Imagem: Montagem Catarinas

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (45) – ou o poder da vagina e o medo dos homens

Postado em 17/01/2021, 13:06

Domingo, dezessete de janeiro de dois mil e vinte e um. Nesta segunda semana do ano que começou velho, em Florianópolis vivemos o medo do contágio. Depois das festas e dos ajuntamentos, temos mais o que temer. Em casa, enclausurada, escrevo e organizo arquivos de poemas e contos. São tantos os escritos que até me embaralho, mas cuido para não perder nenhuma memória. Os guardados me espreitam e as letras mudas em folhas amareladas pelo tempo ganham pulso e movimento ao meu olhar atento. Sim, escrever sempre foi meu refúgio e nesta pandemia tenho me dedicado a este ofício.

Bom mesmo é que o livro Crônicas da Incontingência da Clausura – cotidianos na pandemia está quase indo para a gráfica! Montar um livro e publicar em plena pandemia é uma ousadia e, como é evidente, todo feito via telinhas, arquivos que vão e vêm das mãos e olhos cuidadosos de Angelita Correia, Rejane Wilke e Fábio Bruggemann. Logo, logo… aguardem!

Como toda gente que tem cérebro e o usa com discernimento tem ciência dos perigos de contágio e se cuida, temo esse medonho invisível nas minhas narinas.  São hoje quase seis mil óbitos em Santa Catarina e perto de 210 mil no Brasil. Morrer é uma incontingência, ninguém escapa. Mas morrer dentro de uma pandemia por um vírus descontrolado, e um governo que rechaça as medidas de contenção, é aterrador. Em Manaus, lugar que dizem ser o pulmão do mundo, pessoas morrem sem oxigênio, que tragédia anunciada. Esperamos a vacina, todavia não será simples assim, como receber a dose e ir para a balada. Cuidemo-nos. Resilimo-nos, por ora.

Dia desses deparei-me com uma fala de Ney Latorraca, ator que admiro: “Eu não gosto dessa gente. Gente sem máscara, para mim, eu não olho na cara, odeio”. Negacionistas dirão que é preconceito, mas eu entendo a fúria do ator. Eu desvio de quem se atravessa meu caminho sem máscara ou com ela como enfeite debaixo do queixo. Há um sentimento corrosivo acirrando-se na sociedade entre aqueles que aderem e os que rejeitam o uso da máscara, como se não bastassem as polarizações já existentes entre democratas e fascistas. O uso ou não da proteção facial expõe de que lado a pessoa está.  O que dizer daquele macho escroto exibindo tatuagens que entra na fila, tosse, empina o peito e olha com desdém para quem está de máscara? A quem e a quais ideias ele segue? Também odeio, Ney.

Nesta sociedade polarizada, tudo gera comentários irados, seja o que for. A imagem da vagina “Diva” na arte de Juliana Notari, esculpida no Parque Artístico-Botânico da Usina da Arte em Pernambuco, está dando o que falar. Além dos ataques brutais à artista, machos enrustidos de plantão marcaram um “punhetaço”: eis o medo das “vaginas que perturbam o mundo com sua potência”, na excelente análise da jornalista e escritora Eliane Brum.

Substantivo feminino, vagina é a formação anatômica tubular nas fêmeas dos mamíferos. É uma membrana musculosa que vai do útero ao seu orifício externo. Isso é anatomia. Ponto.  Nos dicionários etimológicos, lemos que vagina – original do latim – significa “bainha”, ou o termo dado ao envoltório de couro que cobria a lâmina de uma espada. Bainha era o que meu pai e os homens do campo penduravam na cintura para guardar a espada. Daí vem a expressão “homem-espada”. Que coisa… quantas interpretações são possíveis aqui.

O anatomista alemão Johann Vesling, no século XVII, usou a palavra vagina pela primeira vez para descrever o órgão sexual feminino, como uma referência à “bainha que cobre a espada”, ou seja, o pênis sendo envolvido pela vagina durante o ato sexual. Na língua portuguesa, a grafia da palavra vagina se manteve praticamente igual ao original em latim, mas seu significado ficou relacionado ao órgão sexual feminino dos mamíferos.

Na cultura andina, por exemplo, a vagina é reverenciada dentro de uma cosmovisão, chamada paqarina, ou a representação do útero materno e da vagina como portadoras do broto da vida, entrelaçados à mãe terra ou Pacha mama que dá vida a tudo o que existe.

Vulvas artesanais produzidas no Peru servem como ferramenta para a educação sexual, sendo uma forma de as mulheres tomarem consciência de seu corpo.

Ver em https://www.jotdown.es/2014/09/la-sagrada-vulva-andina-que-hace-libres-a-las-mujeres/

Na construção do corpo genereficado, é ensinado às meninas que seu sexo é sujo, vulgar, maléfico e lugar do pecado. As mulheres de minha geração sabem o que isso significa: vergonha, medo, pudor, silêncios e dores. Era interdito deixar partes do corpo à mostra, bem como falar ou perguntar sobre o sexo, tudo fruto do conservadorismo religioso que nos legou o pecado no lugar dos prazeres. As religiões e a intervenção das igrejas fizeram o desfavor de considerar o sexo como pecado e condenar ao fogo do inferno toda mulher que ousasse se fazer perguntas – mas, nos confessionários os padres podiam fazer perguntas íntimas… e por certo se masturbavam, quando não iam para as vias de fato… malditos!

