Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Coluna da Kênia Gaedtke

Por que “torcer contra” o governo Bolsonaro?

Postado em 03/01/2019, 10:07

Primeira semana de governo, e tem sido recorrente o discurso paz e amor do “vamos torcer para dar certo”. Ele normalmente vem das mesmas pessoas que tentaram apaziguar as eleições com o “independente de quem ganhar, mantenhamos a esperança no país”. É impossível não lembrar, nesses momentos, das célebres (e já tão modificadas) palavras do pastor luterano Martin Niemöller durante o nazismo:

“Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar”.

Há ao menos três questões importantes aqui. A primeira é o papel da oposição dentro de uma lógica democrática. Em uma sociedade autodeclarada democrática, haver oposição ao governo é sadio e necessário.

Apenas em regimes autoritários as pessoas são impedidas de expor suas opiniões contrárias – o que parece ser a defesa do atual presidente, que ainda em campanha declarou que “se esse grupo quiser continuar cá, vai ter de se submeter à lei, como todos os outros. Ou saem [do país] ou vão para a prisão”.

Um segundo aspecto parte de uma reflexão necessária: pense, por um segundo, como estaria sendo a oposição caso os eleitos tivessem sido Fernando Haddad e Manuela D’Ávila. Quanto ódio não estaria sendo despejado nas redes sociais, filas de padaria e almoços de família? É claro que esse ponto, sozinho, não é justificativa suficiente – seria usar de uma alegação infantil do tipo “se eles fariam, eu também posso fazer”.

Mas é preciso lembrarmos que a forma como foi feita oposição aos governos do PT, especialmente à Dilma em seu segundo mandato, foi vil e antidemocrática.

Os discursos dos parlamentares quando da votação do impeachment/golpe foram um apanhado do que há de mais misógino e desumano, como o do então deputado federal Jair Bolsonaro, que exaltou os horrores da ditadura ao proferir que “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”. Havia, claro, vários motivos para se fazer oposição à Dilma e ao PT. Eu mesma o fiz. Mas não se trata da oposição em si, e sim da forma como foi feita.

A questão mais importante, no entanto, é a quem fazer oposição. O governo Bolsonaro não é um governo qualquer. Este é um governo cuja campanha já deixava escancarado o conflito com os Direitos Humanos, com a igualdade de gênero, com os direitos dos povos indígenas, quilombolas, com a população LGBT. Foi uma campanha vencida com base no pânico moral, instaurado a partir de obsessões com kit gay, conspiração comunista e dissolução da família e da nação. Não há surpresa aqui – talvez somente para aqueles que defendiam que Bolsonaro era um velho garotão brincalhão, que ele não iria fazer isso mesmo.

Mas vai fazer. Já está fazendo. Estamos assistindo assombradas a cada nova edição do Diário Oficial da União com mais barbaridades, exatamente como se anunciava durante a campanha. Para quem defende a paz acima de tudo, sinto informar que a paz já acabou há tempos. A paz já acabou para a mãe da favela há tempos. A paz já acabou para os povos indígenas, para os artistas e professores, para a minha aluna lésbica que me escreveu desesperada na madrugada, dizendo que foi perseguida por um grupo de homens que gritavam “aqui é Bolsonaro!”.

O país já está dividido, no mínimo, desde a eleição anterior. De lá pra cá, o abismo só aumentou, e agora o até então irrelevante deputado dorminhoco conseguiu o posto máximo do executivo nacional, surfando nessa onda neoconservadora. Os amigos estrangeiros me escrevem perguntando o que aconteceu, como o país elegeu essa figura, e eu, abismada, não lhes consigo responder.

O que eu sei até agora é que ho’oponopono (prática havaiana antiga, com vista à reconciliação e ao perdão) se faz pra quem tem salvação. Ser good vibe têm um limite. Muitas vezes é preciso deixar a força do pensamento de lado e partir pra força política. A espiritualidade tem servido pra manter a sanidade, mas ela não pode ser justificativa pra nos tirar da luta – é simplesmente impossível nos ausentarmos diante de tanto disparate. Eu amaria, do fundo do coração, reler esse texto daqui a quatro anos e pedir desculpas por ter errado. Mas esse governo, em alguns dias, já me deu dezenas de motivos para dizer “eu avisei”.




Kênia Gaedtke é doutora em sociologia política pela UFSC e professora do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) no campus de Jaraguá do Sul, onde compõe o grupo de pesquisa Amapô Odara, que discute as relações entre corpos, gênero, educação e identidade.
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