Ato 8M unificado em Sergipe lembrou as vítimas de feminicídio no Brasil/Foto: Henrique Maynart (Ascom Sintufs)

Em Aracaju, o grito por Marielles, Margaridas, Yasmins, Laysas: livres da violência

Postado em 09/03/2019, 11:28

Yasmin Costa dos Santos, 19 anos, estudante do curso de Física na Universidade Federal de Sergipe (UFS), assassinada a facadas pelo ex-namorado em 2017, em Aracaju (SE). Laysa Fortuna, 25 anos, mulher transexual também esfaqueada no ano passado, na capital. Ao lado de Marielle Franco e Margarida Alves, líder sindical paraibana assassinada em 1983, essas mulheres deram nome ao 8M em Sergipe, em homenagem a todas as vítimas de feminicídio e perseguição política. “Marielles, Margaridas, Yasmins, Laysas: livres da violência, do racismo, em defesa da aposentadoria” foi o tema escolhido para esta edição. Segundo a organização, cerca de 500 pessoas participaram do ato.

O Ato Unificado em 8 de Março de 2019 em Aracaju teve como ponto de partida o Posto de Saúde do Japãozinho, às 6h, com parada em frente à empresa Almaviva, às 9h, para a chegada e concentração das companheiras que vieram do interior, mulheres do campo ribeirinhas, integrantes do Movimento Sem Terra (MST), e representantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Sergipe (Fetase), seguindo o trajeto até o prédio do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A programação contou com falas das mulheres, panfletagem e entrega do Manifesto 8M na Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese). Decorrem ainda deste movimento uma audiência pública na Alese sobre as Políticas Públicas para as Mulheres e a proposta de construção de um Fórum Permanente de Mulheres, que possa dar sequência às demandas apontadas na construção do 8 de Março.

O documento apontou que Sergipe está em segundo lugar no ranking dos assassinatos de pessoas trans por estado, proporcional a população trans, de acordo com o dossiê de Assassinatos e Violências em 2018, divulgado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais). “As questões de gênero se reforçam e demonstram que, no país, 97,5% (aumento de 3% em relação a 2017) dos assassinatos foram contra pessoas trans do gênero feminino (158 casos)”, diz o manifesto.

A Secretaria de Segurança Pública de Sergipe divulgou um levantamento e informou que durante 2018 foram registrados 37 casos de homicídios dolosos contra a mulher, 43,2% deles foram tipificados como feminicídios. Foram notificados 4.393 casos de violência nas delegacias da Mulher das cidades de Aracaju, Itabaiana, Lagarto e Estância, destacando-se a ameaça (36%), seguida de violência doméstica (18%), lesão corporal (17,7%) e injúria (13,9%).

O manifesto reivindicou ações para diminuir a violência contra as mulheres; por moradia, emprego e renda; por direitos para mulheres do campo, ribeirinhas e quilombolas; por acesso humanizado à saúde pública, e por uma educação que promova consciência sobre igualdade racial e de gênero, respeito à identidades e orientações sexuais.

Movimento Mulheres de SE
O movimento surgiu da união de forças de mulheres que integram diversos movimentos sociais, coletivos, sindicatos, federações, organizações políticas e entidades que se propuseram a construir um grande ato unificado 8M.

A não violência e a luta contra a reforma da previdência são os temas centrais do movimento, que contou com a autonomia de cada organização para apresentar as diversas bandeiras e pautas dentro da atual conjuntura brasileira, tais como: a luta contra o machismo, o racismo e a lesbobitransfobia; contra o aumento do feminicídio; contra o extermínio indígena; contra a flexibilização do porte de arma; contra o aumento do desemprego, da precarização do trabalho e da terceirização.

“A proposta de reforma da previdência muito prejudica a nós, mulheres trabalhadoras, pois, além de prever 40 anos e contribuição para a aposentadoria integral, a idade mínima para aposentadoria passará para 62 anos, quase a mesma idade dos homens. O argumento é que as mulheres vivem mais que os homens, mas não se considera as múltiplas jornadas enfrentadas por elas no seu dia a dia”, consideram no manifesto.

Em pesquisa divulgada pelo IBGE, no terceiro trimestre de 2018, Sergipe apresentou a segunda maior taxa de desocupação dos estados brasileiros, apresentando um índice de 17,5%, e dentre as capitais, Aracaju ocupou a terceira posição com 16,9%. A taxa de desocupação é maior entre as mulheres com um percentual de 19%, enquanto para os homens a taxa estava em 16,3%. Em termos percentuais, o desemprego na população feminina era 16,6% mais elevado que o desemprego na população masculina.

Durante a manifestação, as falas ecoaram um manifesto em favor da vida de todas as mulheres e justiça para as que lutam e são diariamente exterminadas pela causa, como as tantas Marielles (mulher negra e LGBT, um ano de assassinato sem solução), Margaridas (mulheres rurais), Yasmins (mulheres sergipanas) e Laysas (mulheres trans).

As manifestantes se posicionaram em favor da saúde das mulheres; dos direitos das mulheres do campo e ribeirinhas; em defesa do Rio São Francisco; em defesa das liberdades democráticas, da educação pública e de qualidade; contra a privatização do SUS; contra a privatização da FAFEN-SE (fábrica de fertilizantes); apoio à greve mundial das mulheres.

“Estamos no ato unificado com mulheres de diferentes cidades, etnias e crenças, com todas as lutas, porque todas as lutas são nossas, são nossas dores, são nossos direitos que estão sendo retirados, a violência é contra nós mulheres, contra as minorias sociais. Este é um movimento que a gente une forças para mandar para toda a sociedade e políticos e para mostrar para nós mesmas a nossa força e nossa capacidade e vontade. É momento de demarcar nosso espaço porque são lutas diárias para a vida inteira. Ser mulher não é fácil nesse mundo, mas estamos aí para representar a nossa vida”, afirmou em vídeo nas redes sociais, Juliana Cordeiro, coordenadora geral do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-administrativos em Educação da Universidade Federal de Sergipe (Sintufs).

Além de várias centrais sindicais, partidos políticos e de mulheres autônomas, também participaram da construção integrantes das organizações e coletivos Resistência, RUA, Amosertrans, Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, Movimento Mulheres de Luta (MML), Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR), Movimento Negro Unificado (MNU),  Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), ASA Sergipe, União Brasileira de Mulheres (UBM), Auto Organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria, Coletivo Afronte, Coletivo feminista classista Ana Montenegro, Coletivo de Mulheres de Aracaju, Coletivo Olga Benário, Coletivo Quilombo Sergipe – Núcleo Beatriz Nascimento, Coletivo Mulheres Livres, Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento das Marisqueiras, Movimento das Catadoras de Mangaba, Movimento Quilombola, Fórum de Mulheres Glorienses, Mulheres do Erukerê.

Ainda não conseguimos informações sobre o número aproximado de manifestantes.

Esse material integra a cobertura colaborativa, com informações de Juliana Cordeiro, coordenadora geral do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-administrativos em Educação da Universidade Federal de Sergipe (Sintufs), e fotos de Henrique Maynart (Ascom Sintufs).




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