Rosana Ursa
Foto: Felipe Carneiro

“O momento de denunciar foi o certo pra mim, quando tive coragem”, diz ex-servidora sobre caso Gean

Postado em 09/11/2020, 15:33

Rosana Ursa conta como era a relação com o prefeito de Florianópolis e a repercussão do caso na internet

Nascida na cidade de Timbó, interior de Santa Catarina, Rosana Ferrari Ursa é candidata a vereadora em Florianópolis pelo partido do Democratas. Nas últimas semanas, seu nome se tornou conhecido não pela candidatura em si, mas pela denúncia de estupro contra o atual prefeito Gean Loureiro, do mesmo partido.

Um vídeo com imagens do suposto estupro e o boletim de ocorrência foram vazados e incessantemente compartilhados na internet. A grande exposição teve como consequência inúmeras ofensas e julgamentos nas redes sociais. “As pessoas que hoje estão me denegrindo na internet não sabem o que estão falando. Eu fico chateada, por um lado, mas por outro, eu vejo que é puro achismo. Minha resposta para essas pessoas é o silêncio”, desabafa Rosana.

Entre 2017 e 2019, época em que afirma ter sofrido os abusos, Rosana era servidora comissionada na Secretaria de Turismo de Florianópolis. Nomeada pelo prefeito, ela ocupava o cargo de Gerente de Serviços Turísticos. “O DEM, na época, tinha um acordo que a coligação teria direito a uma secretaria, e me escolheram para ocupar esse cargo. Me afastei para eleição, em agosto de 2020”, explica a ex-servidora.

Foto: Felipe Carneiro

Rosana é do ramo empresarial desde os 23 anos, quando abriu a primeira empresa. Ao mudar-se para a capital junto ao marido, montou uma loja no Mercado Público. Fechou as portas em 2014 por não ter dinheiro suficiente para pagar a licitação exigida pela prefeitura. “Conheci o Gean nessa época. Ele frequentava nosso estabelecimento junto com a mulher, mas ele era mais próximo do meu marido”, conta.

Logo após o fechamento da loja, recebeu um convite para entrar na vida política. Iniciou a carreira como candidata a deputada federal pelo PSDB em 2014, mas não foi eleita. Em seguida, se afastou do partido e passou a colaborar na criação municipal do Partido Republicano da Ordem Social (PROS), mas, devido a algumas denúncias de corrupção do presidente nacional do partido, desistiu do trabalho. “Ficamos 1 ano e meio fazendo todo trabalho para termos os candidatos necessários para poder concorrer às eleições, mas devido a algumas denúncias do presidente do PROS Nacional, vimos que era um partido que não falava a verdade”, conta.

Em 2016, entrou para o partido dos Democratas e participou da campanha que elegeu, pela primeira vez, Gean Loureiro a prefeito de Florianópolis. “Foi uma época de aprendizado porque eu vi na prática como funcionava. Nesse sentido, participei da campanha do Gean e, também era candidata a vereadora, se você for ver nas minhas redes sociais tem fotos com todo mundo. E ali construí uma relação profissional dentro da diretoria do Democratas, estava a frente do DEM Mulher, convidei algumas mulheres para fazer parte”, relata a ex-servidora.

Na última quarta-feira (4), o Portal Catarinas conversou com a ex-servidora sobre a vida pessoal, política e a repercussão do caso com o prefeito de Florianópolis. Em um primeiro momento, publicamos uma parte da entrevista em vídeo.

Confira a entrevista na íntegra abaixo.

Conta sobre sua vida e o momento em que a política passou a fazer parte.

Sou uma pessoa criada no interior. Conheci meu marido no Vale do Itajaí. Criei minha primeira empresa com 23 anos, depois comprei uma empresa constituída no Mercado Público e ali fiquei até 2014. Esse lado empreendedor sempre foi muito aguçado, minha loja sempre teve muito sucesso no Mercado Público e conhecemos muitas pessoas. Em 2014, tivemos uma licitação na qual a prefeitura solicitou e aí eu desgostei da situação, estávamos ali construindo uma vida. Uma questão de legislação que tem que ser obedecida, mas eu perdi meu negócio. Chegamos a participar da licitação na época, mas pra recomeçar era um investimento que não tínhamos.

Daí surgiu a oportunidade de entrar na política. Fui pra questão política inicialmente no PSDB, fiz várias amizades nesse meio, nas eleições de 2014 sai pra deputada federal, mas não fui eleita. Então me afastei e, em consequência, surgiu a oportunidade de montar a municipal do PROS em SC. Ficamos 1 ano e meio fazendo todo trabalho para termos os candidatos necessários para poder concorrer às eleições mas, devido a algumas denúncias do presidente do PROS Nacional, vimos que era um partido que não falava a verdade.

Em 2016 fui para o DEM, estava coligada com o atual prefeito e fizemos campanha junto com ele. Foi uma época de aprendizado porque eu vi na prática como funcionava. Nesse sentido participei da campanha do Gean e também era candidata a vereadora, se você for ver nas minhas redes sociais tem fotos com todo mundo. E ali construí uma relação profissional dentro da diretoria do Democratas, estava a frente do DEM Mulher, convidei algumas mulheres para fazer parte.

Continuo fazendo parte do partido. Até agora o partido não se posicionou em relação a mim, estão esperando o desenrolar das investigações. Mas, em nenhum momento, entraram em contato comigo. O que aconteceu foi que o prefeito me retirou dos grupos de conversa dos candidatos do DEM. Eu permaneço no partido ainda, até porque a minha candidatura está homologada no TRE. A gente até pensou em recuar, mas eu achei que seria um ato covarde da minha parte. Se eu tô na luta é para lutar por aquilo que acredito, por isso permaneço na campanha. 

Quando você conheceu o Gean Loureiro?

Eu conhecia o Gean por parte do meu marido. Conhecíamos ele de outra época, que ele frequentava com a esposa dele o Mercado Público, tivemos encontros em outras épocas como carnaval, mas era mais meu marido que tinha mais contato com ele.

Em 2016, quando eu fiz campanha para ele, a relação não era próxima, na campanha era mais tirar foto, mas não tinha uma grande proximidade com ele, minha relação com ele era de pedir voto. Depois das eleições que ele ganhou, o partido, na época, tinha um acordo que a coligação teria direito a uma secretaria, e me escolheram para ocupar esse cargo. Eu estava como gerente de serviços turísticos, era um cargo comissionado. Me afastei para eleição, em agosto de 2020. 

Como você está se sentindo hoje em relação à toda repercussão da denúncia?

É difícil falar como estou sentindo, tem horas que me sinto corajosa de ter conseguido denunciar e horas que penso como isso foi acontecer comigo. Essas perguntas são diárias. Não dá pra explicar o sentimento que sinto agora. O que fico me perguntando é: como que a Câmara de Vereadores pode ter sido tão relapsa, omissa? Como que nós, florianopolitanos, podemos concordar com isso? (Referência à votação na Câmara de Vereadores que rejeitou a denúncia de quebra de decoro por parte de Gean Loureiro, na última terça-feira).

Uma coisa que pediria para as pessoas pararem e pensarem, independentemente do que acham da minha atitude, pensar um pouco. Temos 23 cadeiras na Câmara e o que se demonstrou ali é que eles não legislam. Isso não é democracia. Onde que o poder executivo está mandando? A Câmara de Vereadores não tem autonomia e isso me assusta muito.

Você sente que sua palavra não é importante?

A palavra da vítima devia ser levada em consideração em primeiro lugar e as pessoas não entendem isso. Elas julgam por fotos, mas não querem saber do contexto, não querem se aprofundar na questão, então fica como um disse me disse. Para as pessoas falarem alguma coisa, elas tinham que ter mais propriedade. É todo um contexto, a própria investigação vai estar apontando o que de fato houve, eu fiz apenas um comunicado e as investigações vão mostrar. As pessoas sequer estão esperando a investigação.

A gente sabe quão é difícil fazer uma denúncia, muito mais quando envolve poder. A gente sente medo, porque envolve famílias, e eu sou muito privilegiada porque meu marido está me apoiando em tudo, ele é como poucos. Graças a Deus eu tenho o apoio dele e foi muito importante esse apoio. Depois que eu consegui abrir a situação pra ele, que foi com muita terapia, nossa união se fortaleceu, porque até então eu passava mal e ele queria saber o motivo.

É muito importante ter o apoio da família e amigos nessas situações. Até as pessoas que a gente não conhece hoje, infelizmente, usam as redes sociais para “vomitarem” o que querem, mas a gente não pode se manifestar por achismo. Estou sendo massacrada nas redes sociais.

Como sua visão mudou ao se ver vítima de abuso?

A gente só consegue ter a dimensão quando passamos por isso. É muito difícil se colocar no lugar da outra pessoa. Eu não tinha essa noção de como a vítima se sente, e hoje eu luto com unhas e dentes para que isso mude. As pessoas que hoje estão me denegrindo na internet, elas não sabem o que estão falando. Eu fico chateada, por um lado, mas por outro, eu vejo que essa pessoa não sabe o que está dizendo. Minha resposta para essas pessoas é o silêncio. Hoje eu tenho um olhar completamente diferente sobre qualquer tipo de violência. Cabe à justiça investigar, apesar de às vezes ela ser cega, mas temos que acreditar na justiça. 

Em algum momento você percebeu a relação de abuso de poder na sua história?

Esse abuso de poder ele existe, é fato. Vou citar o caso da Mariana, que foi um abuso de poder estrondoso: os representantes que tinham o poder da palavra ali, eles estudaram para aquilo ali, mas usaram contra uma pessoa que está começando a vida agora. Dentro de outros poderes existe, sim, muitas mulheres vítimas de abuso de poder, como aconteceu dentro da Globo esse ano.  

A sua campanha está mais sendo direcionada às mulheres agora, a sua história tem a ver com isso?

A gente já vinha tocando nesse assunto de violência contra as mulheres na campanha. Defendemos a criação de um setor de denúncia específico nos órgãos públicos em que a mulher possa denunciar e que estejam ligados aos órgãos competentes de investigação para que esse tipo de abuso seja formalizado e desestimulado. E que isso se estenda para as empresas particulares, que tenha essas equipes especializadas e que sirva de amparo a essa vítimas. 

Como você vê a falta de representatividade na política catarinense? 

Há uma falta de representatividade feminina na Câmara dos Vereadores daqui, por exemplo. Temos apenas uma mulher no cargo de vereadora atualmente e ela tem como bandeira a defesa dos animais, e tem todo direito de levantar essa bandeira. Mas como uma mulher que defende os animais, que são seres indefesos, não defende as mulheres? Eu fiquei surpresa com o posicionamento dela na votação de abertura de investigação contra o prefeito atual. 

Você sabe quem vazou o material da sua denúncia?

Toda essa questão vai ser investigado pela polícia. A gente está esperando as investigações. Estamos aguardando a conclusão do inquérito. 

O que você diria para as mulheres que são vítimas de violência sexual? 

Eu diria para elas terem coragem, buscarem apoio e não ficarem caladas. Ficar calada é pior. Não tenham medo, não tenham vergonha, denunciem. Depois que você tirar esse peso, o que as pessoas falam de você não importa mais. Tem que se encorajar para assim a gente conseguir fazer uma política pública melhor. Eu fui bem atendida na delegacia, eu me coloquei à disposição da polícia para esclarecer tudo, colaborei ao máximo e agora está nas mãos deles. O delegado que me atendeu me amparou, então eu confio na investigação que ele vai fazer. 

O que você acha de falarem que você está usando isso como palanque eleitoral?

Nunca ia ser o momento certo, agora porque é eleição, depois porque seria eleição do governo do estado. Nunca ia ser o momento certo, ainda mais que são duas pessoas públicas. O momento foi o certo pra mim, foi quando eu criei coragem.

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