Foto: acervo pessoal

Diva, a vagina-ferida que escancara as violências patriarcais

Postado em 04/01/2021, 15:17

Com 33 metros de comprimento, 16 de largura e 6 de profundidade, a arte em concreto está instalada no município de Água Preta, Zona da Mata, em Pernambuco.

Atualizada em 4 de janeiro, às 19h38.

No alto de uma colina na Zona da Mata Sul, em Pernambuco, ela reina radiante pintada de um vermelho que lustra sobre o verde natural. É a obra Diva, uma vagina gigante de concreto instalada no barro, cuja imagem de tão inusitada, à primeira vista pode parecer uma animação de computador ou mesmo ilusão de ótica. A obra do tipo Land Art, caracterizada por uma fusão na natureza com a arte, é desdobramento do trabalho desenvolvido pela artista plástica Juliana Notari, de 45 anos. O lançamento da instalação em uma antiga usina de açúcar, às vésperas do ano novo, tem gerado visibilidade, mas também críticas de setores da esquerda e ataques de ódio por grupos bolsonaristas. 

Com 33 metros comprimento, 16 de largura e 6 de profundidade, a obra alude ao órgão genital das mulheres, que tem em seu corte e no vermelho sangue a perspectiva de uma ferida aberta causada pelas violências misóginas, tabus e opressões historicamente vinculadas à sexualidade das mulheres, seus modos de pensar e viver. 

Foto: acervo pessoal

“É uma vagina, mas é também uma ferida. Trago essa dimensão traumática do feminino, da violência do patriarcado em relação à dominação do corpo feminino que ocorre há dois milênios. Na passagem do feudalismo para o capitalismo, vemos o corpo da mulher ser privatizado junto com a terras, tanto que são queimadas, as bruxas vão para a fogueira, porque é justamente para as mulheres perderem o poder, deixarem de ter controle sobre si”, contextualiza a artista em entrevista ao Catarinas.

Instalada no Parque Artístico-Botânico da Usina de Arte, no município de Água Preta, a obra, que teve início em janeiro de 2019, é a primeira a tomar forma na 2ª edição do Projeto de Residências Artísticas, fruto do convênio entre o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) e a Usina de Arte. Foi finalizada após uma longa pausa, devido ao isolamento social. A Usina de Arte é um jardim de esculturas, um espaço de experiências, de interações, de transmutações. 

Foto: acervo pessoal

Desde novembro de 2018, o Mamam iniciou um processo de discussão sobre equidade de gênero, a partir do reconhecimento do apagamento das produções de artistas mulheres e LGBTQIA+.  Conversamos com a artista Juliana Notari, que é doutoranda e mestre em Artes Visuais pelo PPGARTES/UERJ, para saber mais sobre a obra e suas motivações. São 20 anos de trajetória artística pautada na ressignificação de traumas, desejos, fantasias e medos.

Catarinas: Como a obra foi construída?
Juliana Notari: O barro foi cavado e a obra foi esculpida na montanha, manualmente, depois recebeu uma camada de concreto armado e de resina pintada. 

O que te motivou a desenvolver Diva?
A obra vem desde 2001, com a performance Doutora Diva. À época achei vários espéculos ginecológicos de aço inoxidável em um ferro velho. Furava as paredes, banhava com sangue de boi e fazia o formato dessa ferida vulva, e aí coloquei o nome doutora Diva, porque era a assinatura que estava nos espéculos – ela com certeza era a dona, mas não sei nem quem era. Esse trabalho foi crescendo. Fiz performances em galerias, depois fiz a Amuamas, na Amazônia. Fui pra dentro de uma árvore, escolhi a Sumaúma, abri essa ferida na raiz da árvore, não no caule e não teve problema, conversei com o pajé, foi um ritual. Em vez de usar o sangue do boi, passei a coletar o meu sangue menstrual e, coincidentemente, foram nove meses de coleta para o período do trabalho na Ilha do Combu, que é uma reserva ambiental em Belém (PA). Fiz esse ritual lá. Banhei, fiz a ferida, enfiei sementes e, ao final, fechei a ferida e coloquei um relicário que eu tinha ganhado da minha avó que passava de geração em geração, coloquei na árvore e fechei. Então, isso também é desdobramento para fechar nesse trabalho do Diva – não mais doutora Diva. Tem muitos anos, questões que passaram por performance, até chegar nesse trabalho que performa na natureza. 

