Aviso de gatilho: este conteúdo contém descrições de violência. Se você é sensível a esse tipo de informação, prossiga com cautela.

A defesa da família tem sido usada pela extrema direita no Brasil, como no mundo, como instrumento de mobilização social para interditar o debate sobre direitos. Não só cerceia esse debate com desinformação, como também sustenta projetos que censuram a escola e retiram direitos da população LGBTQIAPN+. Para esse grupo, pessoas que fogem à norma de gênero e sexualidade não deveriam sequer existir, quanto mais ter direitos ou formar família. É essa negação da existência que estrutura essa “defesa da família”, uma defesa que não protege ninguém, além de conceder verniz social à família cristã-padrão.

A série documental “Ausências: as histórias por trás do Mapa do Feminicídio”, produzida pelo Ministério Público de Santa Catarina, mostra quem, de fato, destrói famílias. Um dos episódios relata o caso de Eveline Schmitz, 38 anos, assassinada a facadas pelo ex-marido na frente dos dois filhos, de dois e quatro anos, em 4 de março de 2024, em Blumenau. A cena foi testemunhada pela menina mais velha, que implorou para o pai parar. “Ela presenciou tudo. Disse que implorou para ele parar, que a mãe pediu para chamar o tio, mas teve medo de abrir a porta. Disse que nunca vai esquecer, que tomou um banho do sangue da ‘mãezinha’.”

O relato é da avó materna Ilácia Fátima Huf, que passou a cuidar dos netos, com a ajuda da filha, após o crime, quando a família precisou mudar de cidade e reconstruir a vida. Como relatam no documentário, as crianças perderam não apenas a mãe, mas também o pai — que foi preso — e o próprio lar. No centro do caso está o machismo que motivou o crime e que sobrepôs o ódio e o sentimento de posse ao bem-estar dos filhos.  

Entre 2020 e 2025, Santa Catarina registrou 396 feminicídios — média de 66 por ano, segundo o Mapa do Feminicídio, do Ministério Público, 66 a mais do que informam os registros oficiais (330), o equivalente a um ano inteiro de mortes não contabilizadas. 

Especialistas apontam que o enfrentamento do feminicídio passa por uma mudança cultural profunda, com ações articuladas entre Estado e sociedade, tendo a educação como eixo central, como prevê a Lei Maria da Penha, ao estabelecer ações educativas para prevenir e combater a violência de gênero

Na prática, porém, o governo estadual segue na direção oposta, ao censurar o debate nas escolas. Diante disso, qual é a estratégia para frear os feminicídios, governador Jorginho Mello? Se a resposta for apenas mais prisão, os dados do estado indicam a baixa eficácia de respostas centradas apenas na punição: em muitos casos, o “depois” não entra no cálculo dos autores, e Santa Catarina figura entre os estados com altos índices de suicídio entre agressores após o crime. 

Vale mencionar a campanha do governo estadual contra o feminicídio, com o slogan “Seja homem. Denuncie”, protagonizada por um lutador de UFC. A escolha reforça códigos masculinistas e aposta em soluções individuais, sem enfrentar o machismo como estrutura. 

A contradição se aprofunda quando o governador divulga, em suas redes sociais, um vídeo em que aparece com armas de guerra, exaltando sua compra. A mensagem projeta a violência como resposta legítima e aponta um inimigo: “o bandido” que, na prática, recai de forma seletiva sobre jovens pobres, moradores de periferias e, com frequência, negros, mesmo em um estado majoritariamente branco. De janeiro a 10 de abril deste ano, já são 39 mortes produzidas pela polícia.

Eis a contradição da chamada “defesa da família”: a violência policial letal atinge jovens em sua fase mais ativa de vida e desestrutura famílias inteiras. São mulheres, mães, que têm o direito de exercer a maternidade interrompido, marcadas pela perda e pela violência de Estado. Um governo que naturaliza ou celebra a morte de jovens não sustenta, na prática, compromisso com a proteção das famílias.

A pergunta que fica: ao legitimar essas políticas e discursos, o governo não opera também uma violência específica contra as mulheres — sobretudo as que vivem em territórios vulnerabilizados e carregam de forma desproporcional o peso dessas mortes?

