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Grafite nas ruas de Lima, Peru, por @bronikart | Foto: Joanna Burigo.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de discernimento: devolver a dor a quem causa

Postado em 28/11/2021, 12:02

Patrilinearidade e prisão

O ator André Gonçalves vai usar tornozeleira eletrônica depois de ter sua prisão decretada por falta de pagamento de pensão. A jornalista Elisa Oliveira reportou a notícia comentando, certeira, que esta é a única instituição que pune homens cis. 

Estendo a reflexão: isso se dá porque a mulher cis, nesta equação específica, não é a primeira prejudicada, e sim vista, pela lei, como pouco além daquela que pariu. O pulo humanizante, do pai para os frutos de sua patrilinearidade, passa necessariamente pela desumanização da mulher, e isto fica bastante visível na fetichização patriarcal que positiva a maternidade e os rebentos, mas não a mulher. 

Se não fosse assim, homens seriam igualmente frequentemente punidos em quaisquer outras instâncias de violência de gênero.

Monogamia é ingenuidade

Eu não sei quem é mais ingênue: quem defende não-monogamia com produção textual rasa e falaciosamente debruçada em genuínos questionamentos feministas, decoloniais e/ou de gênero, ou quem acredita que o modelo de relacionamento monogâmico, fundamentalmente patriarcal, em algum momento valeu para os homens.

A base da lógica monogâmica

Escrever e debater não-monogamia para justificar o próprio desejo é absolutamente razoável. Raso, mas razoável.

O que falta é apontar que o caráter fundamentalmente objetificante da maternidade compulsória, somado à necessidade da manutenção da patrilinearidade, estão na base da lógica monogâmica. 

O texto ovulal “O tráfico de mulheres”, em que Gayle Rubin triangula Freud, Marx e Lévi-Strauss para elaborar o sistema sexo/gênero, também demonstra que a monogamia (…e gênero!) são produtos do controle da sexualidade e dos corpos de mulheres cis para garantir a linha patriarcal do clã.

Vida de gado

Vocês sabiam que os brasilofascistasraivoantipetistas que precederam a formação do que hoje podemos chamar de bolsonaristas usavam aquela canção do Zé Ramalho postulada como questão no ENEM 2021 para nos descrever, sim?

É passado, já, o tempo de compreendermos que disputar (ou celebrar…) significado pelos seus significantes é um exercício circular e, por isso, inútil no que diz respeito a possibilidades reais de progresso ou de saídas.

Entendamos que qualquer linguagem pode ser utilizada para sustentar qualquer propósito, e que essa é justamente a marca do emprego insidioso de discursos no século XXI.

A virada linguística da filosofia nos alertou sobre isso ainda no século XX, e o mala mais foda que foi Jean Baudrillard mostrou exatamente como a coisa toda aconteceria.

INEP folgazão

Parabéns e obrigada aos funcionários do INEP pela resistência demonstrada na capacidade satírica de burlar a burrice, que sempre acomete censores, com questões compostas de forma precisa, preciosa e debochada no ENEM 2021. 

Meu ângulo, na nota anterior, era sobre a comoção nas redes sociais, e a emoção depositada em termos que, mui facilmente, são empregados para fins contrários. Isso me parece um exercício de distração, não de resistência.

Cultura influencer

Eu queria mesmo saber qual é o arcabouço teórico utilizado pelas escritoras feministas que são sucesso no Instagram fazendo “análise” de mídia e cultura.

Será que conhecem Ros Gill? Leram Sarah Ahmed? Refletiram acerca de Patricia Hill Collins? Acessam o Feminist Media Studies? Claudia Padovani, Karin Raeymaeckers, Sara De Vuyst e Sadie Wearing, são nomes que reconhecem? Da Laura Mulvey ao menos ouviram falar?

Ou “ela faz a audiência dela” fazendo polêmica vazia com ar quente, fumaça e palavredo opinativo em cima de subcelebridades, como dita a cultura influencer?

HAJA discernimento.

Gênero, mentiras e Instagram

Na linguagem bíblica, “vendilhões do templo”. Na das redes sociais feministas, “influencer de Instagram”.

Falsativismo

Estou há mais de uma década perdendo afetos por não perder a chance de desvelar machismo e racismo e transfobia e preconceito de classe, vendo mil picaretas enriquecendo com oportunismo feminista de um lado e mil charlatões ganharem fama com gênero por outro, dedicando mais de 50% do meu tempo para trabalho voluntário e/ou não pago disseminando teoria com método e rigor, investida com afinco, coração e orgulho na educação popular… para uma pessoa que nunca falou comigo nessa vida e obviamente não conhece meu trabalho ir até um post meu no Facebook me chamar de elitista porque, nele (e em tantos outros), tive (e tenho) o clitóris de denunciar com fundamento e sem medo o caráter raso de falsativismo de Instagram. É mole?

