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Coluna da Paola Carvalho

Quando vamos parar de observar e fazer algo efetivo?

Postado em 22/04/2021, 15:04

Nos últimos dias, a imprensa tem divulgado notícias sobre as famílias que, sem condições de comprar gás de cozinha, têm preparado seu pouco alimento em fogões a lenha. Muitas vezes, há apenas um fogão improvisado queimando madeira para uma comunidade inteira.

No Jardim São Luís, área pobre de São Paulo, uma líder comunitária conseguiu cestas básicas para doar e improvisou, praticamente no meio da rua, um desses fogareiros para os vizinhos cozinharem.

Enquanto a classe média e as mais abastadas discutem e planejam seu dia em home office, há quem dispute espaço no fogão improvisado. Os mais pobres, entre os pobres, disputam mesmo é uma senha ou um espaço nas filas que doam cestas básicas ou uma marmita que vai salvar o dia e ainda ser dividida.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelaram que, entre 2016 e 2019, houve um aumento no país de 30% no uso de fogão a lenha para cozinhar. No Sudeste, região em que habitualmente esse recurso é pouco usado, nos últimos meses o aumento foi de 60%. 

Esses são registros incontestáveis de que há um empobrecimento da população em ritmo acelerado, pois, acreditem, esse é um dos fatores que servem para medir esse tipo de índice. 

Nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que o número de pessoas em situação de rua no Brasil cresceu 140% de 2012 a 2020, chegando a 222 mil brasileiros. Os que vivem nessas condições, em sua grande maioria, são trabalhadores informais, guardadores de carros, ambulantes, entre outros, vitimados pela pandemia. Se o levantamento fosse feito hoje, com certeza teríamos uma realidade ainda pior.

O mais difícil de tudo isso é saber que, com o coronavírus sem controle e sem a perspectiva de vacina, muitas pessoas, sem renda, sem emprego e sem condições de manterem suas casas, tiveram seu destino transferido para as ruas.

Pior ainda é saber que essas não são histórias isoladas. São exemplos reais que se repetem todos os dias no whatsapp da campanha #auxilioateofimdapandemia. 

A cada mensagem que entra (e são centenas), um sobressalto. Relatos difíceis de ler e mais ainda de digerir. Mães que não têm o que oferecer aos filhos, outras que compram ossos e pelanca, partes geralmente descartadas nos açougues, para  cozinhar para a família, que vendem panelas para comprar pés de galinha. Estão sem luz, sem gás, sem água, sem perspectiva, sem sonhos. 

Com a única possibilidade de auxílio emergencial negada, sobra, para algumas delas, a venda do corpo em troca de alguma comida para os filhos. 

E ainda há a indiferença e a lentidão do governo que finge não ouvir – ou talvez não ouça mesmo tão perdido que está ao vociferar contra tudo e todos à sua volta – a voz que vem das ruas, junto com o aumento da indigência, da fome e da miséria. 

Com o gás de cozinha a R$ 100, o equivalente a 10% do salário mínimo, como sobreviver com R$ 150 oferecidos como auxílio emergencial? Ou como sobreviver se alternativas de gerar renda são cada vez mais escassas, especialmente para quem tem menos qualificação?

A sociedade precisa se mobilizar e pressionar as diversas instâncias de poder para olhar seriamente para essas diferenças que não podem mais persistir. A pandemia escancarou os abismos sociais. Então, está na hora de pensar que somente uma renda básica digna e universal será capaz de resgatar essas pessoas da pobreza absoluta, devolvendo a elas dignidade e condições de sobrevivência.

Vamos deixar o conforto do nosso home office para olhar seriamente todas as questões que nos tornam ainda um país tão desigual!




Diretora de Relações Institucionais da Rede Brasileira de Renda Básica, uma das organizações participantes da campanha #AuxílioAtéoFimdaPandemia.
Veja a coluna da Paola Carvalho