Carla Ayres, terceira mais votada na coligação, assume o cargo por um mês/Foto: arquivo pessoal

Florianópolis terá primeira vereadora lésbica

Postado em 24/05/2018, 15:21

Pela primeira vez a Câmara de Vereadores de Florianópolis terá entre seus parlamentares uma mulher lésbica. Carla Ayres, cientista política, concorreu ao seu primeiro pleito nas eleições de 2016 e deve assumir no dia 6 de junho, por um mês, a vaga do então vereador Lino Peres (PT). Num rodízio do mandato, Carla Ayres que foi a terceira mais votada na coligação, vai assumir no período que se celebra o Mês do Orgulho LGBT em todo o país. 

Depois de dez anos sem uma representação de mulher com debate feminista, a jovem de 30 anos pretende trazer a participação do coletivo de mulheres e LGBT para dentro da casa legislativa. Atualmente, dos 21 vereadores de Florianópolis, existe apenas uma mulher e que não acredita na necessidade de fazer o debate de gênero, tanto que a Comissão das Mulheres da Câmara de Vereadores é presidida por Lino Peres e composta apenas por homens. 

A vereadora acredita que terá muitos desafios dentro da casa legislativa em apenas um mês, num rodízio construído com outros nomes do Partido dos Trabalhadores, mas considera o período tempo suficiente para trazer pautas importantes para o debate. “A minha primeira ação será reunir os coletivos de mulheres e LGBT da cidade para dialogar sobre as reivindicações construídas coletivamente. Não há necessidade de criar nada além do que elas já discutem, sem encontrar espaços para suas reivindicações”, explica Carla, que tem sua trajetória construída dentro de movimentos feministas e LGBT, e que pretende usar dos espaços de participação popular como meios de debate e acompanhamento das demandas desta comunidade.

Além da continuidade dos projetos do vereador Lino, Carla Ayres vai propor ao prefeito Gean Loureiro (MDB) um indicativo de lei para homologar o plano de ação debatido nas Conferências Municipais de Mulheres e de LGBT realizadas em 2015, e até o momento não recebeu a homologação do executivo, mesmo tendo passado três anos do debate.

Para Lino Peres, que está no seu segundo mandato, embora a cientista política tenha sido a terceira mais votada da coligação, a ordem de assumir o mandato foi invertida para garantir a participação de uma mulher e lésbica. Segundo Lino, Carla sintetiza todo um debate que ele já faz dentro da casa legislativa que são temas ligados aos direitos humanos. “Ela é mulher, LGBT, jovem. Tem concentrado numa pessoa o que temos de maior avanço civilizatório, junto com a questão racial. Creio que ela chega num bom momento, porém tenso e de estado de exceção, por isso é simbólico ocupar este espaço frente tudo o que acontece no país”.

Para a historiadora e pesquisadora do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC (IEG), Joana Maria Pedro, Carla Ayres representa a diversidade da cidade. “A cidade precisa ser menos conservadora, olhar para as pessoas e perceber a miséria que está andando pelas ruas, a violência contra os pobres, contra os diferentes. Penso que ter Carla propondo projetos com este olhar para as pessoas já vai trazer um diferencial para dentro da casa legislativa”, salienta.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE, a população LGBT no Brasil é em torno de 20 milhões de pessoas, porém, assim como as mulheres na política, este grupo não é representado proporcionalmente. Um levantamento da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais (ABGLT) apresentou que em 2016, as eleições municipais tiveram apenas 377 LGBTs que concorreram no pleito. Desses, 25 vereadores e um prefeito foram eleitos.

Para Angela Albino, ex-deputada federal pelo PCdoB e vereadora nos anos de 2005 a 2008 em Florianópolis, a posse de Carla Ayres é um momento histórico sob vários aspectos, seja pela histórica sub-representação feminina na Câmara de Florianópolis, seja pela militância LGBT que ela simboliza. “Tenho convicção que a ocupação dos espaços de poder é um aspecto dos mais relevantes na luta das mulheres, em especial na luta emancipacionista, pois a carência desta representação reflete-se na ausência de disputa de orçamento e, portanto, de construção de políticas públicas capazes de fomentar a superação das desigualdades de gênero, raça e etnia, orientação sexual e geracional, mas, sobretudo, com o recorte de classe, tão bem compreendido pela Carla. Sua posse é um sopro de esperança neste mar sombrio que temos vivido”, destaca.