Lutadora incansável e protagonista na defesa dos direitos da população em situação de rua em Florianópolis, especialmente das mulheres, Aline Salles conhecia profundamente as adversidades da rua. Sua atuação foi fundamental para dar visibilidade e organização a essa luta. Após 11 dias internada no Hospital Celso Ramos, na capital, ela faleceu em 25 de outubro, aos 43 anos, decorrente de um câncer de intestino e deixou um legado de luta e afeto.

“Nossa luta é por políticas públicas, pela garantia dos nossos espaços. A violência policial é o que mais acontece nas ruas, não há guarda municipal feminina, apanhamos dos homens. Queremos nossos direitos, somos mulheres também”, afirmou em entrevista ao Catarinas durante o 8M de 2020.

Em 2018, Aline idealizou o coletivo Voz Das Manas, que nasceu como rodas de conversa e rapidamente se tornou um movimento atuante na reivindicação de direitos, somando-se ao movimento nacional do povo de rua. O Voz Das Manas, sob sua coordenação, tinha como missão central ouvir as mulheres e a população LGBTQIA+ em situação de rua.

Um dos momentos mais marcantes de sua militância ocorreu na pandemia, quando pessoas em situação de rua foram alocadas na Passarela Nego Quirido, sambódromo de Florianópolis, em condições precárias. Aline liderou a denúncia desse descaso, articulando-se com movimentos sociais e coletivos feministas para expor a situação. Naquele período, lançou também uma campanha emergencial de arrecadação de kits higiênicos para mulheres.

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Aline | Crédito: reprodução.

Sua atuação é descrita como a de uma “potência da natureza” por sua amiga Marlete Oliveira. Ao Catarinas, a ativista da Marcha Mundial das Mulheres conta:

“Lembro como se fosse hoje, na marquise na praça em frente à Alesc, uma mulher moradora em situação de rua me chamou e pediu ajuda, não conhecia aquela mulher que viria a ser mais que uma companheira de luta, mas uma amiga. Imprevisível, humana, solidária, única, assim era Aline. Tive a honra de poder ouvir a história de vida dela contada por ela”. 

Marlete afirma que aprendeu com Aline que cada um constrói sua luta com as armas e meios que possui.

“Aline era um corpo político, marcado por toda sua história de vida, uma força da natureza em forma de mulher, daquelas pessoas que passam por nossas vidas e que deixam marcas profundas”, complementa

A psicóloga e amiga Mariana Obojes relembra um dos grandes sonhos de Aline: uma casa de acolhimento para as mulheres.

“A pandemia passou e o coletivo seguiu atuando. Aline sempre falou da realidade das mulheres na rua e seu maior sonho foi a criação de uma casa de acolhimento para mulheres em situação de rua que sofrem múltiplas violências. Para além do ativismo, nos tornamos amigas e compartilhamos muitos momentos alegres.”

Protagonista na política, na cultura e no cuidado

Aline fez história ao receber a Medalha Antonieta de Barros, honraria concedida pela Câmara Municipal de Florianópolis a mulheres com trabalhos de grande relevância social.

Foi representante da População em Situação de Rua no Comitê POP RUA e atuou na Passarela da Cidadania. Ali, sua luta resultou na conquista de quartos separados para mulheres, pessoas LGBTQIAP+ e casais. “Uma revolução”, na definição da amiga Laurinha Brelaz, que a conheceu em 2013, em uma abordagem de prevenção e testes para HIV.

“A conversa fluiu e começamos nossa amizade. Era exigente nas ações e protagonizava várias lutas. Defensora do aborto legal, da Redução de Danos, da dignidade menstrual, e participante de pautas como o EJA Pop Rua, tinha como lema ‘Nada pra nós, sem nós’. Meu amor, meu respeito pelo seu legado e contribuição social. A mulher, Aline Silva De Salles, fez história nesta cidade.”

A agrônoma e educadora Beatriz Zanini, lembra que apenas a presença de Aline já era suficiente para mudar o local.“Toda semana ela chegava animada para organizar as mulheres. Lembro de pensar: ‘é com ela que eu vou aprender a ser educadora nesse lugar’. Então grudamos.”

Em 2024, Aline havia retornado à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e estava lendo Carolina Maria de Jesus, uma autora com a qual se identificava profundamente. “A última vez que nos vimos foi porque ela queria ler ‘Quarto de despejo’, disse que se sentia como a autora… Aline era perspicaz, corajosa, articulada e cuidadosa. Imprescindível”, conta Beatriz.

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Aline com amigas e amigo | Crédito: arquivo pessoal.

O legado segue vivo

Gabriel Amado, organizador do Instituto Arco-Íris, destaca a singularidade presente na militância do coletivo fundado por Aline: “O Voz das Manas consegue acolher o sentimento mais profundo de rejeição nas ruas. É o único espaço que eu vi acolher esse sentimento, onde as pessoas se sentiam acolhidas mesmo”.

Em entrevista ao Catarinas, Gabriel enfatiza como a figura de Aline se fez essencial na luta da população de rua.

“As pessoas sabiam que a Aline estava presente e iam ao encontro dela. Começou então esse movimento inverso. A Aline nem precisava ir mais ao encontro, mas as pessoas iam atrás dela, porque se reconheciam dentro desse processo de sofrimento e luta.”

Aniversário de Aline em 2023 | Crédito: reprodução.

Para Heloísa Petry, psicóloga e amiga de Aline, esse é um legado que merece permanecer vivo.

“No velório de Aline, uma mulher em situação de rua, grande amiga dela, me disse aos prantos: ‘Não vai existir ninguém que lutou tanto por nós como a Aline. Ninguém!’. Temos o dever de honrar essa memória e transformar isso em realidade. Todas as suas feridas, as violências que viveu, os medos, as raivas, as tantas mortes que teve em vida se transformavam em combustível para falar o que tinha que ser falado, mostrar o que precisava ser mostrado.”

Heloísa, no entanto, revela a grande dor de Aline: ter sua palavra deslegitimada e ser rotulada como “louca” ou “descontrolada” devido à sua situação de rua, ao uso de crack e ao fato de ser uma mulher preta.

“Pois foi essa mulher que, na escuta real do chão da rua, fez coisas que muitos movimentos sociais e políticos não fizeram”, complementa a amiga, ressaltando a potência de sua atuação.

Em nota, o deputado estadual Marquito (PSOL/SC) destacou o “legado de luta e ativismo com coerência: falava do que vivia e lutava pelos seus, sempre com um sorriso no rosto, um discurso engajado e potente”.

O movimento Baque Mulher Floripa, coletivo que une mulheres negras e aliadas em Florianópolis através do Maracatu, a reverenciou como “nossa Pérola Negra encantada”, agradecendo seu amor incondicional.

“Agradecemos e reverenciamos sua linda e honrosa missão neste plano, que tanto possibilitou na produção de vidas, nos inspirou e nos ensinou a SER, com a certeza de que a espiritualidade e sua egrégora, já estão lhe cobrindo de amor e axé, em seu retorno para sua essência”.

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Aline | Crédito: reprodução.

O 8MSC – Florianópolis enfatizou que Aline sempre esteve ao lado de quem mais precisava, espalhando cuidado, amor e coragem: “Sua presença marcante, seu jeito doce e firme, e sua luta por um mundo mais justo e solidário seguem com a gente. Aline nos ensinou que resistir também é cuidar, é assim que vamos seguir, por ela e com ela”.

A Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa) lembrou que o núcleo de Santa Catarina esteve junto com Aline em diferentes momentos de luta e compartilhou um ensinamento: “Como ela sempre afirmava: O afeto reduz danos!”.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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