O machismo na Globo precisa ser combatido para além do caso Su Tonani

Postado em 07/04/2017, 14:32

A denúncia de Susllem Tonani contra José Mayer por assédio sexual, publicada no dia 31 de março no blog #Agoraéquesãoelas, provocou uma sensacional mobilização de centenas de funcionárias da Rede Globo, um expressivo e lindo sinal de sororidade tão bem-vinda nos tempos atuais. A figurinista, vítima de assédio por meses do galã global do primeiro escalão, recebeu apoio, foi acolhida e abraçada por suas colegas de trabalho, por muitas atrizes também do primeiro escalão global. Que bom. Que ótimo!

O caso, já com grande visibilidade, teve ainda mais repercussão. O assediador José Mayer assumiu publicamente os atos denunciados por Su Tonani. Em sua carta se descreveu como um ser criado numa sociedade machista, que reproduziu comportamento machista (ao tacar a mão na vagina de sua colega de trabalho, por exemplo), diz que errou e pediu desculpas à vítima. Sem especificar nenhum dos atos relados por Su Tonani, ele busca se redimir arrematando “mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas”.

Sentimentos de culpa, frustração, angústia e medo são evidenciados na denúncia da figurinista: “sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas as vezes que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho”. No texto em que a denuncia é feita, Su Tonani afirma que sofreu os assédios calada por meses, até o dia em que foi chamada de “vaca” aos berros por Jose Mayer, na presença de aproximadamente 30 pessoas num set de filmagem onde ele era a estrela da cena. Depois das cantadas, dos toques não consentidos, de mexer em seu cabelo, de insistir apesar dos “nãos”, de ter metido a mão em sua genitália, atos classificados pelo abusador como… “brincadeiras de cunho machista”, a vítima não aguentou mais e denunciou.

Nada fácil denunciar qualquer assédio. Difícil denunciar assédio sexual porque, em geral a mulher assediada é vista como exagerada, a doida, a louca, provocadora. A culpada! Agora imagina denunciar assédio sexual contra um ator global do porte de José Mayer. Apesar de eu particularmente achá-lo bem feio – medonho agora – ninguém vai negar que ele é medido como um dos galãs-garanhões do plantel da emissora. O cara é respeitado, tem 67 anos, é rico, branco, casado, heterossexual, protagonista do “horário nobre”. Meses sofrendo sem denunciar os assédios é perfeitamente compreensível, Su querida!

Ainda bem que suas colegas de trabalho não te deixaram na mão, organizaram rapidamente a campanha “mexeu com uma mexeu com todas #chegadeassedio”, te apoiaram, te abraçaram, ficaram ao teu lado, foram parceiras, se sentiram representadas por você. Afinal, quantas dessas atrizes, diretoras, dançarinas figurinistas já sofreram por meses assédios também? Quantos atores, diretores, executivos globais fazem “brincadeiras” corriqueiras como as desse senhor assediador?

Jamais vou deslegitimar a mobilização, protesto e campanha que as funcionarias da própria emissora desencadearam. Foi uma campanha maravilhosa, necessária, fundamental sob vários aspectos. Mas, pra não perder o hábito, vou problematizar a partir de alguns ângulos.

Nem sempre mexeu com uma mexeu com todas. Que bom que a partir de agora será assim (será?). Temos casos diários acontecendo, certamente muitas histórias verídicas poderiam se tornar minisséries de abusos dentro da própria empresa e as colegas não puderam contar com o apoio massivo e lindo como desta vez. A campanha “silenciosa”, num protesto onde centenas vestiam camisetas iguais e se manifestaram em suas redes sociais com a hashtag #chegadeassedio foi divulgada e “impulsionada” pela empregadora do assediador e da vítima. Assim sua imagem segue inabalada nesse caso, sai com saldo positivo, faz marketing com o caso, sem processo contra si. Que beleza pra empresa. A poderosa Rede Globo se apropria dos protestos de suas funcionárias contra o assédio cometido por José Mayer contra Su Tonani, no local de trabalho de ambos, durante o horário de trabalho, nas dependências da empresa.

Além disso, “toma uma atitude enérgica”: suspende o abusador José Mayer de ser escalado por tempo indeterminado de produções da emissora. Não suspende sua contratação, ele apenas não pode ter papel nas produções bancadas e transmitidas pela Globo. A questão está personificada, individualizada. Não é tratada como um problema frequente que atinge as mulheres todos os dias naquela empresa. Tampouco houve qualquer recomendação por parte da empresa aos machinhos galãs de seu plantel que não tomassem a defesa pública do assediador confesso Jose Mayer, tanto que Caio Blat a fez. Tenta se remendar todo depois da repercussão negativa que obteve.

A emissora que afirma “repudiar” o que José Mayer assume ter feito contra uma (quem sabe quantas?!) colega de trabalho, tem um rol de “ficções”, impossível de se enumerar, que tratam as mulheres de modo violento, misógino, preconceituoso, estereotipado, pedofilista, racista. Vem tentar dar uma de “exemplar empresa” num caso específico que obteve repercussão pelas redes sociais, incontroláveis até pela Rede Globo.

Campanha importante e necessária das funcionárias, repito. Mas oportunamente apropriada pela empresa a favor de seu marketing. Esperteza nunca lhe faltou, inclusive nos últimos tempos, bem oportunamente também, a emissora mais poderosa do país tem permitido alguns programas prafrentex, mas nem de longe deixa de reproduzir e perpetuar, junto com suas atrizes, atores, diretoras/es, apresentadoras/es, jornalistas, editores/as e demais profissionais, papeis de gênero altamente estereotipados, cenas gravadas e ao vivos de flagrantes discriminações contra as mulheres, violência sexual e menosprezo a pedofilia em suas produções.

Tudo é devidamente roteirizado e protagonizado pela própria empresa dentro de seus famosos estúdios. Não nos enganemos. Não nos iludamos. Repudiar de verdade implicaria a alteração profunda da linha editorial do conjunto das produções da emissora.

Os protestos das funcionárias da empresa perante a denúncia dos assédios sofridos por Su Tanani, cometidos por José Mayer, por meses nos local de trabalho da vítima e do assediador, foi sim um marco fundamental. Sinceramente, esperamos que, de fato, daqui pra frente, então, “mexeu com uma, mexeu com TODAS”.