Imagem: da série cuarentena, dibujo de Cathy Burghi.

Coluna da Abrasabarca

Poéticas da convivência: amavisse apesar de qualquer agora

Postado em 11/08/2020, 17:11

espiral da palavra
desejo
vem
do olho pra voz
amanhã já é outra coisa
porque se alastra o medo

anoushka shankar ou django reinhardt
dentro da cabeça aquária
criam bolhas de ar
que explodem para expulsar o perigo

fogo dentro de embarcação
sempre obriga ao mergulho

antes de se extinguirem
os fogos quase mortos
nos cabelos brancos
a mula sem cabeça nos oceanos

cansa
e se apresenta

canta
mais uma vez

deseja ondas no lugar de ninhos
o ventre segredando outras revelias
me falas de leite nas tetas
te falo que arvores secas
sobrenadam e geram

fluxos de um sangue extinto
e filhas grandes
de olhos vidrados
visando apocalipses

hoje a pausa me deseja

onde a onda
aonde vão as ondas
e as ninharias de desejos

desejo que minha voz
saia do aquário
e que a moeda falsa atirada no poço
seja acessível a todas as mãos
que escavarem os metais redondos de sonhos falidos
a exigirem o fracasso de fúrias ocas

desejo tanto te falar com a boca
espiral de palavras
da jaula desejo te falar de desejos
de miudezas e de crítica e de cisma punitivista
da terra no assoalho de uma biblioteca
da minha mania de ser falcatrua

(no meio de tudo, inter(rompendo) a espiral atravessou gorda, lenta e insegura uma nota de rodapé com viveiros de castro gritando de dentro de índios brasis que há andando por aí com rumo e destino um projétil proposta de uma antropologia enquanto exercício de descolonização permanente do pensamento, que aspira despertar alguns possíveis, entrever algumas saídas que permitam…um desenlace outro que – pausa dramática
porque sim, é o que está nos acontecendo – a morte por asfixia)

desejo tingir as palavras
de livros com asas
em seguida esquecer de tudo

memória voa um pedaço
volta ao aquário
pesada de esquecimentos
e de infâncias
desvios desacatos derrelição

desabandono o desejo
espiral de palavras
desejo
não comunicar se não houver
no teu ouvido uma concha
cálida funda cheia
mônada de afeto

desejo te perguntar
aonde anda a onda
ondas presas se agitam?
revolvem os fundos?
o nome da reta torta
que desvia da espiral
é farpa?

a moeda objeto por si só
é desejo numismático
perco desejos que troco
por moedas falsas
em poços e aquários

desejo que os desejos se encontrem
rolem por oceanos
e quebrem em ondas na praia

desejo que da próxima vez
a espiral de palavras seja apenas

uma língua desejante
uma terra ainda prenhe
apesar dos corpos que engole
quase sem memórias
sem aspirar
mais nada

*Lu Tiscoski




ABRASABARCA se dedica à pesquisa, descoberta e (re)invenção poética. Somos um coletivo que se formou em encontros para ler poemas e falar de literatura em torno da mesa, da fogueira, do vinho, dos livros. A brincadeira de ler em conjunto o texto de outras e outros nos trouxe o desafio e o prazer da escrita autoral. Formado por Ariele Louise, Ana Araújo, Elisa Tonon, Ibriela Sevilla, Juliana Ben, Juliana Pereira e Luciana Tiscoski, realizou as publicações Abrasabarca (Medusa, 2018) e Revoluta (Caiaponte, 2019). Principais performances: Durar ou arder? (Quinta Maldita, 2018), Uma mulher o que é? (Sarau da Tainha, 2019), Como olhas? (FestiPoa Literária, 2019), Revoluta (Bienal Internacional de Curitiba/ Polo SC, 2019).
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