Foto: Paróquia Sant’Ana

Coluna da Marlene de Fáveri

Sob o olhar de Sant’Ana –  ou,  por que somos feministas

Postado em 05/09/2018, 10:20

No mesmo mês, agosto, em que se discutiu, em audiências públicas no Supremo Tribunal Federal (STF), a questão da descriminalização do aborto no país, um grupo de mulheres fez acontecer o primeiro congresso antifeminista do Brasil. Na cidade onde o Cristo Redentor abraça o mundo, simbolizando o acolhimento, essas mulheres embevecidas da moral cristã proferiram discursos com brados de ódio às tantas mulheres que morrem, e as que irão morrer, pelo desesperado ato de não disporem seu corpo para uma gravidez indesejada.

Aos pés da imagem de Sant’Ana, numa igreja católica, durante horas foram feitos discursos inflamados, os quais convergiram para o tema “Juntos contra o aborto”. Numa enfática demonização, uma delas profetizou:  “Não é seu corpo, e se você é cristã, sabe disso. Se não quer engravidar, então se proteja e fecha as pernas!”, reforçando o ativismo antifeminista para uma plateia diversa, abominando que o corpo nos pertence, propriedade tão cara ao Feminismo.

As mulheres que organizaram o evento são jovens, incluídas, vestem-se bem, usam maquiagem, fazem poses nas selfies que abundam nas suas redes sociais. Tem o direito de se expor; mas não tem o direito de torcer os dados oficiais; mentir para agradar plateias. “Não levantar falso testemunho”, diz o oitavo mandamento.  Estão alinhadas com os discursos mais conservadores que desconsideram as estatísticas apavorantes como as do Feminicídio, crime praticado por homens e que mata pelo menos duas mulheres por hora no Brasil atualmente.  Desconsideram, igualmente, o cancro social que mortifica mulheres, diariamente, por escolhas que beiram ao desespero: o aborto, por quaisquer que sejam as razões.

Nos discursos proferidos no evento, mulheres ignoram que hoje, nesse país, uma mulher morre a cada dois dias em decorrência de abortos mal sucedidos; a maioria das que morrem são mulheres trabalhadoras, pobres e negras, destituídas do direito de uma vida digna, de atendimento humanizado, e acabam tendo um destino sórdido por que os procedimentos não foram seguros. Ocorrem mais de 500 mil abortos clandestinos por ano, 1300 por dia, 57 por hora, quase 1 por minuto.  Com todos os riscos que esta decisão as submete, as mulheres só recorrem ao aborto num ato desesperado de abandono; e, aquelas que abrigam a gestação até o parto, por princípios morais ou sem recursos para acesso a uma clínica, sofrem um segundo abandono, o de criarem seus filhos sozinhas. No Brasil, hoje, são 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento, indicador da irresponsabilidade social. É culpa das mulheres?

Leia também 

“Não pensem nas mulheres como motor da demografia”

A morte evitável de Ingriane 

Não, elas não “Estão dispostas a transformar seus úteros em túmulos, tudo por causa do maldito empoderamento”. As mulheres estão se dispondo a pôr em prática o exercício da liberdade de escolhas; querem viver com dignidade. Não, não se trata de “uma lavagem cerebral feminista”; trata-se de igualdade de direitos, de equidade entre homens e mulheres. As mulheres não estão mais dispostas a serem meros corpos reprodutivos (de quem?); a maternidade não pode ser compulsória.  A maternidade é um direito, como é o direito de não exercê-la.  A lógica de que se a mulher morrer por consequência de um aborto mal feito está pagando por seu ‘pecado’ e o mereceu, não observa que a vida da mulher é uma vida mais do que potencial. Na lógica patriarcal e religiosa, as mulheres foram educadas a abrir as pernas de quando em vez e prenhas quase sempre. E os homens foram educados a obterem pernas abertas, mesmo que não consentidas, para depositar ali sua virilidade. Sobre eles nunca recai culpa ou criminalização.

Com esses discursos, estão legitimando a morte de mulheres; são discursos muito perigosos e irresponsáveis. Como entender uma mulher que usa uma camiseta com a frase “pró vida, pró armas, pró deus”? Como juntar  isso com os discursos religiosos que pregam o amor ao próximo, o respeito a vida, a solidariedade e a paz com armas? Esse deus eu desconheço; não é o mesmo deus que me ensinaram a respeitar quando eu era menina e comunguei pela primeira vez, embevecida do amor divino. Esse deus por certo não aprovaria a pena de morte, nem a menoridade penal, nem o sofrimento e a morte de mulheres; não aprovaria as violências todas a que as mulheres são submetidas. Nem as violências sofridas por homens, os homicídios geralmente como consequências nefastas advindas da miséria econômica que assola a sociedade. O Feminismo não é incompatível com valores cristãos; muito pelo contrário!

Todas as mulheres que chegaram a idade adulta ouviram falar ou conhecem outras mulheres, ou mesmo elas próprias, que interromperam a gravidez pelo menos uma vez. Pense nas suas relações próximas e perceba que também ouviu essas narrativas; muitas vezes segredadas e ditas em baixo tom de voz, como confessando pecados. Dados da Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2016 pelo Anis Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB), aponta que 20% das mulheres terão feito ao menos um aborto ilegal ao final da vida reprodutiva, ou seja, uma em cada cinco mulheres aos 40 anos terá abortado ao menos uma vez.

Dizer que “as abortistas escolhem abortar” faz ver um profundo desconhecimento das relações sociais e de gênero, bem como dos estudos e dados colhidos recentemente. Numa pesquisa feita pelo grupo Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), na análise por religião, apontou que 65% entre os/as católicos/as e que 59% entre os/as evangélicos/as discordam da prisão da mulher que interrompeu a gestação; e que para 64% dos/as entrevistados/as, compete somente à mulher decidir sobre a interrupção da gestação. Somente 4% dos/as entrevistados/as entendem caber à Igreja a decisão sobre a interrupção da gestão.

Foram homens que escreveram, umas centenas de anos depois da prisão política e morte de Jesus Cristo, a sentença para as mulheres: “Multiplicarei grandemente o teu sofrimento na gravidez; em meio à agonia darás à luz filhos; seguirás desejando influenciar o teu marido, mas ele te dominará!” (Gênesis, cap. 3,  versículo 16).  Deus, na sua imensa misericórdia, não diria isso; foi registrado pela voz de homens obstinados a sacrificar o corpo das mulheres, e segue pela História; é reatualizado nas vozes de quem advogam pelo antifeminismo.  Em tempo de exacerbação de fascismos, homens utilizam da religião, dos dogmas, em troca de votos; aparecem ensinando a uma criança como usar uma arma. O que isso nos diz?

Num discurso, noutro evento, uma mesma palestrante utiliza dados da demografia para ‘provar’ que os homens são mais vítimas que as mulheres, argumento para o ‘baixo’ número de morte de mulheres se comparado as mortes de homens. (2)  Pode-se ler que, se as mulheres morrem menos, os homens é que são as vítimas? Basta analisar o campo produtivo de forças para refutar um argumento tão leviano. É um discurso fascista, machista. O que querem? Que vida é essa que defendem?

Os argumentos dos discursos deste evento estão fora da realidade, do tempo real. Por exemplo, em Santa Catarina, no ano de 2017, temos registros de 49 mulheres que foram assassinadas por crime passional e violência doméstica, caracterizados como feminicídio. De janeiro a maio de 2018, neste mesmo Estado, 18 mulheres foram assassinadas; 317 mulheres foram vítimas de estupro consumado; 5.455 foram vítimas de lesões corporais dolosas, e 10.263 sofreram ameaças, conforme dados da Secretaria do Estado de Segurança Pública.

Cotidianamente as mídias noticiam mortes de mulheres praticadas por homens – marido, ex marido, namorado,  ex-namorado, amante. Massacres diários estão na ordem dos dias, e já não comovem. Da mesma forma estão acontecendo estupros, mortes de pessoas LGBTI, violência doméstica, mortes por aborto clandestino. Essas afrontas à dignidade humana e aos direitos fundamentais são previsíveis neste tempo de urgências –  um tempo mais que presente; um tempo real, fugaz, passageiro, efêmero, fluido, de incertezas que nos anestesiam. Estou refletindo sobre um tempo que se consome no tempo imediato – tudo está acontecendo rapidamente à nossa volta, de forma abrupta, violenta, incontrolável, destruindo muitas estruturas construídas historicamente com grande esforço e luta. Vivemos o tempo das redes, dos fakes, das lives, das imagens, que se esvaem com rapidez e no minuto seguinte será outra a notícia, a imagem.

Trazendo para o mundo da política, o que esperar dos dias, meses e anos  próximos? Da experiência da exacerbação de violências, dos fascismos que se reatualizam, urgem respostas e proposições contra toda sorte de discriminações, violências e preconceitos. Se mulheres são mortas pelo crime de feminicídio, elas também continuam recorrendo a prática de aborto inseguro: no tempo real, um tempo mais que presente, as mortes de mulheres é incontingente; é real; é verdadeiro; está acontecendo hoje, agora, ao vivo. É evidente e previsível que mulheres estão sendo atacadas a todo instante, e muitas delas mortas por serem mulheres. Negam-se a elas os direitos humanos, as criminalizam e as desqualificam como sujeitos do direito.

Temos que ter “sangue nos olhos”, sim, mas para defender as mulheres de violências; e, por conseguinte, a sociedade – crianças, mulheres, homens de todas as gerações, orientações sexuais, raças, etnias, gênero. Nos discursos ali proferidos, sob o olhar da imagem da santa, que por certo ficou chocada, refuta-se as conquistas feministas. Ouve-se, nesses discursos, que o “Feminismo não tem nada de igualdade”; “que negligencia a dor emocional masculina”; que as antifeministas sentem uma “dor imensa pelo sofrimento dos homens”, já que “as mulheres são causadoras desta dor.”  Erros graves de desconhecimento das teorias, como esta pérola: “Feminismo não é igualitário, nunca foi. O Feminismo sempre foi sobre a superioridade de seus pares, ou seja, das mulheres frustradas e incapazes de tomar decisões sábias sobre seus corpos” (aplausos efusivos – na plateia, a maioria eram homens). Um paradoxo gritante nesta frase:  mulheres que tomam decisões sobre seus corpos são livres e não se frustram por tomarem suas próprias decisões. Aliás, contradições discursivas são evidentes na maior parte das falas.

Em todas as falas do evento, o teor é de zombaria e desqualificação do Feminismo e das feministas. Li numa página de rede social de uma das organizadoras do evento que as letras mais importantes que todas as mulheres devem decorar desde que nascem são “o,b,d,c”! Uma mulher pode pensar assim, viver obedecendo e dizendo ‘sim senhor’; mas a obediência sugere um mandatário, patrão, dono; e que toma decisões por elas.

É paradoxal quando apregoam os “malefícios do Movimento Feminista ao progresso de uma sociedade livre e segura para as mulheres de nosso país”. Qual liberdade? Desconhecem as lutas feministas, suas pautas, seu legado histórico (embora penso que conheçam); os direitos duramente conquistados; ignoram a dinâmica da sexualidade – duvido que tenham esquecido como é prazeroso sexuar.

O Feminismo é generoso como proposta e ação para que as relações sejam equitativas, com direitos e convivência pacífica, emancipadora, para homens e mulheres. É a prática política para pôr fim à sujeição de um sujeito sobre o outro; mais precisamente para pôr fim à sujeição das mulheres.

É preciso um grande esforço para refutar as pesquisas e a enorme produção do conhecimento acerca das mulheres, do gênero como categoria de análise social, das violências; das lutas para que as mulheres fossem sujeitos do direito. Penso que é uma forma de conquistar palco, ter voz autorizada – mas isso não é coisa de homens? Quem professa os discursos são mulheres; elas estão nos microfones, nos púlpitos, nas tribunas, nas escolas, advogando contra si próprias. Pergunto: se assim entendem e acreditam, não deveriam estar em casa, cuidando do lar, recatadas e submissas, com uma penca de filhos, sob a proteção de um homem provedor, rezando para a padroeira da fertilidade, das mulheres grávidas e, para a virgem do bom parto?

Foi sob o olhar anestesiado e perplexo de Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus, que mulheres desqualificaram os mais evidentes direitos feministas, na tentativa de legitimar discursos fascistas e machistas. Hipocrisia,  incoerências e paradoxos, pois.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri