Marlene de Fáveri ouviu relatos de mulheres sobre o exercício da sexualidade neste período de confinamento/Foto: arquivo pessoal da autora

Crônica da incontingência da clausura (4) – ou, o sexo em tempos de pandemia

Postado em 10/04/2020, 16:03

Quarta-feira, oito de abril de dois mil e vinte. Vinte e seis dias longe de casa e, desses, vinte dias de clausura.  Como já disse antes, tenho o privilégio de estar neste lugar aprazível, bem acomodada, e nada falta a mim e a minha mãe. Nos últimos dias tive dores nas costelas do lado esquerdo, ou embaixo delas, ou talvez seja nos músculos, o que suponho ser resultado do esforço físico exagerado com a enxada, rastelo, foice e martelo nessas últimas duas semanas. A intensidade das dores me fez recorrer a relaxantes musculares e dormir com bolsa de água quente, o que tem aliviado. Vai ver prefiro a caneta…  Mas valeu o esforço: o jardim, a horta, as árvores, tudo está verde e organizado. Os rabanetes semeados já brotaram – antes de me enveredar para a História fui extensionista rural da Acaresc (Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de Santa Catarina) e ministrava aulas práticas nas hortas escolares; semeávamos rabanetes para que os alunos vissem o resultado rápido, já que são os primeiros despontar do solo macio.

Na casa da minha mãe há espaços externos onde posso escrever, o que faço nos intervalos dos afazeres do cotidiano e também à noite, depois que ela dorme. O clima de abril é ameno, de sol morno e vento leve. Às vezes, carrego uma mesa pequena que temos na garagem e me sento num lugar qualquer entre árvores. Procuro não “sair da casinha” – expressão que ouvi do Emerson, de sua memória dos tempos de guri quando morava na Vila Operária, em Criciúma – continuando firme no propósito de ficar afastada, de me cuidar e de proteger a minha mãe. Ouvi dizer que no final da segunda semana de isolamento social começam as trapalhadas na mente, o psicológico se enrosca, as saudades se condensam, o medo se avoluma, e entramos no tal estado de  “sair da casinha”. Espero ficar nela.

Eu e minha mãe estamos bem, dentro do que se pode chamar de bem nessa expectativa do que virá. Hoje me perguntou: “Será que a gente vai escapar desse vírus corona?”. Intimamente, me fiz a mesma pergunta. Respondi que sim, que a gente vai escapar, e que ela vai realizar o sonho de ver a Laura entrar para a faculdade, que vamos continuar vivendo. Na verdade, me preocupa o comportamento descuidado com que muitas pessoas desta pequena cidade se comportam.

Desde que o governador afrouxou para o isolamento vertical, muitas pessoas deixam de os protocolos de higiene como foi exigido no início. Nos mercados, tocam em todos os produtos, falam sem distanciamento, se relacionam como se nada estivesse acontecendo ou como se um decreto mágico as houvesse isolado do vírus medonho. Assim, pensam que podem voltar a trabalhar como outrora, produzir, vender e comprar coisas, entrar na fila da casa lotérica entre cumprimentos e bate-papos. Será que não têm medo? A maioria dos eleitores deste município, como em tantos outros no país, ajudou a colocar um destemperado verme na Presidência, segue-o nas suas estapafúrdias trapalhadas, como a de ameaçar demitir o Ministro da Saúde e voltar atrás horas depois… haja estômago e fígado. E, pasmem, grande parte dos manifestantes é do grupo de risco, alguns com bengalas.

Foto: arquivo pessoal da autora

Como sabem, desde que saí de minha casa e me vi, de supetão, sitiada em Turvo, tenho escrito sobre o vírus invisível, a clausura, os medos e as saudades, tecendo dobraduras dos sentidos. Tenho saído para supermercado e farmácia, e só. Ah, encontrei uma loja agropecuária aberta e trouxe um monte de mudas de hortaliças e tubérculos, e assim minha mãe se distraiu por um bom tempo, e eu também (só que essa noite uma lagarta estúpida comeu as mudas de couve. Ah, se eu pego…).

Hoje, inicia a terceira semana da clausura. É quando começam os sinais do isolamento, como deslembrar o dia da semana, sentar na calçada e olhar para o nada, ouvir sapos ao invés de grilos, tudo ao som da torturante ladainha das notícias a cada dia mais horrendas, assustadoras. Parece que a rota do vírus medonho está no mapa do uber direcionado para nosso endereço… Tomara que se perca no caminho e volte para o nada, para o antes, para o limbo…

Vamos combinar: é verdade que depois de 26 dias longe de casa bate um nó na região cardíaca, vontades de tudo. Sinto vazios de braços e laços – jamais imaginei que iria viver esse vazio – não me concentro nas leituras como antes, já sei que é saudade, saudades de tudo… Acostumada a estar em dia com a sexualidade, é claro que a abstinência desacomoda, o desejo aturde, e vem uma vontade de tocar na pele, soltar uivos, colher orgasmos, como diz a amiga, pôr pêssegos na pele, ou acordar com a pele de pêssego. É lua cheia; lua de loba e que mexe com minha libido. Evidente, posso aprazer-se em explosões orgásticas usando a imaginação; conheço meu corpo, minhas regras, meu toque e como buscar meus próprios prazeres. Sei que parece risível, mas atire a primeira pedra quem nunca…

Bem, se sexo é vitalidade, proporciona autoestima, imunidade, como é que fica? Procurei narrativas sobre relacionamentos sexuais em tempos de pestes, viroses e outros flagelos. Encontrei a sexóloga e psiquiatra Carmita Abdo que, dia desses, falou sobre a vida sexual durante a pandemia do coronavírus. É sabido que esse vírus se ‘pega’ através da saliva; então, como fazer sexo sem falar, beijar, encostar, respirar? Não dá, sinceramente.  Ouvimos a sexóloga: “Não há evidências científicas suficientes para recomendações sobre a vida sexual durante essa pandemia. Entretanto, considerando os critérios para redução da curva de infectados, como isolamento social, afastamento de até 2 metros entre as pessoas, higiene respiratória e das mãos, recomendam-se restrições à atividade sexual”. Sendo a boca o habitat preferido do infame pavoroso, o beijo torna-se transmissor potencial, portanto o conselho é evitar. Mesmo que, pelo menos até o momento, não há evidências científicas de que o novo coronavírus pode ser transmitido pelo sêmen ou pela secreção vaginal, é de bom alvitre se precaver. Bueno, estamos driblando…  na espreita.

À cata de informações, fico sabendo que a prefeitura de Nova York está distribuindo um manual com recomendações de sexo seguro durante o  afastamento social da pandemia. Leio que “você é seu parceiro sexual mais seguro”, portanto, asas à imaginação – mas lave bem as mãos e brinquedos antes e depois do sexo, seja criativo. Recomenda que “o parceiro mais seguro é alguém com quem você mora”. Mesmo assim, siga os protocolos de higiene, evite beijos e sexo anal (saliva e fezes são transmissores em potencial).  Ainda segundo o manual, como era de se supor, deve-se evitar o sexo com “alguém fora do seu ambiente domiciliar”, evitar ao máximo o sexo grupal, encontros com novas paqueras, amores casuais – o que sobra de possível é o autoerotismo e a masturbação, a imaginação, o sexo virtual, salas de bate papo, vídeos, ou tudo o que a tecnologia aproxima sem encostar na pele, na boca. Avalio que usuários de sítios de relacionamentos, como o tinder e outros que, via de regra, acabam em contatos reais, terão que se adaptar, inventar novas formas para os prazeres da carne. E os e as amantes? Creio que vão ter que negociar, adaptarem-se…

Lembro que existe um mercado erótico no trabalho das profissionais do sexo. Consta que o movimento de clientes tem caído em oitenta por cento nessas últimas semanas, e que apenas vinte por cento ainda têm procurado prazeres das profissionais por serem mais jovens e se consideram fora dos grupos de risco. Estudos indicam que parte delas tem migrado para a forma virtual, oferecendo vídeos de esmerado erotismo. Porém a maioria das trabalhadoras do sexo (não desconsidero que há trabalhadores) vive no limite da vulnerabilidade e da precariedade imposta pelo baixo meretrício.

Na Vila Mimosa, por exemplo, conhecida zona de prostituição do Rio de Janeiro, o baixíssimo movimento escancara a condição insalubre e vulnerável das mulheres que aí se sustentam. Evidentemente, com a sociedade mais empobrecida e temerosa, os clientes rareiam, agravando ainda mais a situação econômica dessas mulheres que já viviam no limite da sobrevivência. Como categoria de trabalhadoras do sexo, só poderão entrar na lista de beneficiárias do auxílio emergencial em razão da pandemia se apresentarem os critérios estabelecidos  por lei  (Lei nº 13.982, de 2020). Mas, como categoria ainda invisível para a assistência social, são vistas com o estigma de ser veículo de transmissão doenças e sofrerão mais, dado o preconceito que ainda ronda na hipocrisia das relações humanas.

Como lidar com o sexo e os prazeres se o desejo se encolhe em tempos de medo do contato físico? A amigas e amigos com quem suponho ter liberdade de tocar nesse assunto, perguntei como estão lidando com a sexualidade e com a tesão – ou o tesão, já que é substantivo de dois gêneros –  nesses dias de proibições do contato entre corpos. Sinceramente, não sabia como lidavam, visto que não tenho união estável e, portanto, no meu cotidiano, não compartilho cama e não tenho convívio com alguém. Havia planejado ir a Florianópolis na última sexta feira, ‘visitar’ minha casa, apanhar livros, roupas, ficar uns dias e, evidentemente, colocar a sexualidade em dia. Acontece que contei de meu plano para minha filha, e ela me proibiu terminantemente de ir. Eu obedeci – seria correr riscos desnecessários. O medo venceu, por agora. Também racionalizei: conseguiria me entregar à paixão e ignorar a possibilidade de um invasor invisível entrar pelas bordas dos beijos e pular para minha saliva? Ter de controlar a tesão e colocar o sexo na quarentena é realmente broxante.

Percebo, como foi-me dito, com exceção dos casais em que um dos parceiros trabalha em contato com o público (profissionais de saúde, principalmente), pessoas que vivem em união estável consideram que a  Covid-19 tem aproximado os afetos, dando chance ao carinho, às conversas e  ao cuidado mútuo. Mesmo assim, a rotina está visivelmente alterada, quer pela falta de tempo e espaço, mas vai se encaixando entre o home office, os filhos, as notícias. “Dá tempo para fazer amor! Quase escondido, com todo mundo em casa. Neste momento, só o prazer de estar junto com quem amamos já é um presente.” Ou seja, um cotidiano que tem suas delícias e dificuldades. Também foi relatado que a principal mudança está sendo a sensação de receio, quase medo, que se interpôs na relação. “Já não nos vemos com a mesma frequência e, mesmo estando seguindo todos os cuidados, quando ele chega em casa, a sensação de receio, de desconfiança é muito grande. É como se tivesse recebendo um estranho, do qual necessitasse manter distância. E isso acontece de forma assustadoramente natural! Mas, passado esse primeiro momento, depois das devidas higienizações, tudo começa a voltar ao normal. Felizmente, o tesão e o sexo permanecem iguais. Espero que continue assim.”  Outras relataram que têm a sorte de passar o tempo com o parceiro”, porém, têm “transado bem menos que antes” e às vezes ficam um pouco incomodadas. “Estar em casa o tempo todo, por mais que eu arrume coisas para fazer, me faz ficar angustiada. Com tantas notícias, tantas pessoas sem direitos, tudo contribui para diminuir a  libido; em suma, estou transando bem menos”. Por outro lado, um relato disse que “Nunca tive tanto tempo livre para fazer sexo, e está sendo bom!”. Penso: teremos uma safra de bebês de quarentena?? Ou teremos menos bebês daqui a nove meses mais ou menos?

Foto: arquivo pessoal da autora

Algumas mulheres disseram que há tensões, brigas frequentes. “A rotina está criando vontades de querer matar o marido por conta das reproduções da masculinidade tóxica de achar que a esposa é empregada”. Ou que relações entraram em crise em decorrência da convivência extrema. “Não aguento mais todos os dias ter que alertar a ele que precisa se cuidar, usar máscara para sair, lavar-se quando chega, sair menos… se não tem cerveja, pronto, lá vai ele, e me deixa nervosa, com medo de que traga o vírus para a casa, para os filhos”. Noutras histórias, atritos se dão porque ele não quer ficar em casa,  não tem os mesmos cuidados para com ela e com os filhos ou insiste em fazer sexo ignorando que ela está sem vontade e sem tesão.

Essas narrativas, evidentemente numa amostragem muito pequena, evidenciam que há afetos e cuidado mútuo, e relações sexuais continuam acontecendo; mas também que há homens intolerantes e impacientes, que partem para a agressão, a intimidação. Há pesquisas mostrando que o isolamento tem aumentado em até cinquenta por cento os casos de violência doméstica, com demonstrou Juliana Rabelo na reportagem O cárcere feminino do Coronavírus, publicada neste Portal.

Sobre as mulheres que não tem relação estável, o receio do contato físico é evidente. Se namoravam ou tinham sexo casual, agora se preservam mais, têm consciência dos riscos e, em geral, se afastando das possibilidades de encontros. “Tenho ido ao tinder, mas só quero encontrar depois que isso passar, depois da quarentena, então volto paro o mundo, para o sexo, para os homens…”  A baixa da tesão foi relatada como afetação do desejo. “Eu ando sem tesão, estou pra baixo, desolada… Como confiar em alguém que conheci no meio dessa suspeita de que me passe o vírus? Não, então não”.  Também relatam as estratégias de ficar com animais. “Sorte que tenho uma cachorrinha, que abraço, beijo, dorme comigo… com o papo de não poder trocar saliva, fica muito doído. Parece que estou vivendo uma crônica dentro da minha vida, ou que a vida é uma crônica, assim. Tem um humor, mas tem um lamento, uma tristeza, é estranho. Fico subindo pelas paredes”.

Os relatos de como cada uma lida com a sexualidade e os afetos evidenciam estratégias de como ficar em casa dos pais e se aproximar mais deles, ou desfrutar a companhia de um bichinho de estimação, recorrer a redes de relacionamentos, redes sociais e conversar para amenizar a carência. E, por vezes, fazer sexo virtual. Ou bastar-se. “Comigo? Não tenho o menor problema em me dar prazer sozinha; nem preciso ler ou ver coisas a respeito de sexo, imagino e me excito. Estou tentando desenvolver um amor próprio e procurando estar mais atenta ao meu corpo”.

Não fiz perguntas para homens, portanto, não tenho suas experiências. Chama a atenção nos relatos o fato de que homens estão insistindo para encontrá-las, prometendo higiene, carícias, e mesmo se oferecendo como voyeur.  Não deixa de ser uma boa estratégia, penso eu, se respeitado o cuidado, e se elas toparem. Todavia, há relatos inusitados:

“Estou namorando, e vim ficar com minha família estes dias de isolamento. Ele é daqui, e minha quarentena está sendo regada de sexo como nunca antes! Medo? Nenhum, ele se cuida!”. Bem, são escolhas, por certo avaliadas e dialogadas.

O extraordinário também acontece: em pleno vigor do isolamento social, numa tarde de quinta-feira de março, ela conversou com um vizinho, ainda desconhecido, para tratar de assuntos do condomínio…  o olhar de mormaço focado nos olhos dele; ele, nos olhos dela e, como se fossem únicos no planeta Terra, se embebedaram de desejo. Duas horas de conversa e, na noite do mesmo dia, brotaram presentes deixados nas portas dos apartamentos, o dele e o dela. Afinidade total. Dia seguinte, ele a convidou para “tomar Cabernet, comer chocolate com caramelo, receber massagem nos pés e falar da vida”. Eis que a paixão presenteia o casal que, até então, não se sabia vivente e tão próximo. O amor seguiria quase ininterrupto, por dias, e dias, e noites, numa sequência deliciosa de encantamento, paixão e erotismo. O amor também acontece em tempos assim; como aconteceu no tempo do cólera, na comovente história de amor de Florentino Ariza por Firmina Daza, a sua deusa coroada, na magistral narrativa de Gabriel Garcia Márquez.

Sem baladas, festas, bares, restaurantes, passeios, cinema, contato afetivo real, o humor ganha outros contornos nas tragédias. Pessoas solteiras antes sabiam onde frequentar, encontrar amizades, sexo; agora, estão altamente angustiadas por não ter aonde ir, não poder ir a nenhum lugar. “Quero subir pelas paredes, mas subo mesmo é no meu sofá e cato o Netflix”. Ou “Estou tão carente e solitária, só saio para o supermercado, e lá, se vejo um homem de máscara,  fico logo com tesão!!” Por outro lado, fazem piadas machistas, as quais nem vale a pena traduzir aqui.

Foto: arquivo pessoal da autora

Esta é uma crônica meio avessa, ganhou contornos de pesquisa e, mesmo que em tempo curtíssimo, mostra algumas experiências da clausura na (in)contingência do isolamento social, das relações com a sexualidade, o erotismo, o medo, os prazeres, o riso, os cuidados, os afetos e suas vivências no cotidiano.  Ficou visível o estranhamento de uma parte dos homens com as atividades domésticas, os incômodos de conviver mais tempo entre as paredes da casa, muitas vezes um minúsculo apartamento compartilhado por várias pessoas. As estruturas de gênero prescreveram aos homens o espaço da rua, do público, do cabaré; às mulheres, a casa, o espaço privado, o sexo mais contido. Sobre o cuidado, as mulheres mostram que têm mais preocupação com a saúde da família, o cuidado de si e dos seus.

As questões que exponho, e outras tantas que não me cabem agora, mostram um cotidiano que tem alterado a realidade, ou uma rotina que é outra, tira do eixo ou o desloca, gera desconforto, mudanças, explosão. A eclosão de uma pandemia neste mundo globalizado e de pessoas itinerantes tem dado mostras de que, ou mudamos a forma de ver os outros, as outras, e passemos a nos ver neles, praticando a alteridade no cuidado mútuo, na solidariedade como valor e preceito fundador nos direitos humanos inalienáveis, ou estamos no fim desta linha de tempo. Ou, caso decidirmos que os podres poderes devem seguir salvando a economia no lugar de salvar e construir vidas, nos tornaremos seres de um planeta iníquo, oco, vazio de sentimentos, sem gosto, sem graça e sem erotismo.

A distopia tão bem escrita por Rosa Monteiro, em Lágrimas na chuva, nos levará ao ano 2109 absolutamente controlados nos corpos e nas almas. Ali, um orgasmo pode ser comprado com um caramelo, e seus sentidos serão confiscados pelo controle de quem pode viver ou deve morrer.

Não queremos voltar ao tempo em que o exercício da sexualidade era quase que exclusivamente direito dos homens, sequer desejamos alcançar o tempo de O conto da Aia, cujo destino é sermos meras reprodutoras sem desejos e direitos. Muito menos: vai que descobrem que o sêmen e os líquidos vaginais são tão propícios para o habitat do vírus quanto a boca??? Voltaríamos ao tempo das toalhinhas de limpeza pós-coito que existiam nos motéis até algumas décadas. Somos seres gregários e afetivos. Queremos nos afagar sem medo, sexuar com liberdade como todos os animais do planeta. Sim, “vai haver amanhã”, Jean Willys (instagram, 24 de março de 2020). Santa Rosália, perdoai a ignorância e as bobagens que descontam na ciência seu azedume cético; olhe por nós, preserve nossa libido, afugente essa pandemia.

Leia as outras crônicas da autora.

Marlene de Fáveri, Turvo/SC. 08 de abril de 2020.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri