Imagem: Festival MenstruAÇÃO/ Foto: @nass_dafne

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (8) – “Eu sabia porque via o sangue no banheiro”

Postado em 30/05/2021, 10:43

Domingo, 30 de maio de dois mil e vinte e um. Felizmente chegou minha vez e recebi com alegria a primeira dose da vacina Astrazênica! Todavia, furiosa com  as absurdas decisões dos dementes no governo que atrasaram a aquisição das vacinas. Continuo com os mesmos protocolos e cuidados,  dada a insegurança dessas novas variantes.

Ando cansada desta clausura, deste não sair, não aglomerar, dançar, abraçar, festejar. Estou em minha casa em Florianópolis faz duas semanas e já me  incomoda este silêncio sem gente por perto. Planejei baixar a biblioteca, mexer nos guardados, mas cadê ânimo? É um cansaço que enrijece os ombros, atrapalha e tira do foco. Um cansaço pandêmico.

Eu costumava assitir noticiários, mas agora as notícias me estafam: imagens de hospitais lotados, a chegada de novas cepas do vírus, a falta de vacinas, os números de óbitos por estado e por cidade, os mapas vermelhos – no Brasil são 460 mil mortes de um genocício orquestrado. Somam-se a estas tragédias as mentiras na CPI da Pandemia, a vergonha cada vez que o presidente inominável abre a boca, as queimadas na Amazônia e as estatísticas da fome. Estressante. Estamos vivendo um tempo rodeado de estupidez.

Se eu, que posso me isolar e não me faltam condições para viver com segurança, sinto esse desânimo, o que dizer das pessoas que têm fome? Das sem teto, sem trabalho, doentes, sem água potável? Das crianças? Das pessoas idosas? Das adolescentes e mulheres sem condições de cuidados de si? Capitalismo e necropolítica, a política da morte.

Esta semana, dia 28 de maio, marcou o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, data criada em 2014 pela OMS com objetivo de chamar a atenção para a falta de acesso básico à higiene das pessoas que menstruam como uma questão de saúde pública e direitos humanos. Estatísticas dão conta de que uma em cada quatro adolescentes brasileiras (25%) não tem acesso a absorventes no período menstrual.

A preocupação de ONGs, coletivos de mulheres e as que estão na esfera pública e política faz sentido: segundo dados do relatório Livre para Menstruar, no Brasil,  cerca de 20% das mulheres não possuem acesso à água em casa e mais de 200 mil meninas estudam em escolas com banheiros sem condições de uso. Ou seja, o problema é estrutural e depende de políticas públicas e de profundas reformas para o acesso ao saneamento básico. No Brasil, em torno de 60 milhões de mulheres menstruam e, destas, 15 milhões não têm acesso à água tratada, e 1,5 milhão moram em casa sem banheiro. (IBGE/ONG Girl Up).

Além disso, 30% das mulheres não têm acesso a produtos de higiene adequados, e 25% das adolescentes já faltaram à escola por não terem absorventes. Minha mãe trabalhou numa escola estadual em Turvo, e me contou que “como eram meninas de 10, 11 anos, muitas menstruavam quando estavam na escola. Eu sabia porque via o sangue no banheiro. As vezes eu dava um paninho, orientava”. Relatos mostram que, dependendo da vulnerabilidade, mulheres utilizam estratégias como o uso de papel jornal, papel higiênico, toalhas de papel, pedaços de plástico, miolo de pão ou algum retalho de tecido para absorver o sangue que, além de não serem seguros, podem ser prejudiciais à saúde feminina.

A menstruação sempre foi um assunto tabu, silenciado, segredado, escondido, sussurrado entre as mulheres.

As religiões – sempre elas – associaram-na à impureza, imundície, sujeira, veneno e doença, produzindo sentimentos de vergonha. Na lei mosaica, a mulher era considerada impura por sete dias durante a menstruação, e todos os objetos em que tocasse também ficavam impuros. Para os teólogos católicos, o sangue masculino nunca foi considerado venenoso, mas o sangue feminino é infeccioso, impuro. Nas igrejas, em algumas paróquias, mulheres menstruadas ou eram impedidas de entrar nas igrejas, ou só podiam assistir missas e cultos segregadas num canto da capela.

Na Índia, por exemplo, as mulheres são discriminadas e segregadas quando estão menstruadas, consideradas doentes e impuras. Segundo acreditam, a simples presença de uma mulher menstruada tem o poder de secar plantações, matar animais, desandar a comida, ficar infértil além de outros castigos como a desonra e o abandono. O documentário ‘Quebrando o Tabu’ (Netflix), da cineasta Rayka Zehtabchi, revela a realidade severa da vida das mulheres: perdem o emprego, param de estudar, são impedidas de entrar em templos por serem consideradas sujas quando menstruadas. Também o filme ‘Padman’, o Homem Absorvente (Netflix) mostra os tabus que envergonham as mulheres e suas famílias se forem tocadas durante a menstruação.

