlamentar sobre o aborto legal realizado em uma menina catarinense de 11 anos, questionando a veracidade do estupro do qual essa criança foi vítima, Ana Campagnolo (PL) mostrou que seu compromisso como deputada estadual não é com a lei, mas com seu projeto autoritário de poder.

Quando mandou seu exército de apoiadores atacar a antropóloga Simony dos Anjos em uma publicação do Catarinas, na semana passada, mostrou que tampouco é compromissada com os dogmas de sua religião, que são refratários à violência. 

“O ódio provoca dissensão, mas o amor cobre todos os pecados.

-Provérbios 10:12.

As ofensas foram articuladas pela parlamentar via Instagram, em resposta à entrevista “Conheça Simony dos Anjos, defensora de um cristianismo libertário para as mulheres”, que foi ao ar em 4 de outubro. Em um story, ela pediu para seus seguidores comentarem o carrossel de divulgação do material com a frase: “Toda feminista é abortista, toda abortista é do demônio. Não existe feminista cristã.”

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Imagem: reprodução.

Ao nosso jornalismo, que é pautado pela laicidade, não interessa medir os atos de uma deputada eleita a partir da régua cristã. O nosso objetivo é expor suas incoerências ao escrutínio público e evidenciar a outrofobia que alimenta seu discurso de ódio. Um ressentimento danoso para a máquina pública, afinal, estamos diante da parlamentar estadual mais votada da história de Santa Catarina. 

Como aceitar que uma figura política se aproveite da tribuna para disseminar desinformação? Como permitir que faça uso da visibilidade de seu cargo para incitar ódio? Como explicar o uso de dinheiro público para investigar um aborto previsto em lei há 80 anos, questionando inclusive a decisão do Ministério Público Federal? 

Cabe destacar que todas as medidas legais foram tomadas. Simony dos Anjos apresentou uma queixa contra Campagnolo ao Ministério Público de São Paulo e recebeu o apoio da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, do Movimento Resistência Reformada, do PSOL Osasco e do Sintusp. Aqui nós também prestamos publicamente a nossa solidariedade e o nosso apoio à antropóloga.

Ataques à imprensa

Após analisar 10.196 postagens publicadas na semana de 3 a 9 de outubro, a associação Repórteres sem Fronteiras (RSF) constatou que um movimento coordenado de agressões à imprensa se consolidou nestas eleições.

O relatório traz o que chama de “ataque coordenado” de Campagnolo para o centro do debate. “O padrão do ataque é claramente coordenado pois, entre os dias 4 e 5 de outubro, o post somava apenas 44 comentários. No dia 6 de outubro, depois que a parlamentar convocou seus seguidores a agir, o post recebeu mais de 1.900 comentários, muitos com a mesma frase repetida. No dia 7 até às 16 horas, quando os dados foram coletados, foram mais  214 comentários”, explica a RSF.

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Imagem: Repórteres sem Fronteiras (RSF).

De acordo com a associação, o caso é diferente dos demais pois as ofensas não estão ligadas diretamente à pauta política, mas têm forte viés religioso. Entre os comentários, a expressão “não existe feminista cristã” foi a mais repetida e o termo “cristã” foi o mais utilizado, ligado às palavras “feminista”, “feminismo” e “demônio”.

“O caso é um exemplo de que, para intimidar veículos e jornalistas, não é necessária a utilização de termos e hashtags explicitamente ofensivos à imprensa. Aqui, o volume e frequência das postagens foram usados numa tentativa de constrangimento e silenciamento do Portal Catarinas”, conclui a análise.

Ao atacar o jornalismo do Catarinas, a estratégia de Campagnolo é a mesma de Bolsonaro, de quem é devota: gerar insegurança na população e abrir caminhos para seu projeto antidemocrático de poder. Em uma sociedade democrática, é o jornalismo que fiscaliza os três poderes e expõe suas arbitrariedades. Sem uma imprensa livre e profissional, o povo padece nas mãos dos autoritários – mas não se depender de nós. O Catarinas sempre fará oposição ao ódio institucionalizado.

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