Performance Amuamas, em Belém (PA)/Foto: acervo pessoal

Uma questão que acho importante trazer é que as pessoas perguntam “por que não tem clitóris?”. É uma vagina, mas é também uma ferida. Trago essa dimensão traumática do feminino, da violência do patriarcado em relação à dominação do corpo feminino, há dois milênios. É muito claro isso quando a gente vê a passagem do feudalismo para o capitalismo: o corpo da mulher é privatizado junto com a terras, tanto que são queimadas, as bruxas vão para a fogueira, porque é justamente para as mulheres perderem o poder, deixarem de ter poder, controle sobre si, poder gerir seu corpo, e esse conhecimento passa todo para os homens. As curandeiras, parteiras, todas essas mulheres vão perder a vida, porque eram detentoras desse conhecimento. A biomedicina moderna elimina a mulher do conhecimento sobre o próprio corpo matando, queimando, tem toda essa dimensão traumática do feminino, o feminicídio, o estupro. Imagina quantas mulheres da minha geração passaram por agressões. Houve um momento, na passagem para o capitalismo, que o estupro na França era legalizado como pacificação social. Então é uma vulva ferida, por isso não tem essa coisa de ser literalmente uma vagina. Me interessa trazer a dimensão traumática do feminino e isso aconteceu.

O trabalho está mexendo com os preconceitos, com essa placa tectônica do machismo, misoginia, desse patriarcado opressor e violento. A arte tem essa vocação, esse papel na sociedade.

Em Dra. Diva (2006), a artista rasga uma fenda como uma vagina na parede branca, criando uma intervenção com textura de sangue/Foto: Acervo pessoal

Pode falar sobre os ataques que vem sofrendo?
Eu não esperava pelos ataques. São muito agressivos porque são formados por redes que, ao mesmo tempo, refletem o que a gente está vivendo, essa era bolsonarista que está no poder, justamente esses valores misóginos, de ódio, fascismo, que estão tomando conta do Brasil e do mundo. Essas pessoas se sentem completamente legitimadas a agredir e endossam esse pensamento de ódio ao diferente, a outras formas de viver, de pensar. Quando eu falo dessa relação do humano com o não humano, essa relação com a natureza é contrária à visão extrativista, capitalista, de que os recursos da terra não acabam. Acabam, sim, e nesse sentido as mulheres são conectadas com os ciclos, a gente sabe que temos ciclos menstruais, tudo tem começo e finitude. A gente sabe que não dá para usar todos os recursos da terra, não é a toa que estamos numa pandemia. É reflexo disso, tudo está atrelado à questão ampla do neoliberalismo extrativista, da mentalidade fascista que oprime, que quer que o diferente morra e que continue o patriarcado e o pensamento colonial. 

Nessa questão do gênero, é muito explícito o ódio à vulva, à buceta, tanto é que até os palavrões, “caralho”, por exemplo, são todos masculinos. Essa repressão é secular.

Há uma questão que a vulva sempre despertou: o lugar de mistério, poder, onde a gente nasce. Ao mesmo tempo, na obra também está a terra que recebe corpo morto. Tudo mexe com o sagrado que gera o pavor, mexe com o medo primitivo e está ligado à sexualidade.

É um prato cheio quando a gente tem um presidente que acha que a mulher tem que ser subjugada. É o homem branco, hetero, cis no poder, que acha que só pode ser ele a representação do poder a ditar as ordens. 

Foto: acervo pessoal

Como se deu o processo de escolha do local e a autorização para a obra?
A obra faz parte da Usina de Arte, projeto na Zona da Mata Sul, que partiu do casal Bruna Pessoa de Queiroz e Ricardo Pessoa da Queiroz, que são famílias de usineiros, donos da antiga usina que faliu. Eles resolveram revitalizar essa usina a partir de uma inspiração livre do Instituto Inhotim. Tiveram esse insight de utilizar a área abandonada. Eu sou uma das artistas convidadas para a residência, fiquei um tempo lá observando a área, convivendo com a comunidade. Pensei nesse trabalho, que vem dentro da minha estética, essa forma da ferida vulva que já me acompanha. Nesse caso, eu participei do convênio entre Mamam e a Usina de Arte. Nessa segunda edição, o museu escolheu somente mulheres e eu sou a primeira delas. Foram onze meses, teve a pandemia, paramos para respeitar as regras de isolamento e, por isso, tanto tempo para ficar pronto. O Parque Artístico-Botânico da Usina de Arte tem obras de vários artistas de peso e, revitalizando a área de canavial, é uma nova maneira de ressignificar a área, o que mexe com a sociedade local. A comunidade, que ficou à deriva com a falência da usina, está sendo reinserida na economia através da cultura, há várias oficinas de arte. Há um festival anual e que capacita o que tem de potente por meio dos melhores profissionais do país. É um trabalho social muito bonito. 