A partir desses discursos, associou-se ao sangue menstrual o pecado, a vergonha, a culpa. Quando eu era menina, tinha uns oito anos, assustei-me com a água vermelha quando minha prima lavava paninhos na sanga. Perguntei o que era: “Tu és uma pirralha! Isso é coisa de moça! Não conto!”, disse. Perguntei à mãe, e ela, ruborizada e sem jeito, disse que “quando meninas ficam mocinhas vêm as regras e sai sangue daqui”, com a mão apoiada no baixo ventre. Passei quase três anos esperando em silêncio… Depois, escrevi um poema assim:

Mamãe explicou que forrinho

 se usava no umbigo

– ela tinha vergonha das regras.

 Todos os dias eu tateava o ventre

 à procura da cor beterraba.

Quando fiquei mocinha,

assustei-me,

pensei que ia morrer.

Eu estava na casa de minha nona e, com vergonha, disse a ela que me sentia doente. Com os olhos baixos e como se tivesse cometido um pecado, contei o que me ocorria. Ela me levou a um quarto, trancou a porta, rasgou lençóis velhos, dobrou e me deu para usar. Disse que não devia nem mostrar nem dizer para ninguém, esconder bem, sempre, e que me cuidasse bem. Claro que entendi que era uma vergonha estar assim…

Não havia absorventes – se havia, não chegavam ao meio rural. As mulheres usavam forrinhos ou pedaços de pano dobrados, geralmente reaproveitados de lençóis usados. Assunto proibido para meninas, era sussurrado entre mulheres. Eu nunca vi os forrinhos de minha mãe, e hoje fico abismada de como ela os escondia! Laura, uma senhora septuagenária, contou-me que “escondia bem! Tanto que o marido nunca viu! Eu lavava e secava num canto onde ninguém podia ver, Deus me livre se um homem visse!”. Soube que ela teve fungos provavelmente devido aos paninhos mal secados.

Aliás, me lembro que eram comuns as doenças de mulheres, que eram tratadas com banhos de assento (em bacias) de chá de rosa branca e um pouco de vinagre. Era assim.

Eu fugi da escola algumas vezes quando “vinha” e eu não tinha paninho. De uma feita, era muito frio, o sangue tinha passado na saia do uniforme. Tirei o casaco e o amarrei na cintura, com medo e vergonha que alguém visse. Passei o maior frio! Mas, uma vez por mês, naqueles dias, éramos dispensadas das aulas de educação física – o professor controlava e anotava no diário de classe. Ficávamos no banco ao lado das quadras ou na sala de aula.

Antes de mudar para Florianópolis, costumava sair com amigas para domingueiras ou festas, mas, se estivesse menstruada era sempre um drama: será que vai passar e aparecer na roupa? Quando arriscávamos sair, perguntávamos umas as outras “Olhe se está aparecendo?”. Acontecia de ficar o tempo todo sentada com receio de levantar e aparecer. Faltei encontros e bailes por medo e vergonha!

Eu só conheci absorventes quando mudei para Florianópolis para estudar, com 19 anos. O mais barato era o Ella, sem adesivos, e prendia na calcinha com um pregador de costura. Hoje existem uma enorme variedade de modelos, coletores, absorventes internos, dispositivos que eliminam o fluxo menstrual com muito conforto… mas, restritos para quem pode comprá-los. Como possibilitar a aquisição de absorventes num país em que metade da população está sem condições de comprar alimentos e se obriga escolher entre meio frango ou um pacote de absorventes?? Triste.

Foram tão fortes os tabus, o silêncio e os preconceitos sobre o fluxo menstrual da natureza das mulheres que só na última década esse tema entrou nas preocupações de ONGs, coletivos e políticas públicas. Um exemplo vem do Parlamento escocês que, em 2020, foi o primeiro país a aprovar uma lei para oferecer produtos menstruais gratuitos de forma universal. No Brasil, mulheres do PT se mobilizam contra a pobreza menstrual em diversas capitais, com o propósito de facilitar o acesso a absorventes nas escolas e unidades de saúde. Em Florianópolis, o Projeto de Lei 18205/21 de autoria da vereadora Carla Ayres (PT) propõe erradicar a pobreza menstrual no município, com o apoio da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e da Igualdade de Gênero.

“A menstruação está intrinsecamente relacionada à dignidade humana. Quando uma pessoa sangra e não tem acesso à água, banheiros, itens de higiene ou vive – por causa de algo que é fisiológico – situações de exclusão, vergonha e impotência, o princípio da dignidade está comprometido”. É uma questão de direitos das mulheres, direitos humanos, saúde pública e cidadania.

Uma mulher que menstrua regulamente passa em torno de 50 anos da vida às voltas com absorventes, cólicas, cuidados. Ufa! Se menstruar faz parte da vida das mulheres, elas merecem o conforto e a saúde preservados.

É também uma questão de educação para o respeito, para a dignidade: uma educação de gênero.

Afinal, se para os homens são distribuídos preservativos (que deveriam estar disponíveis também para mulheres), é justo que as mulheres possam ter acesso a absorventes!

Marlene de Fáveri, 30 de maio de 2021. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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