Atrapalhemos a alegria feminista

No 20 de novembro deste ano minha amigamor Camila Lima compartilhou uma frase potente da feminista Sarah Ahmed que, parafraseando aqui de memória, dizia que falar sobre racismo no feminismo é atrapalhar a felicidade feminista, e que *temos* que atrapalhar a felicidade feminista falando de racismo no feminismo.

Primeiramente: sim, oui, yes, sí, ja, نعم.

Agora, elaborando essa reflexão, e estendendo para outros conflitos afetivos ligados a preconceitos estruturais:

Lutar contra opressão sistêmica ou abuso individual sempre (sempre, sempre!) atrapalha a felicidade, seja das pessoas que compõem o sistema de opressão ou do sujeito abusador.

Atrapalhar a felicidade alheia por autodefesa ou autopreservação, ou mesmo por pura consciência de classe/raça/gênero e consistência na luta, não é exatamente algo fácil de se fazer, e quase nunca é possível de se fazer com plena alegria. Ninguém é feliz sendo recipiente de racismo, machismo, transfobia ou prepotência, algumas pessoas felizmente não são felizes sendo meras testemunhas de racismo, machismo, transfobia ou prepotência. Fazer esses apontamentos com alegria pode até ser possível, mas mais frequentemente do que não, causa muita dor e perda para o mensageiro.

Cabe sempre (sempre, sempre!) aos que cabem na crítica lidar com desconfortos e infelicidades de se perceberem opressores, abusivos, arrogantes. Que nenhuma de nós se preocupe com o ego de quem passa por cima do legítimo desejo (e direito!) por respeito. E que quando formos o alvo justo da crítica, que tenhamos no mínimo a decência de lidar com ela sem piorar a situação jogando titica em quem nos alertou.

Falar de racismo, machismo, transfobia e preconceito de classe atrapalha a felicidade do racista, do machista, do transfóbico e dos ricos. E este desconforto e infelicidade são simplesmente o primeiro passo para que estes sujeitos possam sentir algum desconforto e infelicidade oriundos do racismo, machismo, transfobia e preconceito de classe.

Vilma Piedade ensina que dororidade é dor transformada em potência, e penso ser um ato de coragem devolver a dor a quem a causa.

Coragem, firmeza no propósito, atenção para nutrir discernimento, e muita paciência para agir com sapiência são coisas que precedem quaisquer possibilidades de lutar com alegria para quem se investe em superar desigualdades e outros horrores oriundos de autoindulgência e egoísmo inconsciente

Privilégio é um conceito relativo

É não apenas óbvio, mas bastante incontestável ao observarmos a sociedade através de lentes feministas, que para mulheres não são concedidas vantagens sociais, por conta de sermos mulheres, numa sociedade patriarcal. Não deveria haver disputa intrafeminista sobre isto.

Mulheres cis, no entanto, temos ao menos um privilégio em relação a mulheres trans, que é: ninguém duvida do fato de sermos mulheres.

Os horrores a que meninas e mulheres cis são submetidas, desde nossas infâncias e mundo afora, deve ser reconhecido e denunciado por todas, todos e todes. Mas não pode ser usado como justificativa para transfobia, afinal crianças e adultes trans também são submetides a horrores outros, que devem igualmente ser reconhecidos e denunciados por todas, todos e todes.

Privilégio, assim como feminismo e gênero, não é um conceito estanque.

Na Emancipa Mulher usamos, dentre outros, os conceitos de Nancy Hartstock, Barbara Smith e RW Connell para explicitar que feminismo não deve ser um arcabouço de conclusões políticas sobre a opressão das mulheres, e sim uma práxis que considere contextos (Hartstock), que deve incluir todas as mulheres ou então não é feminismo, mas sim plataforma de auto engrandecimento (Smith), e que a masculinidade e a feminilidade são relacionais, e sustentáculos da ordem de gênero (Connell), e isso exige olhar e reflexão críticos sobre como linguagens de gênero se inscrevem em corpos.

Discernimento, gente.

Os donos do feminino

Certas feminilidades são sistematicamente empregadas para enfatizar a hegemonia da masculinidade, e soa como entitlement* reclamar do cantor Harry Styles usando o caráter hegemônico da própria masculinidade para fazer performance de feminilidade enfatizada na capa de uma revista de moda.

Avaliação crítica do próprio machismo, misoginia e posição na ordem de gênero** ninguém gosta muito de fazer, pois isso gera um desconforto danado… mas domínio sobre as linguagens e imagens da feminilidade todo mundo sente poder ter, reparem.

Já quem fez deboche, parabéns. 

Fogo no patriarcado e pouca paciência para argumentação rasa sobre as complexas (e nada fáceis de desatar, sem sucumbir a disputas falaciosas) questões de gênero.

* palavra em inglês que não tem equivalente exato em português, mas que pode ser descrita como um senso irreal de direito

** “ordem de gênero”, “masculinidade hegemônica” e “feminilidade enfatizada” são conceitos de Connell.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo