No livro “Desonrada, a paquistanesa Mukhtar Mai narra o estupro coletivo que sofreu como punição decidida por homens que falavam em nome da honra. A violência foi pública, exemplar. Mas o que ficou depois foi a violência simbólica que a acompanhou: a tentativa insistente de convencê-la de que a vergonha era dela. Que seu corpo carregava a desonra. Que cabia a ela silenciar para que a comunidade seguisse intacta.

Às vésperas do 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, um estupro coletivo no Rio de Janeiro me faz lembrar desse tipo de engrenagem que carimba a vergonha em quem sofre a violência. A vítima, uma jovem de 17  anos violentada, sentiu-se culpada, envergonhada, desacreditada de que teria sofrido, de fato, uma violência, segundo relatou a mãe.

Ao pensar que seria apontada na rua como alguém desonrada, ela pensou em desistir da vida. Para confortá-la, a mãe disse a ela, a si e à sociedade: “O não dela é muito precioso e importa”.

O Paquistão é logo aqui quando nos deparamos com o sentimento de uma jovem que vê sua autoimagem se destituir de humanidade diante de uma violência. Neste caso, uma violação que se tornou possível pela relação de confiança que, no momento de maior intimidade, é usada como trunfo para extrair, com grau de perversidade, a masculinidade desejada. A honra masculina entre os pares é obtida sob os corpos das meninas e mulheres. 

O Paquistão é logo aqui quando se manter viva parece algo insuportável diante do que é violência, quando o desejo de morrer torna-se maior que viver violentada, humilhada.

Esse sentimento de desonra quando se é vítima expõe a eficácia de uma cultura que desloca a pergunta central do “por que eles fizeram?” para “o que ela fazia ali?”. Isso porque esse tribunal moral, já internalizado em nossas vidas, se instala antes mesmo do judicial. 

Uma cultura que investiga a conduta da vítima como se a violência masculina fosse algo dado pela natureza. “Prendam as cabras que os bodes estão soltos”, diziam os pais em tom de piada na minha época, e talvez muitos ainda o façam, afinal a percepção sobre isso pouco mudou.

Quando crimes perversos como esse acontecem, a sociedade oscila entre o choque e a conivência. Indigna-se diante do horror explícito, mas continua a naturalizar as bases que o sustentam. Ri de piadas misóginas, relativiza denúncias, trata o feminismo como exagero, mantém a vigilância sobre os corpos femininos. O “monstro” é apontado com espanto enquanto segue sendo alimentado.

Esse cenário que não é novo ganha novos contornos com o crescimento de discursos de ódio contra mulheres, com a difusão, entre jovens, de uma pertença red pill que reorganiza o ressentimento masculino em linguagem de guerra.

Homens, muitos ainda bem jovens, que veem ameaçados seus possíveis ativos de virilidade à medida que o desejo, a escolha e o exercício da sexualidade das mulheres não podem ser por eles controlados. A possibilidade de igualdade vira afronta e o consentimento um obstáculo. Nesse ambiente, a misoginia ganha estatuto de opinião legítima e, assim, deixa de causar constrangimento.

A defesa reiterada da “família” e da “honra” também opera aqui. Não como proteção concreta de vínculos e direitos, nem valores éticos, mas uma hierarquia social. A mulher que desobedece, que sai sozinha, exerce sua sexualidade, rompe relações, que denuncia, passa a ser vista como ameaça a essa ordem. Segundo essa visão, em geral, a mulher mente, é aproveitadora, traiçoeira e, ao fim, inventa falsas denúncias de estupro. Vejam: há advogados especialistas nisso e projetos de lei para criminalizar vítimas que seriam fraudulentas. Já os homens denunciados não passariam de meninos que cometem tropeços na vida, afinal ainda estão aprendendo.

Nesse cenário, representantes políticos de segmentos religiosos e grupos antifeministas têm desempenhado um papel ativo na construção de uma masculinidade que se sente acuada e, por isso mesmo, autorizada a reagir. Ao transformar o avanço de direitos em “ameaça à família” ou “ideologia perigosa”, alimentam uma retórica de confronto. O que aparentemente se mostra como discordância política é a produção de um inimigo interno. E, quando mulheres são convertidas nesse inimigo, a violência contra elas encontra lugar.

A masculinidade que emerge desse caldo é celebrada em púlpitos, em palanques, em vídeos virais. É uma masculinidade que se apresenta como defensora da ordem e depende da subordinação feminina inscrita nos corpos das mulheres para se sustentar, como analisou a antropóloga Rita Segato.

Quando esse modelo é reiterado como ideal (forte, controlador, ressentido) ele não só normaliza o machismo, como o legitima moralmente.

O resultado é uma sociedade em que determinada defesa da família é proporcional à falha em proteger meninas e mulheres. Que invoca a honra, mas silencia diante da violência. Que diz valorizar a vida, mas relativiza a integridade feminina quando ela desafia papéis tradicionais. No fim, o que está em disputa não é a defesa da família em si, mas quem tem o direito de existir fora de um roteiro previamente autorizado pelos detentores do poder patriarcal. 

Repare onde estão, neste momento, representantes políticos que constroem suas carreiras a partir do antifeminismo. Quais silêncios produzem diante de um estupro coletivo? Quais bravejos reservam para atacar políticas de igualdade, educação sexual, legislação de proteção? O silêncio diante da violência e o barulho contra os direitos não são movimentos desconectados. Apontam na mesma direção social e política: conservadora.

Quando desqualificam o debate sobre gênero, quando tratam a pauta das mulheres como ideologia, quando mobilizam o medo da perda de seus privilégios, quando perseguem o direito ao aborto, esses atores ajudam a autorizar.

Oferecem cobertura para que a violência entre os pares da confraria masculina seja minimizada, relativizada, às vezes até celebrada como reação legítima a um suposto avanço feminino. 

Trata-se de um sistema de violências que se retroalimenta. Exemplo disso, é que uma segunda jovem de 17 anos procurou a polícia e denunciou ter sido estuprada por, pelo menos, dois integrantes do mesmo grupo investigado pelo estupro coletivo. No depoimento, ela afirmou ter 14 anos à época.

O paralelo com Desonrada é que a honra justifica o estupro como humilhação, punição e castigo. Em ambos os casos, o que se protege é a mesma coisa: uma masculinidade que se entende no direito de disciplinar. Longe de ser impulso, estupro é exercício de poder. Historicamente, foi e segue sendo usado como arma de guerra: para humilhar, expropriar e devastar territórios, destruir subjetividades e enviar mensagens a outros homens. É muito menos sobre sexo e muito mais sobre dominação, sobre inscrever no corpo da mulher uma pedagogia da obediência.

Quando um estupro coletivo acontece, há ali uma dimensão exemplar. É demonstração de força entre pares, reafirmação de pertencimento a uma confraria que se reconhece na violência compartilhada. A humilhação é parte do roteiro e a perversão não está apenas no ato físico, mas na intenção de reduzir alguém à condição de objeto, de troféu, de aviso.

Chamar o estupro pelo que ele é, um crime de poder, de guerra cotidiana contra mulheres, desloca o foco. Obriga-nos a sair da narrativa do monstro isolado e encarar a cultura que autoriza, estimula e depois finge espanto.

Porque enquanto tratarmos esses crimes como casos individuais, continuaremos protegendo a estrutura que os produz.

E quando o crime é fatal, o feminicídio é visto com comoção. Há choque, notas oficiais, promessas de leis mais rígidas e a única solução dada é a de mais punição. Por alguns dias, instala-se a sensação de que algo absolutamente fora da ordem aconteceu. Mas esse espanto cumpre também outra função: a de encobrir o que é rotineiro. Ao tratar o caso como exceção monstruosa, empurra-se para debaixo do tapete o cotidiano de violências naturalizadas: o controle, a desqualificação constante, a culpabilização.

Às vésperas do Dia das Mulheres, a pergunta que permanece é sobre o cotidiano que antecede o crime e o autoriza. Que discursos estamos tolerando? Que violências estamos chamando de opinião? Que tipo de homens estamos formando? Que modelos de família estamos defendendo e a serviço de quem? E quem se beneficia quando a vergonha continua sendo empurrada para o lado de quem sobrevive?

Que a desonra seja devolvida a quem a produz e a sustenta, nunca a quem sobrevive. O seu, o nosso não, é muito precioso e importa. 

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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