Vale destacar que, embora a maioria dos feminicídios no estado tenha sido cometida com arma branca (47,6%) e não com arma de fogo (23,1%), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta: ampliar o acesso a armas é fator de risco para mulheres em situação de violência doméstica.

O Mapa do Feminicídio traça o perfil dos autores. Eles estão presentes em todas as faixas etárias, de adolescentes a idosos, com predominância entre 20 e 49 anos (83,6%), especialmente no grupo de 30 a 39 anos (31,8%).

A escolaridade é concentrada nos níveis mais baixos: 38,5% não concluíram o ensino fundamental. Em seguida vêm os que completaram o ensino médio (22,7%), os que não concluíram (15,8%) e os que finalizaram o fundamental (13,1%). A presença de ensino superior é reduzida — 2,5% com incompleto e 1,6% completo — e 5,5% dos casos têm escolaridade desconhecida. 

Quanto aos antecedentes criminais, 72,6% dos agressores tinham registros por diferentes tipos de crime. Entre eles, 44,5% já haviam sido denunciados por violência doméstica contra mulheres. No que diz respeito à inserção no mercado de trabalho, mais da metade estava empregada (55,2%), mas há também autônomos (17,5%), desempregados (13,1%), empresários/comerciantes (1,9%), aposentados (3,3%) e estudantes (1,4%).

A maior parte dos autores se declara católica (60,4%), seguida por evangélicos (28,7%), praticantes de religiões de matriz africana e ateus (3,5%), espíritas (1,7%), protestante (1,3%) e Testemunhas de Jeová (0,9%). Esses percentuais desconsideram os casos com informação desconhecida, que correspondem a quase 40% do total. 

O perfil indica condições de vulnerabilidade estrutural, como baixa escolarização, precariedade no mercado de trabalho e acesso limitado a mecanismos de proteção. O documento recomenda a ampliação de políticas públicas voltadas à educação, à inserção produtiva e à proteção social, além da promoção de formas não violentas de resolução de conflitos.

Os dados não apontam para uma vocação para a violência, mas para desigualdades na atuação do Estado na garantia de direitos. A concentração dos casos nesses grupos reflete esse cenário, e não uma característica inerente, especialmente em um país majoritariamente de baixa renda e escolaridade.

Ao mesmo tempo, esses autores não são exceções: são homens comuns, imersos em uma cultura machista que naturaliza a submissão das esposas — nos serviços domésticos e sexuais — como se fossem objetos de posse, lavrada em cartório ou ritualizada na igreja. Nesse contexto, a violência acontece quando as mulheres deixam de corresponder às expectativas sociais impostas, ligadas à sua utilidade, agradabilidade e, em última instância, à legitimação de sua própria existência. 

Esses homens revelam uma concepção de afeto baseada na imposição, na força e na dominação. Diante da separação, uma experiência humana comum, não elaboram a perda de forma saudável: incapazes de aceitar o fim da relação, recusam o lugar de quem é deixado e impõem uma ruptura definitiva por meio da violência, tornando-se agentes da morte.

São os mesmos que se dizem defensores da família e matam suas esposas ou ex-esposas, apesar da destruição que causam aos próprios filhos e à própria casa. Defendem, na prática, o machismo e o que ele produz de pior: violência, morte e desintegração.

Os dados desfazem a narrativa de pânico moral: 93,7% dos autores são heterossexuais, enquanto 5,5% têm orientação sexual desconhecida e 0,8% são homossexuais. Ou seja, o problema não está em quem foge à norma, mas na própria norma que é o machismo estrutural.

Negar os efeitos da cultura bélica não a enfraquece, ao contrário, contribui para a reprodução da violência. O fato de o estado manter no poder um grupo político que exalta masculinidade e branquitude não é mero acaso. É parte de um projeto que se alimenta dessa violência e a mantém como estrutura. Em uma sociedade atravessada por valores machistas, misóginos e racistas, esses discursos são centrais para a manutenção da base eleitoral. Nesse terreno, lideranças se sustentam e se reproduzem: são fiadores e beneficiários do feminicídio.

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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1 comentário

Luciana Zucco em 06 de maio de 2026

Parabéns pela matéria!

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