A imposição da religião católica desde o início da ocupação europeia na América, e das religiões fundamentalistas mais tarde, impregnou o sexo e, por conseguinte, a vagina, como um lugar obsceno, uma parte do corpo a ser escondida e preservada virgem até que um sacramento – o do matrimônio – desse a “autorização divina”: agora pode foder. Mas só para ter filhos… bem claro.  Eles, os escribas dos livros sagrados, sabiam o quanto o orgasmo é bom, mas trataram de esconder a sua beleza como forma de controle sobre os corpos das mulheres. Ufa, nossa geração consegue escapar dessas amarras e o gozo feminino passa a ser estimulado e terapêutico. Fodamos, então, e com prazer!

Por que o espanto com “Diva”? Quando, em 1866, o francês Gustave Courbet pintou “A origem do mundo”, a obra foi considerada pornográfica e também gerou polêmicas. Outras obras na época começaram mostrar a sexualidade com realismo e erotismo, rompendo com a anterior estética até então aceita pela sociedade. Um exemplo é “Olympia, de Édouard Manet, em 1886. Na era vitoriana, no século XIX, o sexo se escondia. Mas era imperativo falar dele nas ciências médicas, pedagógicas e jurídicas que se articularam para produzir um conhecimento sobre a sexualidade. A ousadia dos artistas fez tremer puritanos, tanto homens quanto mulheres.

Gustave Courbet, “A origem do mundo”, 1886.

O que fariam os desmiolados conservadores se “A origem do mundo” fosse exposta num museu no Brasil? Lembremos que, em Porto Alegre, o Museu Santander Cultural foi fechado e a exposição Queermuseu cancelada devido a ataques dos ‘pudicos de plantão’. Isso faz três anos. A direita é bem assim: não admite nada além daquilo que desafia seu apetite de poder. O corpo da mulher é uma ameaça aos ultraconservadores e, na ânsia de controle sobre as escolhas e prazeres das mulheres, usam a fé como justificativa para este confisco. Satanás que os acolha no seu manto de horrores.

Existiria outra representação mais fiel de nossa origem que não o ventre e o sexo de uma mulher, pelos quais dá-se a luz e a vida? O prazer orgástico sexual está no topo dos prazeres. Por ele paga-se, morre-se, mata-se, guerras acontecem, impérios caem… como negar a sua natureza?

Desde que Matteo Realdo Colombo, o personagem de Federico Andahazi em O Anatomista, ‘descobriu’ o clitóris e suas fricções prazerosas – e por isso foi execrado e condenado por ações satânicas e hereges, isso em 1559 – a  Igreja Católica tem se empenhado em castrar as vontades femininas do sexo e seus prazeres.

Em pleno século XXI, por que “Diva” incomoda?? Expõe a vagina e o clitóris, este órgão que assusta e encanta na sua exuberância, mas também nas suas tragédias e feridas que “escancara as violências patriarcais”. Esse pequeno órgão erétil que desponta na vulva – vulva significa pele de fruta – recebeu mais de uma centena de sinônimos, e há incontáveis nomes populares para a vagina e o clitóris. Dentre estes, xibiu, de provável origem indígena, designando diamante, coisa preciosa. Na forma de um botão que se projeta entre os pequenos lábios, é composto por uma glande, um corpo e dois pedúnculos. Já que estou falando de sutilezas semânticas, pênis em latim significa penduricalho, cauda, rabo. Em grego é phallós, pelo latim phallus, donde origina-se falocracia, ou o poder masculino. Ah, as palavras…

Por que tanto medo da vagina? Os ferozes detratores da obra “Diva” nada mais revelam que estão doentes de ódio por si mesmos, misóginos apodrecidos por dentro e por fora, a ponto de repudiarem o lugar do qual todos saíram.

A visão masculina, fincada nas entranhas do modelo patriarcal que subjuga e nega o corpo feminino, pretendeu colonizar nossos prazeres. Pretendeu, mas não confiscou nossa libido. Habemos vagina, e nela um clitóris com a vantagem do toque perfeito que descobrimos bem cedo!

A vagina exposta na obra de Juliana Notari, para além da arte, dá a ver que é ela que engole, submete, subverte, assume o controle na relação e tem potência. Isso incomoda os homens. O clitóris protuberante assusta porque é o único órgão humano exclusivamente dedicado ao prazer…  Num diálogo, a mulher pergunta: “O que você quer?” Ele responde: “Eu quero teu prazer”. E ela resume: “Então vem, encontre-o com a língua”. Bem assim…

Flor de algodão, intitulei um poema em 2020:

No vértice do púbis

a vulva protege o grão –

macio como flor de algodão

tocado, o grão, que é botão

é saliência e tesão

a vulva, e a mão, acolhem o grão –

afogado, suado, no furor

da explosão.

Gozar também é revolução.

Revoltemo-nos, pois, contra as amarras dos dogmas que nos queriam pudicas, caladas e reservadas a um pátrio poder, renegando nosso gozo. Divas são todas as mulheres que acolhem “Diva”, a mulher nos seus tremores uterinos e orgasmos múltiplos. Não queremos agressão contra nossos corpos e nenhuma violência mais. Queremos, sim, os prazeres da carne, do sexo, da vida que pulsa! Queremos a paz.

 

Marlene de Fáveri, 17 de janeiro de 2021. Florianópolis.

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri