Em junho de 2024, após um exame de rotina com a ginecologista da UBS (Unidade Básica de Saúde), descobri que estava gestante há algumas semanas. Quando a médica me disse, comecei a chorar, e ela, sem entender, respondeu: “Por que você está chorando? Filho é uma bênção.” Por sorte, ela me passou um pedido de exame para fazer no particular.

Digo sorte porque, se eu fizesse pelo SUS, talvez teria mais problemas, a gestação estava avançada e a consulta demoraria.

Realizei o exame em uma clínica particular. Na sala do exame, mesmo sem eu querer, a médica ligou o som para eu ouvir o coração e ainda falou que “era uma menina”. Antes disso, aconteceu o primeiro episódio estranho: quando fui fazer o teste de beta-HCG sanguíneo, a enfermeira que recolheu a amostra me perguntou: “Você está ansiosa? Quer que seja positivo?” Eu respondi: “Não, eu não quero que seja positivo.” A princípio, achei a pergunta um tanto inconveniente. Ela reagiu de um jeito estranho quando respondi que não. 

Porém, achei que poderia ser impressão minha. Mas, quando ela foi recolher meu sangue, colocou a agulha com muita força no meu braço, deixando um hematoma por mais de duas semanas.

Foi a partir dali que percebi que, se eu contasse para alguém o que estava acontecendo — ou que não queria levar aquela gestação adiante —, eu poderia me colocar em risco, ser julgada ou maltratada.

Comecei a procurar no Instagram ONGs que acolhessem e orientassem em casos de aborto. A princípio, eu procurava assistência para ir a outro país realizar o procedimento, pois não sabia que poderia fazê-lo legalmente no Brasil.

Encontrei a ONG Milhas Pela Vida das Mulheres. Quando entrei em contato, fui bem direta sobre o que precisava: queria saber se havia possibilidade de ir para outro país e se poderiam me dar alguma assistência financeira, pois o valor que eu tinha não era suficiente. Não puderam me ajudar. Disseram que só ofereciam assistência para abortos legais no Brasil e que não faziam nada ilegal (até o momento, eu ainda não sabia que meu caso era legal — explicarei mais adiante).

Tentei juntar dinheiro de todas as formas possíveis: empréstimos, vender tudo o que eu tinha em casa, pedir emprestado para pessoas. Mas percebi que ainda assim não seria possível realizar o procedimento fora do país. Eu não tinha muitas coisas para vender e ninguém pôde me emprestar uma quantia alta.

O motivo do meu desespero para ir abortar fora do país era, primeiramente — e obviamente — que eu não queria levar a gestação adiante. Mas o segundo motivo era que eu já estava com 19 semanas. O único lugar mais próximo onde poderia realizar o procedimento era a Colômbia, onde é permitido até 24 semanas. Eu estava correndo contra o relógio. 

Por alguns dias eu “surtei”. Já não estava indo trabalhar, fazia vários atestados falsos (mesmo correndo o risco de descobrirem), para não ser demitida e não perder meu único sustento. Pensei em fazer inúmeras coisas ilegais: roubar o carro da minha mãe e dirigir até lá, ir de bicicleta… Na minha cabeça, qualquer coisa era menos pior do que levar aquela gestação adiante.

Mas eu não consegui. Então desisti — não só do aborto, mas da minha vida. Me tranquei em casa e fiquei imaginando como eu poderia tirar minha vida. Ou se eu levaria a gestação adiante e depois entregaria para adoção. Decidi que tiraria minha própria vida. Mesmo levando à adoção, eu não teria apoio de ninguém.

Minha vida continuaria um caos. Eu já não tinha forças para mais nada.

Até que, no dia em que decidi isso, fiz uma oração pela última vez. Pedi para Oxalá — mesmo sem crer em mais nada — que, se ainda estivesse comigo ou se existisse algum guia, alguma ajuda espiritual nesse inferno de mundo, que me ajudasse. Que algo aparecesse. Porque eu não sabia mais o que fazer nem para quem pedir ajuda. Esse pedido foi uma forma de não desistir de mim completamente. Eu não queria resolver tudo tão drasticamente.

Então, meu amigo — uma das poucas pessoas que sabia do que eu estava passando, pois só havia contado a um casal de amigos — me mandou uma mensagem dizendo que tinha encontrado um projeto chamado VIVAS no Instagram. 

Entrei em contato na mesma hora e preenchi o formulário. Foi aí que, voltando ao relatado acima que iria esclarecer mais adiante, percebi que o meu caso se enquadrava como legal. Em uma das perguntas do formulário, me dei conta de que o que houve comigo foi, sim, uma violência sexual. Até então, isso não tinha sido esclarecido para mim. Na hora, senti um “alívio”, porque percebi que teria chance de realizar o aborto. Mas também senti uma dor enorme, porque além da gestação indesejada, tive que processar naquele momento que fui vítima de violência — e não tinha entendido.

O projeto VIVAS entrou em contato comigo. Conversamos. Elas me acolheram e tentaram entender meu caso. A princípio, fui direcionada para conversar com uma equipe médica de Brasília. Houve uma reunião. Me ouviram, mas disseram que não poderiam me ajudar. As meninas tentaram encontrar outro hospital que pudesse me atender, dentro do que meu caso se enquadrava, mas sem sucesso. 

Pedi ajuda financeira ao projeto (até ali eu já havia conseguido juntar o dinheiro para o procedimento na Colômbia), mas precisava de ajuda com transporte e hospedagem. Disseram que o projeto estava sem recursos no momento.

Conversando melhor com elas, fui orientada a procurar o Hospital de Campo Limpo, na cidade de São Paulo. Elas me deram toda a orientação necessária sobre como falar com a equipe médica e como seria o procedimento. Saí da minha cidade, que fica a 140 km da capital, e fui ao hospital no dia combinado. 

Chegando lá, passei no ambulatório e fui direto para a “área” de vítimas de violência. Conversei com a médica, ela pediu alguns exames e disse que eu deveria voltar em tal dia.

Voltei na data agendada, mas dessa vez falaria com a psicóloga e a assistente social do Hospital Campo Limpo. Passei com ambas, e esse foi o primeiro momento em que precisei relatar detalhadamente o que havia acontecido comigo e como eu “cheguei” até ali. Fizeram as mesmas perguntas várias vezes. Tive que relatar verbalmente como foi a violência e por que descobri a gestação tão tarde. Também me pediram que escrevesse o relato. Naquele momento, eu não me importei em responder. Só queria fazer tudo “certo” para que elas autorizassem o aborto.

Elas me disseram que o Hospital Campo Limpo não estava realizando o procedimento, pois no meu caso seria necessário o uso de assistolia, e esse hospital não realizava esse tipo de aborto. Me deram um encaminhamento para o Hospital Mário Degni e disseram que iriam repassar o relato para a psicóloga e a assistente social de lá.

Fui no dia orientado ao Hospital Mário Degni. Lá fizeram o agendamento para que eu voltasse outro dia, para então passar com a psicóloga e a assistente social.

Voltei na data marcada e passei com elas. Fizeram as mesmas perguntas que as profissionais do Campo Limpo. Então, questionei: “Elas não passaram o caso para vocês? Disseram que iriam passar justamente para eu não ter que repetir tudo de novo.” Mas me disseram que não haviam recebido nada, e que fazia parte do procedimento repetir todo o relato. Relatei novamente para a psicóloga, para a assistente social, e depois para o médico.

Com muito medo de me negarem o aborto, disse que estava sendo acompanhada pela Defensoria Pública. O primeiro médico que me atendeu conversou comigo e pediu “desculpas” por ter que me fazer relatar a violência novamente, mas disse que era obrigado a seguir um protocolo. Depois disso, disseram que iriam discutir o caso entre eles e avaliar se aprovariam ou não.

