Ilustração: Maria Augusta Scopel Bohner/Identidade visual: Lara Benedet.

Muitas lutas vieram das indígenas, negras e camponesas

Postado em 18/08/2021, 18:11

Em entrevista ao projeto Mulheres Semeando a Vida, Justina Inês Cima fala dos desafios das agricultoras camponesas durante a pandemia. Bolsonaro vetou projeto de lei que incentivaria agricultura familiar, mesmo fome avançando no Brasil.

Durante todo o mês de agosto, o Portal Catarinas em parceria com o Prosa, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), promove a campanha “Mulheres Semeando a Vida”, que tem como protagonistas seis mulheres, duas indígenas e quatro camponesas, que no presente estão construindo o Bem Viver, através de práticas agroecológicas.

Confira o teaser da nossa campanha:

Hoje, vamos conhecer mais da Justina Inês Cima, camponesa de 65 anos. Ela mora no município de Quilombo, no Oeste de Santa Catarina, sempre foi agricultora e está no Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) desde a época da ditadura militar. “Sempre fui muito integrada nas organizações da classe trabalhadora, porque para mim a luta de gênero e classe andam juntas, não podem se separar”, conta Justina.

Em entrevista, Justina fala das violentas e injustas disputas que as mulheres do campo vivem em decorrência do agronegócio; da agroecologia como forma de libertação; da falta de investimentos na agricultura familiar durante a pandemia, mesmo num momento em que a fome avança no Brasil. Desde 2020, o MMC está em luta pela aprovação de projetos de leis que garantam investimentos para agricultura familiar. Entretanto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou a primeira proposta (Lei Assis de Carvalho) e indica veto para segunda (PL 823).

“ (…) nós queremos produzir, queremos garantir a nossa missão de produzir alimentos para toda a sociedade. E a gente busca meios para produzir, mas estamos com um governo genocida que impede. Ele sente gosto em fazer o seu povo sofrer, morrer. A morte está na meta dele, dos mais pobres, dos negros, da periferia, dos indígenas, das mulheres”, denuncia Justina. 

Confira a entrevista:

Portal Catarinas: Justina, conte para nós um pouco sobre sua história e trajetória?

Justina Inês Cima: Eu nasci em 1956, estou com 65 anos. Na minha trajetória política venho dos grupos de base, na juventude, da igreja católica, depois fui para o movimentos de mulheres. Sempre fui muito integrada nas organizações da classe trabalhadora, porque para mim a luta de gênero e classe andam juntas, não podem se separar. E também tive na minha trajetória, centralmente, desde o seu surgimento em 1983, a prioridade na luta das mulheres camponesas, hoje o Movimento de Mulheres Camponesas. Aos 60 anos me formei em Pedagogia, porque não tive a oportunidade de estudar no tempo ideal. Após formada, fiz a pós-graduação “A esquerda no século XXI”. Além disso, eu sou agricultura, sempre fui da agricultura camponesa. Hoje, tentamos nos orientar pela agroecologia, que para nós não é somente produzir sem venenos, mas é um modo de vida, um projeto de sociedade que passa pelas relações humanas e a natureza. É um projeto de sociedade tanto para o campo, quanto para o urbano. 

Pode falar um pouco mais sobre a concepção de agroecologia desenvolvida por vocês? 

Na construção da concepção de agroecologia nós partimos da realidade em que as nossas mulheres vivem. Qual a realidade que elas vivem? Elas vivem em um disputa do capital no meio rural. Na grande maioria das terras, hoje, o capital tem planejado a concentração da produção focada no monocultivo. A agroindústria tem construído estratégias, como os conglomerados, para colocar o restante da população do campo dentro do planejamento deles, ou seja, como produtora de grãos, soja e milho centralmente. Nesse processo, conforme o capital vai empurrando a sua lógica, se consolidando, ele vai passando o trator, vamos usar a linguagem do campo. E é nessa disputa que as mulheres vivem. Por outro lado também, qual é o cotidiano das mulheres? Dentro do sistema do monocultivo capitalista está colocada a opressão das mulheres, a violência, a exploração do trabalho das mulheres, de suas famílias e muita doença. 

Então, dentro do MMC, a agroecologia tem uma papel na libertação das mulheres? 

Sim, para nós do Movimento de Mulheres Camponesas aqui em Santa Catarina a porta de entrada no debate foi a questão: “Que projeto nós queremos para o Brasil? Um projeto de morte ou de vida?” E se iniciou todo um debate em torno do que seria vida, morte, o que estava trazendo tanta doença e o que traria libertação. Foi assim que nasceu o projeto “Produção, recuperação e melhoramento das sementes crioulas”. Muita gente nos criticou, diziam: “Meu Deus, vocês estão equivocadas. Vocês voltaram para a hortinha de novo. Vocês pegaram a sementinha”. Mas foi nesse projeto que as mulheres entenderam a lógica do capital. Porque muitas não tinham terra, porque estavam nessa opressão, porque havia tanta briga com seus maridos, porque o trabalho da mulher não era valorizado. Então, passamos a entender como a cultura patriarcal e machista está a serviço do capital, porque interessa ao capital manter os camponeses ignorantes. Interessa ao capital manter as mulheres submissas. Interessa ao capital que a população do meio rural trabalhe de forma intensa e sem possibilidade de refletir sobre o seu trabalho.

Feiras agroecológicas trazem autonomia econômica para mulheres vítimas de violência

Vocês realizaram alguma espécie de formação para as mulheres do movimento?

Sim. Nós fomos para outras instâncias nacionalmente e internacionalmente, como é o caso da Coordenação Latino-americana e Caribenha do Campo. Começamos a fazer oficinas num modelo de alternância, no presencial e no nosso quintal. Então, estudávamos. Tínhamos ali pessoas que já tinham estado em espaços acadêmicos e aprofundado sobre agroecologia, sobre solo, sobre sementes, mas também sempre valorizamos esse conhecer das mulheres, o saber que vem do campo. 

Porque o espaço do campo, da vida camponesa, é um espaço de construção do conhecimento. Se você for ver tudo que as mulheres têm construído em relação a sementes, as práticas com o solo, as práticas de produção, de industrialização artesanal, a organização comunitária. Então, é um espaço de construção de saber.

O que é o Bem Viver?

Para nós o Bem Viver não vai acontecer de forma individual, de personalistas que se colocam como salvadores da pátria. O Bem Viver precisa e vem sendo construído coletivamente. Quando a gente fala que nossos quintais são planetários, é porque eles não estão sendo construídos, pelas mulheres do MMC só com o olhar focado no quintal ou só para a nossa mesa. Ele carrega consigo toda uma proposta política, planetária, que é discutida nas conferências internacionais da Via Campesina. Da importância do papel das mulheres, do trabalho das mulheres, do fim da violência contra as mulheres, da leitura de como o capital se organiza, de como a luta camponesa precisa se organizar para enfrentar.

Para saber mais sobre Bem Viver e Agroecologia, ouça o terceiro episódio do nosso podcast.

Você se considera guardiã das sementes?

Na prática, todas as mulheres que estão no MMC são guardiãs de sementes. Toda atividade presencial do movimento tem os pacotinhos de sementes das mais diferentes variedades. E no final há troca. Cada uma deixa as sementes que tem e leva as sementes que não tem. Isso deu uma diversidade muito grande em todos os quintais e também é assim um pouco a nossa prática nas nossas atividades nacionalmente. 

Para conhecer mais sobre as práticas das Guardiãs das Sementes, ouça o primeiro episódio do nosso podcast.

Uma das grandes questões que nós temos buscado com as camponesas é a luta pelas políticas públicas e entender a serviço de quem está o Estado. Estado mínimo para quem? Quem que o Estado prioriza? Por que o agronegócio tem tanto subsídio, tem tanto apoio e a agricultura familiar e camponesa não tem?

Nessa questão da semente também há uma grande luta política. No sentido de termos o direito de comercializar a semente, de extrapolar a questão da patente do registro das grandes empresas que impõe sobre nós as sementes híbridas, transgênicas. Há uma luta para que a gente possa vender a nossa produção industrializada de forma artesanal, porque novamente vem a opressão das empresas para não permitir a venda, vem com a história da inspeção sanitária. Tudo a serviço das grandes empresas e criminalizando os pequenos agricultores e agricultoras, camponeses e camponesas. 

Sementes crioulas produzem alimentos saudáveis, cuidado e solidariedade

Você está falando bastante das políticas públicas. Voltamos para o mapa da fome durante a pandemia e sabemos que a agricultura familiar é quem alimenta a população. Como estão os investimentos do Estado para isso neste momento?

Na pandemia o povo foi abandonado. O estoque de alimentos está baixíssimo, porque tudo é voltado para a produção do agronegócio, não se prioriza a produção de alimentos diversificados. Durante a pandemia, colaboramos com a luta pelo auxílio emergencial. Foi aprovado, mas foi vetado para os agricultores e agricultoras da agricultura familiar e camponesa. Então, fomos para um projeto de lei específico de fomento, de crédito para produção de alimentos, para captação de água, para o enfrentamento a pandemia e estiagem. Conseguimos sensibilizar a sociedade, a Câmara, o Senado e foi aprovado quase por unanimidade, mas o presidente Bolsonaro vetou. Lutamos até o final do ano de 2020 para tentar derrubar esses vetos e não tivemos êxito. Entramos em 2021 reelaborando outro projeto, as mulheres com uma atuação muito forte, muito intensa. Tivemos reunião, por exemplo, com a bancada e núcleo de esquerda, eles diziam que há sinais de que possamos aprovar novamente na câmara, mas que Bolsonaro sinaliza o veto novamente. Então, vejam bem as dificuldades que se tem:

[…] nós queremos produzir, queremos garantir a nossa missão de produzir alimentos para toda a sociedade. E a gente busca meios para produzir, mas estamos com um governo genocida que impede. Ele sente gosto em fazer o seu povo sofrer, morrer. A morte está na meta dele, dos mais pobres, dos negros, da periferia, dos indígenas, das mulheres.

Muitos nos tratam como ignorantes, como coitadinhas, nos substimam, mas nós queremos dizer: no campesinato existe muito conhecimento e se a gente for fazer uma análise muitas lutas de resistência e enfrentamento vieram das indígenas, negras e camponesas. 

Qual o seu sonho para o futuro, Justina?

Para mim o futuro é com terra para quem precisa trabalhar e só o que precisa para trabalhar. A terra não deve ser explorada. Que a humanidade entenda a importância do equilíbrio entre nos alimentarmos e cuidarmos do ambiente e da natureza. Tanto o rural, quanto urbano. Por exemplo, a captação da água da chuva não é papel só de camponês para molhar o roçado, a horta é papel do urbano captar água da chuva também para fazer faxina e tal. O futuro que a gente quer são de pessoas conscientes, com leitura crítica, com capacidade de pensar em solidariedade, de pensar que estamos aqui de passagem, que o planeta Terra é a nossa casa comum, que não existe lugar para jogar lixo fora, porque vão jogar dentro do planeta. É um pouco isso, simplificando muito. É esse mundo com pessoas que possam viver com dignidade, com respeito, sem violência. Respeitando a diversidade, seja ela do vegetal, do animal, como do humano. 

“Mulheres Semeando a Vida” faz parte do projeto Narrando a Utopia, uma iniciativa de Puentes para imaginar um futuro feminista, interseccional e inspirador.

Agradecemos a consultoria das mulheres indígenas e camponesas da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).

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