É importante dizer também que é uma obra com dinheiro privado, porque apesar de envolver o Mamam, que é uma instituição pública da prefeitura de Recife, quem custeou a obra foi a Usina de Arte, que é uma instituição privada, e a propriedade também é privada.

Foto: acervo pessoal

Você recebeu críticas por utilizar majoritariamente mão de obra de trabalhadores negros. Como foi o trabalho com a equipe na instalação?
Essa questão dos trabalhadores que atuaram na obra é uma das críticas que está gerando maior polêmica, porque envolveu trabalhadores negros. O que acontece é que é uma conta histórica brasileira social que está sendo colocada no meu trabalho. É um debate importante, mas ao mesmo tempo tem que ter cuidado, porque a arte não está apartada do mundo, ela faz parte da sociedade com todas as amarguras que tem. A gente saiu de um processo de escravidão que, desde Joaquim Nabuco, os escravos que teriam acesso à reforma agrária não tiveram e foram subjugados a trabalhos subalternos, precarizados, desde a construção civil. Na indústria do cinema, quem faz o trabalho mais braçal é a população negra, isso a gente vê em estatísticas visíveis: desde as mortes até a ausência nos espaços de poder. A foto que fizeram da obra poderia ser feita em um canteiro de obra de qualquer construção, porque é assim que funciona a sociedade brasileira. E a arte não vive num mundo paralelo, é um meio extremamente elitizado. Não é o trabalho da Diva que fez isso, é assim que funciona um Brasil racializado. Mesmo com todas as desigualdades sociais e raciais, o trabalho é muito bonito porque o engenheiro contratado levou trabalhadores locais, mais de 20 pessoas. Essa conta não é Diva que tem que arcar. Eu não tinha como fazer diferente, buscar pessoas brancas na Zona da Mata Sul de Pernambuco que precisassem daquele emprego. É hipocrisia jogar toda essa conta para a arte e, nesse caso, para a obra.

Foto: acervo pessoal

Além da questão do uso de mão de obra de trabalhadores negros, uma das críticas aponta que a obra resulta de uma combinação de racismo, extrativismo, violência ambiental e essencialismo do feminino. Como você percebe essas críticas?
Estou aprendendo, a partir do momento em que eu coloco a foto nas redes sociais, tem outra conotação, eu uma mulher branca também reafirmo esse lugar de subalterno. Eu tenho que ter cuidado com essas imagens, é um processo que estou entendo, sobre o poder da imagem, de reiterar os padrões sociais. Eu tenho consciência e autocrítica de que estou aprendendo, é um processo em que todos aprendemos juntos.

Sobre a questão do extrativismo, aquela área era um canavial, o bioma ali é muito pobre, porque o canavial sofre muitas queimadas, então é uma maneira de tentar revitalizar essa área. A arte é escavada no barro, tem um cimento por cima, a resina nem toca, é um projeto bem feito com engenharia, a água da chuva entra num processo de escoamento, num cano gigantesco que passa por dentro. Na foto fica parecendo que a obra está numa floresta, tem que ver como é junto com as outras obras que estão no ambiente, que é um parque artístico-botânico. Não tem impacto junto à essa paisagem. Nem uma árvore foi arrancada.

Essa relação com o sagrado eu falo da dimensão do mistério, daquilo que é sacro, que a gente tende a deixar guardado, não querer tocar, porque tem uma força que termina por gerar um tabu porque é considerado sagrado. O sagrado que está além de uma força ancestral, que de tão forte a sociedade precisa lidar com essa força, que é a morte, a morte é um tabu, é considerada sagra. É com essa força que esse trabalho mexe.




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Jornalista, cofundadora e diretora executiva do Portal Catarinas.
Veja a coluna da Paula Guimarães