Aprovaram. O médico me ofereceu a possibilidade de colocar o DIU e me explicou como seria o procedimento. Preenchi os documentos e autorizações. Lembro que, ao preencher a autorização, havia um campo pedindo o horário em que a violência aconteceu – como se eu estivesse olhando no relógio naquela hora. Respondi que não lembrava exatamente. A assistente social me questionou:

“Você não lembra que horas viu a pessoa?” Respondi que não, talvez tivesse sido depois das 21h, 22h… mas que não conseguia acessar essa lembrança. Ela olhou para a psicóloga e riu. Sim, ela riu.

Me pareceu que foi porque eu não lembrava ou porque estava em um lugar tarde da noite, foi assim que interpretei.

Fui internada no mesmo dia em que aprovaram o aborto. Até ali, eu achava que os interrogatórios tinham acabado. Mas a psicóloga do hospital, desde o momento em que o procedimento foi autorizado, começou a me questionar se era isso mesmo que eu queria. Dizia que haveria consequências, que eu sentiria muita dor, que depois que o remédio fosse aplicado não teria mais volta. 

Eu já havia assinado os documentos, já estava decidida. Fui internada após o almoço e, até o fim do expediente da psicóloga, ela passou várias vezes no meu leito, perguntando se eu queria desistir. Tentava se aproximar, fazia perguntas pessoais como: “Ninguém da sua família sabe? Você não tem contato com seus familiares? Você sabe que vai doer muito, né? Você deveria contar para alguém da sua família. O homem que fez isso com você mora perto? Ele ainda está na sua cidade? Você conhece os amigos ou a família dele? Vocês se viram depois?”

Não havia mais necessidade de perguntar nada, eu só estava aguardando o procedimento. Ela não estava ali para me dar suporte psicológico – pelo contrário, estava ali para me colocar medo e exercer pressão. Antes de ir embora, ela passou no leito e perguntou, pela “última vez”:

“Você não vai querer mudar de ideia? Estou indo embora. Se quiser desistir, posso avisar a equipe médica.” Eu respondi que não. Ela disse: “Boa sorte.”

O plantão trocou. Entrou uma enfermeira chamada Iracema*. Ela se aproximou e disse: “Ana, você sabe que vai doer muito, né?” Eu respondi que sim. Ela disse: “Acho que você não sabe. Vai doer muito, muito mesmo. É uma dor insuportável. Você vai sentir muita dor.” Fiquei quieta e depois respondi: “Mas eu posso pedir medicação pra dor.” Ela respondeu: “Quem te disse isso?” Eu disse que o médico havia me orientado a pedir a qualquer momento. Ela respondeu: “Entendi. Mas a medicação não faz efeito. É uma dor que não tem medicação que tire.”

Pouco tempo depois, ela voltou e perguntou se eu queria desistir, pois a médica estava vindo colocar a medicação. Respondi que não. Ela disse: “Não adianta ficar chamando depois, porque já te avisei que vai doer muito.”

A médica chegou e colocou a primeira medicação. Durante o procedimento, não colocaram nenhum biombo para me resguardar das outras três mulheres internadas no mesmo quarto. Fizeram com que eu abrisse as pernas na frente de todas. 

Após o procedimento, pedi para uma outra enfermeira que, na próxima medicação, colocassem um biombo, porque me senti muito constrangida e humilhada. A enfermeira Iracema voltou e disse que a outra havia comentado que eu tinha pedido um biombo, mas que iriam colocar “dessa vez” e perguntou: “Você não sabe que está no SUS? Aqui não tem privilégios. Isso aqui não é hospital particular.” 

Cerca de uma hora após a aplicação do medicamento, comecei a sentir cólicas. A dor foi aumentando gradativamente. Chegou outro médico – o único que foi “mais humano” comigo. Ele pediu licença, perguntou se as residentes poderiam observar o procedimento (achei estranho, mas não falei nada; eu estava muito vulnerável).

Depois da segunda medicação, a dor aumentou muito. Já não era uma cólica leve, era uma dor muito forte. Iracema apareceu e disse: “Está sentindo dor? Eu avisei, e pode esperar que só vai piorar.” Depois dessa fala dela, entrei em desespero. Se aquela dor só iria aumentar, o que seria essa dor?

O médico voltou e aplicou a terceira medicação. Desde então, a dor se tornou absurda. Nunca havia sentido tanta dor na minha vida. Era uma dor que não sei descrever, uma dor torturante, agonizante, uma dor que me fazia perder a noção do tempo, do espaço. Era tão absurda que eu desejei a morte instantânea, só para que aquilo acabasse.

Pedi para chamarem o médico e implorei por medicação. A enfermeira voltou com dipirona, que obviamente não fez nenhum efeito. Depois de alguns minutos, desesperada, pedi que me dessem morfina ou tramal. Aplicaram tramal, e a dor diminuiu consideravelmente. Ainda sentia bastante dor, mas tive alguns lapsos de alívio. A medicação era muito forte e me deixou completamente dopada. Só desejava que o efeito não passasse. Não sei quanto tempo durou, mas parecia que eu já estava há muitas horas sentindo dor.

Estava com muita vontade de urinar, mas não conseguia levantar da cama. A enfermeira Iracema disse: “Levanta da cama e vai no banheiro pra você não fazer xixi na cama.” Respondi que não conseguia, e ela insistiu: “Levanta e vai.” Mas não consegui me mover. A dor voltou com tudo quando o efeito do remédio passou, e acabei fazendo xixi na cama e vomitando. Ela me xingou, disse que eu estava sujando os lençóis e dando trabalho. Meu celular acabou molhando e estragando.

Uma paciente que tinha acabado de chegar de uma cirurgia perguntou à Iracema:

“Por que ela está assim?” Na hora, olhei para ver o que a enfermeira responderia, e ela disse: “Porque ela está fazendo um aborto.”

Me senti desrespeitada em todos os momentos. O médico havia deixado claro que não era para falar sobre o caso com outras pacientes, e a enfermeira simplesmente me expôs.

Depois que Iracema foi embora, apareceu outra enfermeira, da qual não me lembro o rosto nem o nome. Ela parecia um fantasma. Só lembro dela dizendo, com uma voz distante (porque eu estava muito tonta), que o médico voltaria para colocar outra medicação. Entrei em desespero, com muito medo. Perguntei se eu poderia tomar mais tramal, e ela respondeu que não, que não adiantaria, que eu precisava sentir dor para expelir o feto — mas que, se eu quisesse, poderia desistir.

O médico voltou. Falei que estava com muita dor, ele disse que o procedimento já estava quase no fim. Ele disse que se eu quisesse ele esperaria mais um pouco antes de colocar a próxima medicação. Ele disse para a enfermeira anotar o horário e me dar esse tempo. Na hora, achei que era a melhor decisão, mas depois percebi que só prolongou ainda mais minha dor.

Quando deu o horário para o médico voltar, a enfermeira chegou antes e perguntou se eu queria desistir. O médico apareceu, e eu disse que estava doendo demais — eu gritava, me contorcia, suava, chorava. Perguntei: “Se eu desistir, o que acontece?” Ele disse que eu teria que fazer pré-natal e vários exames para verificar se a medicação não havia afetado o feto, porque ela era muito forte. Eu disse que queria desistir (mas foi por instinto, por pressão — não porque eu queria de verdade; eu nem sabia que decisão estava tomando). Ele perguntou se eu tinha certeza, pois já estava acabando. Eu disse que sim, e ele foi embora.

A enfermeira se aproximou — me disseram que ela deu um sorriso, colocou um soro em mim e saiu. Mas o que não me explicaram (por sorte) é que já não havia mais volta. O médico já havia colocado muitos comprimidos; o que ele aplicaria dali em diante seria apenas para acelerar o aborto e finalizar o procedimento. Eu não tinha entendido o que estava acontecendo, não estava consciente o suficiente para compreender.

Fiquei até às 3h da manhã sentindo dor, gritando, pedindo ajuda. Os acompanhantes de outras pacientes no quarto ficavam chamando a enfermeira, preocupados, mas elas respondiam que não havia nada a ser feito.

De repente, senti uma pontada inexplicável e gritei com toda a minha força.

Quando terminei de gritar, a dor tinha passado. O aborto aconteceu. Chamei a enfermeira. O médico demorou para aparecer. Não lembro muito bem, mas fiquei quase uma hora toda ensanguentada, com o aborto entre minhas pernas — dava pra sentir. Foi assustador. Todos os pacientes e acompanhantes no quarto ficaram muito assustados.

O médico chegou, mas em vez de recolher imediatamente o feto, chamou as residentes e disse: “Vejam, meninas, aqui está a placenta, etc., etc.” Depois foi embora. Outro médico chegou. Demoraram para trazer um saco para que ele colocasse o feto dentro. Quando a enfermeira apareceu com o saco, colocaram tudo dentro e o médico comentou: “Deve ter uns 500g, está grande.”

Foram embora, e eu apaguei de tão exausta que estava. Dormi toda ensanguentada, suja. Acordei depois de 1h30, mais ou menos (acho), com o médico me chamando e perguntando se eu queria tomar banho. Esperei um pouco, fui ao banho e voltei. Houve troca de plantão, e uma outra enfermeira chegou para aplicar ocitocina em mim.

Depois apareceu o médico legista, que começou a me fazer perguntas como: “Você quer dar algum nome para o bebê?” Entre outras.

Em seguida, uma enfermeira veio conversar comigo. Perguntei se eles não iriam colocar o DIU em mim, mas ela disse que normalmente só colocavam quando era feita curetagem, e no meu caso não precisava. Falei que o médico havia dito que eu poderia colocar. Ela respondeu que verificaria com algum médico, mas que poderia demorar e que não sabia quanto tempo levaria, e que eu poderia ficar mais algumas horas internada. Com isso, acabei desistindo do DIU.

Uma outra médica chegou e me deu alta. Fui me arrumar para ir embora. Antes disso, apareceu a psicóloga. Me chamou numa salinha — e, para isso, me fez atravessar um corredor com vários recém-nascidos e mães com seus bebês no colo. Lá, começou a me perguntar como tinha sido. Eu respondi que, obviamente, não estava bem. Não parecia que ela queria saber como eu estava, mas sim que eu contasse de novo tudo o que havia passado.

Fiquei em silêncio e perguntei se podia ir embora. Antes disse eu respondi que sim, que doeu muito, que a enfermeira havia sido desumana comigo. A psicóloga nem sequer disse “sinto muito”, ficou calada. Eu então afirmei: “Não me arrependo da minha decisão.”

Na hora de preencher os documentos da alta, a enfermeira disse que eu não precisava me preocupar com mais nada, que eles cuidariam do restante. Não precisava me preocupar com o “sepultamento” do feto, pois o hospital se encarregaria disso.

Agendaram um retorno para mim no hospital, para conversar com a psicóloga e fazer alguns exames. Não compareci no dia marcado — liguei e reagendei.

Alguns dias depois, numa tarde, recebi uma mensagem no meu celular. Era do IML. Já haviam se passado cerca de 40 minutos desde que enviaram mensagens e tentaram ligar via WhatsApp. Vi também uma ligação da minha irmã. Tremi e respondi. Minha irmã estava preocupada, dizendo que o IML estava tentando falar comigo e que eu não atendia. Ela contou que o IML disse que precisava de uma autorização minha ou de algum familiar para fazer o sepultamento do feto, relacionado a um caso de estupro.

Minha irmã, sem entender nada, disse que achava que havia algum engano. Ou seja, a atendente do IML passou todo o meu prontuário para minha irmã, causando um enorme transtorno.

Liguei para o IML e questionei o que tinham feito, por que repassaram meu prontuário a um familiar sem minha autorização. A atendente disse que estava me “procurando” e que eu não atendia as ligações nem respondia as mensagens. Porém, só havia as mensagens via WhatsApp e uma ligação — e eu demorei apenas alguns minutos para responder, pois estava ocupada. Não houve nenhuma tentativa anterior de contato.

No hospital, a psicóloga havia me perguntado se eu tinha alguma irmã próxima. Cometi o erro de dizer que sim, que tinha família. Depois me dei conta de que todas aquelas perguntas tinham um propósito, e ligaram justamente para a irmã que eu havia mencionado.

O IML perguntou se eu queria fazer o sepultamento do “bebê” e eu respondi que não. Perguntaram se eu autorizava, e eu autorizei. Depois disso, achei que o pesadelo havia terminado. Mas quatro meses depois, uma semana antes do Natal, a UBS do meu bairro me ligou dizendo que eu precisava ir até lá para esclarecer um “caso de aborto”. Perguntei ao atendente de onde aquilo vinha, e ele disse que foi repassado para a unidade, já que meu cadastro de saúde era vinculado a ela. Disseram que precisavam levantar “dados”. Fiquei preocupada. Achei que estava tudo certo, mas não me deixaram em paz.

Em janeiro, alguns dias após o ano novo, recebi uma intimação. Era óbvio do que se tratava. Não poderia ser outra coisa.

Entrei em contato com o projeto Vivas, que me auxiliou e encaminhou meu caso para o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, que desde então tem lutado por essa causa e me dado suporte.

Não me arrependo de ter feito o aborto. Foi uma das melhores decisões da minha vida. Mas toda a violência que sofri no hospital, a falta de suporte e de acolhimento, me causaram sérios desgastes psicológicos, emocionais e financeiros. Perdi meu emprego na época, tive que trancar a faculdade, enfrentei problemas financeiros e emocionais. Tive dificuldades para dormir, desenvolvi um medo muito grande de ir a médicos e hospitais.

Mas, repito: não me arrependo do aborto. Em que cenário eu teria um filho de alguém que me violentou? Como eu sustentaria uma criança sozinha? Como eu estudaria, trabalharia? Isso destruiria minha vida para sempre.

Tenho tentado seguir em frente, mas sei que ainda há uma luta pela frente. Eu tive a “sorte” de conseguir realizar o procedimento. Mas penso em quantas mulheres e meninas não têm — e não tiveram — essa mesma chance, por falta de amparo e por conta das violências do sistema.

Este texto, apesar de grande, ainda é pequeno perto do que vivi. Se eu fosse relatar todos os detalhes desse filme de terror, ele seria muito, muito maior.

Entramos em contato com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo para pedir informações sobre o atendimento ao aborto legal nos dois hospitais mencionados. As perguntas enviadas podem ser conferidas neste link.

Abaixo, a resposta enviada pela pasta:

“A Secretaria Municipal da Saúde informa que o atendimento para aborto legal é realizado nos seguintes equipamentos: Hospital Municipal Dr. Cármino Caricchio (Tatuapé), Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha (Campo Limpo), Hospital Municipal Tide Setúbal (São Miguel Paulista) e Hospital Municipal e Maternidade Prof. Mário Degni (Jardim Sarah).

Em parceria com o Governo do Estado, o procedimento de assistolia fetal é realizado pelo Centro de Referência da Saúde da Mulher de São Paulo.

A SMS acrescenta que, para a avaliação de casos específicos, são necessárias informações sobre a paciente e o atendimento prestado.”

Você também viveu algo parecido? Sua história merece ser contada.

Se esse relato ecoou em você, seja por ter enfrentado violência, humilhação ou barreiras em um aborto legal, fale com o Catarinas. Sua voz pode virar denúncia, reportagem ou até ajudar outras mulheres a não passarem pelo mesmo.

Nenhuma dor deveria ser carregada sozinha. Conte com a gente.

*Utilizamos um nome fictício para preservar a identidade da enfermeira mencionada e proteger também a autora do relato.

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