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Logotipo da chapa Lula- -Alckmin | Imagem: reprodução.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: vamos juntas pelo Brasil

Postado em 18/05/2022, 17:22

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura pela LSE, professora de  comunicação no MBA em Diversidade da Universidade LaSalle, coordenadora da escola feminista e antirracista Emancipa Mulher e conselheira editorial do Portal Catarinas, traz notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nas redes sociais.

Semiótica aplicada

A alta replicabilidade de signos dos nossos tempos – em outras palavras, a reprodução e repetição de imagens e discursos a que estamos expostos – é força motriz da corrosão do sentido também característica da era, como o linguista e filósofo francês Jean Baudrillard nos anos 1980 alertou que seria. Para tanta confusão cognitiva, ensinamentos da semiótica: nesta coluna analiso ícones, índices e símbolos, significantes e significados, simulacros e simulações, enquadramentos, e o hiper-real conforme vistos na internet nestas semanas recentes.

Vai, malandra

Ao ler e ver as notícias e logotipo do lançamento, em 7 de maio, do Movimento Juntos Pelo Brasil – a diretriz principal de campanha para a chapa Lula-Alckmin nas Eleições de 2022 – notei que as recomendações da presidenta Anitta – de deixar nomes de lado e dar um mote positivo de mudança para o País – parecem ter sido as mesmas que guiaram a comunicação da frente ampla. 

E talvez sejam meus olhos, mas o logotipo também remete à apresentação recente da diva no Coachella.

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À esquerda: palco da cantora Anitta no Coachella 2022. À direita: logotipo da chapa Lula-Alckmin nas Eleições 2022 | Imagens: reprodução.

Ficou bonita essa logo somente em tipografia e iconografia. Os ícones de coração e da bandeira do Brasil (composta apenas pelas formas e cores da flâmula), o convite textual para ação, e a coisa toda feita em tons de verde e amarelo + branco, preto e vermelho (respectivamente, a soma de todas as cores, a ausência total de cor, e a única cor a ser nomeada em todas as línguas conhecidas pela humanidade) formam uma imagem basilar e completa.

Girl from Brazil

Muito esperto o look de nêmesis do Véio da Havan que a Anitta usou no Coachella, ainda em abril. O picumã vermelho + shortinho e cropped em tons bandeira da gata foram prescientes da campanha Lula-Alckmin. 

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Anitta em Coachella, abril de 2022 | Imagem: Paulo Pimenta.

Brilha uma estrela

Foi decisão de Janja, companheira de Lula, retomar o tema icônico da campanha presidencial de 1989. O “Sem medo de ser feliz” de 2022 aparece repaginado com novas letras e arranjos, que acenam para o sertanejo e o gospel.

De certa forma, esse jingle sempre foi uma espécie de louvor brasileiro. Sua retomada – em que cantam Chico César, Duda Beat, Bela Gil, Lenine, Martinho da Vila, Mart’nália, Odair José, Pabllo Vittar, Paulo Miklos, Russo Passapusso, Teresa Cristina, Zélia Duncan e mais um bocado de gente – foi coordenada pela futura primeira-dama, que surpreendeu no lançamento do Movimento Juntos Pelo Brasil

Assista ao clipe da música “Sem medo de ser feliz”, baseada na versão original de Hilton Acioli, uma surpresa preparada por Janja para Lula. (Autoria: Leonardo Leone. Produção executiva: Ricardo Stuckert, Janja Lula da Silva)

Hinos políticos

1989 foi um ano bom para jingles presidenciais. “Juntos chegaremos lá” era o mote textual, musical (e gestual, em Libras) da campanha de Guilherme Afif Domingos. 

Jingle da campanha de Guilherme Afif Domingos (PL), candidato a presidente da República. 1989.

Lembro também de uma estrofe do jingle de Fernando Collor, cuja campanha foi fortemente baseada na imagem do então jovem governador do Alagoas como “caçador de marajás”, enquadramento feito pela Revista Veja em 1988.

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Com informações de Memorial da Democracia:
“A Revista Veja anuncia na capa reportagem sobre o governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, atribuindo-lhe o título de “Caçador de Marajás”. Os chamados “marajás” eram funcionários públicos que, por meio de processos fraudulentos, acumulavam vencimentos e benefícios exorbitantes.
No governo de Alagoas, Collor devassou os contracheques de centenas de funcionários, atitude que lhe rendeu a fama de paladino da moralidade. Num quadro de hiperinflação e forte descontentamento popular, Collor usava a “caça” a esses servidores na construção de uma imagem de salvador da pátria.
Apontado em pesquisas como um dos quatro políticos mais admirados do país, o jovem governador, então com 38 anos, começava a pavimentar o caminho para se lançar como candidato nas eleições presidenciais do ano seguinte. Embora apontasse a falta de lastro político de Collor e alertasse para aspectos demagógicos da campanha contra os “marajás”, a revista elogiava sua postura. A reportagem gerou uma grande mídia positiva para o candidato e contribuiu para sua ascensão política.”

A estrofe ia assim: “Collor, Collor, Cooollooor/É a nossa hora é a vez do povo”, e até a eu de dez anos de idade sabia que Fernando Collor era muitas coisas, mas, do povo, obviamente, ele não era. Ainda assim, foi elle que o Brasil elegeu…

Enquadrando Lula

Das memórias da campanha presidencial de 1989, uma das que me são mais formativas são as edições que a Rede Globo fez, para seu ciclo de noticiários do dia seguinte, do último debate presidencial televisionado daquele pleito. O Debate Collor X Lula foi o evento comunicativo midiático que despertou em mim a curiosidade para compreender o que, anos mais tarde, aprendi ser framing – ou enquadramento. 

Teorias de enquadramento se referem aos quadros de significado com que criamos e interpretamos conceitos, valores, emoções, dentre outros processos cognitivos, psicológicos, linguísticos, sociais e políticos. O linguista George Lakoff diz que enquadramentos operam como idiomas para encaixe de visões de mundo nas formas como ideias são evocadas, emitidas e recebidas. Para o cientista político Robert Entman, os enquadramentos de mídia são feitos de seleção e saliência, e basicamente delimitam o escopo com que abordar um assunto. 

O enquadramento feito para as sínteses veiculadas no Jornal Hoje e Jornal Nacional de 14 de dezembro de 1989 me deixou intrigada em 1989, mas meus comentários críticos sobre o que me parecia ser um importante e urgente evento social causado pela mídia encontrou ouvidos moucos na hora do Jornal Hoje, e, mais tarde, também deram de ombros quando voltei a apontar a manipulação óbvia da edição no Jornal Nacional. Anos depois ficou bastante patente o significado do evento, que hoje a própria Globo narra em seu repositório de “Erros”:

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Imagem: reprodução.

O mesmo jingle. O mesmo país. Outro contexto.

O tema “Lula lá” era cantado pelas crianças a plenos pulmões em 1989. Na época tínhamos recém vivido as Diretas Já, visto a reabertura democrática, e celebrado a consolidação da Constituição de 1988. O antipetismo odioso ainda não entusiasmava tanto. Era outro País. 

E por falar em contexto…

Esta semana Guilherme Terreri, que dá vida à drag queen com look de primeira-ministra conservadora e nome de aristocrata alemã, Rita Von Hunty, declarou que reprova a campanha pelo voto em Lula no primeiro turno. 

Na entrevista, Guilherme lista justificativas conhecidas, como o legado de aprimoramento democrático e despolitização das massas frequentemente atribuído ao PT, e a relutância em fazer campanha para Alckmin, de que francamente compartilho, pois não há maraschino que avermelhe esse chuchu. Mas segundo sua opinião, a lógica política apresentada como discurso de insistência no voto em Lula no primeiro turno das Eleições de 2022 dá força política a Bolsonaro e incentiva a burrice. 

É importante que discussões pautadas na insistência por um voto específico não sejam tomadas como a forma mais adequada de fazer política. Mas ajuda não esquecer que tudo na História pode resultar em conclusões diferentes dadas as condições concretas do contexto.

Em 2016, por exemplo, 6% de mulheres negras estadunidenses votaram em Trump, enquanto 91% votaram em Hillary Clinton – o maior percentual de votos para a candidata do Partido Democrata, dentre todos os grupos demográficos (47% das mulheres brancas, por exemplo, preferiram o candidato do Partido Republicano, contra 45% que votaram em Hillary, conforme dados do Pew Research).

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Stacey Abrams | Imagem: Reuters.

Stacey Abrams – que em 2022 se tornou a primeira mulher negra a ser indicada para concorrer ao governo de um dos Estados Unidos da América (no caso, a Geórgia) – em 2020 escreveu a cartilha que serviu de modelo para a vitória de Biden. Os ensinamentos da autora do principal manual de práxis política na direção da remoção de Trump do poder, pela via democrática do voto, são baseados na educação política pelo voto no Partido Democrata

Contexto é tudo.

#EleNão

Em 2018, no pé das eleições presidenciais no Brasil – e também por uma mulher negra (a publicitária baiana Ludmilla Teixeira) – foi engendrada a campanha Ele Não, que em termos muito simples apresentava para a população a seguinte lógica: estão no pleito Bolsonaro X Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Ciro Gomes (PDT), Eymael (DC), Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (NOVO), João Goulart Filho (PPL), Marina Silva (REDE) e Vera Lúcia (PSTU), e a sugestão – e sei bem porque estive lá – não era votar no PT, mas insistir no não voto em Bolsonaro. 

A mensagem era clara: ele, não. Isso no primeiro turno. No segundo, tivemos que seguir bradando Ele Não, enquanto fazíamos campanha para Haddad. O quanto o Ele Não aumentou ou diminuiu o número de votos para Bolsonaro no primeiro turno é até hoje uma das muitas tensões não resolvidas sobre as manifestações políticas e as Eleições de 2018. Mas o que é certo é que foi mesmo ele que o Brasil elegeu.

E agora, um meme da linguística

Este meme, sobre os quatro estágios do simulacro, é muito bom:

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Imagem: reprodução.

O hiper-real 

Eu gostaria de deixar Jean Baudrillard pra trás – suas misoginia e a transfobia são dureza de encarar – mas a cada evento comunicativo que acontece nesse mundão da internet, mais difícil fica de eu me desapegar da elaboração que este homem cis branco e francês, de retórica mais ranzinza do que a de Beauvoir e Nietzche combinadas, fez do hiper-real sob a luz do discernimento entre simulacros e simulação, a partir do reconhecimento de que a alta reprodutibilidade de signos acabaria por descolar significante e significado na direção da dissolução do próprio sentido.

O hiper-real é um conceito empregado na semiótica, linguística e filosofia pós-moderna para se referir a instâncias em que a consciência não consegue discernir realidade de fantasia, e sempre me pareceu uma insistência do Baudrillard indicar que isso resultaria em confusão por profusão simbólica em simulacros.

A violência online é uma questão real e séria, e me espantou o card que ilustra o post do comentarista Anderson França em defesa de Guilherme Terreri, que interpreta Von Hunty. Este card ilustra o conceito de hiper-real feito de simulacros. Guilherme foi alvo de violência simbólica da massa raivosa na internet por manifestar sua opinião e posições políticas, algo que ele e todas as pessoas têm direito de fazer sem medo de retaliação, mas que não é uma posição subjetiva nova para mulheres, pessoas negras e LGBTQI+ que se manifestam publicamente.

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Imagem: reprodução.

É por isso que, em outra direção, mas tanto quanto a imagem do Oreo de Peixe do meme acima, este card ilustra a lógica da construção do hiper-real. A comoção em relação ao importante ato de defender a liberdade de expressão se manifestou como simulacro. Rita é um personagem. Que não levou bala na testa. Os signos desta imagem não são o reflexo da realidade básica; eles mascaram uma realidade básica. Esta imagem é uma distorção da realidade. Ela inclusive evoca questionamentos acerca do que é a realidade, ou se ela sequer existe. Os signos aqui já não retêm nenhuma relação com a realidade: são puro simulacro. 

Cancelamento de persona

Me arrependi de ter adicionado no Facebook minha antiga crítica às práticas pedagógicas de Von Hunty a essa onda algorítmica de memes de amor e ódio sobre sua declaração recente, pois nos últimos anos esse tipo de polêmica acaba por servir maus propósitos. 

Mas observar e revelar as demandas e práticas profissionais problemáticas que prosperam na cultura influencer – tal qual a exponencialização da expectativa pela espetacularização da educação, onde Guilherme prospera – não é da ordem do silenciamento, muito menos do famigerado “cancelamento”, essa fantasia da já mitológica “fragilidade branca”. É da ordem do rigor e da crítica.

Como colocou o jurista e professor brasileiro, docente da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e Prêmio Jabuti pela obra Como decidem as cortes?, publicada pela FGV Editora, José Rodrigo Rodriguez: 

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Imagem: reprodução.

Guilherme pode falar o que quiser, assim como podem seus críticos e admiradores – veja: neste artigo publicado pela Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação no 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – 1º a 10/12/2020, por exemplo, Tarcyanie Cajueiro Santos e Francisco Sirtori, da Universidade de Sorocaba, saúdam a personagem de Guilherme, e dentre os trabalhos que usam para substanciar a análise, há um texto meu

Por isso me adianto no pedido por discernimento entre uma crítica da realidade básica e acusações de RadFem. Feministas Radicais que detestam pessoas trans e trabalhadoras sexuais, as chamadas TERF (Trans Exclusionary Radical Feminist) e SWERF (Sex Work Exclusionary Radical Feminist) nas siglas em inglês, apresentam comportamento fascista, operando no e a partir do desejo de aniquilar existências. O trabalho da pesquisadora Beatriz Pagliarini Bagagli sobre feminismo radical trans excludente é esplendoroso

Mas talvez muito ajude, para este discernimento, a seguinte elaboração da realidade básica feita pela professora feminista de sociologia, mestra e doutora em educação Vanessa Gil:

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Imagem: reprodução.

Boas decisões políticas

Fecho esta coluna citando a já citada política estadunidense Stacey Abrams: “Para tomar uma boa decisão, você realmente precisa pensar sobre ela, seus contornos e suas consequências.”




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo