Parada do Orgulho LBGTQIA+ de Florianópolis, 2018/ Foto: Sandra Alves.

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (9) – “A maioria dos estupros é coletivo, pois homem sente mais poder em grupo”

Postado em 06/06/2021, 12:00

Domingo, seis de junho de dois mil e vinte e um. O mês de junho se anuncia dando conta de que quase metade do ano já é passado, todavia parece que o tempo não passa. Atolados num mar pandêmico e com ânsia de vômito com os absurdos que saem da boca do inominável, seguimos. Dia 29 último arriscamos nossas vidas e fomos protestar. Eu não conseguiria ficar em casa. Com proteção e protocolos, fiz todo o trajeto da passeata com Maria Lucena e Angelita, levando uma faixa que dizia: MULHERES NA LUTA PELA VIDA – Secretaria Nacional das Mulheres do PT. Sim, expeli os meus demônios, como também o fiz da janela de meu apartamento no dia dois, batendo panela com fúria em protesto ao vendilhão da pátria e genocida que, com escárnio e deboche, ri-se dos 470 mil mortos. Repugnante. Ignóbil.

Tão repugnante quanto esta tragédia nacionalicida foi a notícia que abriu o mês: “Jovem sofre estupro coletivo e é tatuado à força em Florianópolis”. Este crime bárbaro foi praticado por três homens que, além do estupro coletivo, torturaram, espancaram, cortaram e violaram o corpo do jovem com objetos e tatuagens de teor homofóbico e o abandonaram na rua. Miseráveis malditos.

Este fato horrendo acontece justo na entrada do mês que, no mundo, é de luta e orgulho LGBTQIAP+. Este mês marca a rebelião de Stonewall ocorrida no dia 28 de junho de 1969, em Nova York, quando um grupo de gays enfrentou a violência policial sofrida pelos homossexuais. Por vários dias confinados no bar Stonewall, o grupo teve apoio da multidão de gays e lésbicas que, do lado de fora, assegurou a resistência. Esse episódio marca o dia da libertação gay e, desde então, movimentos de pessoas LGBTQIAP+ celebram e reivindicam cidadania, respeito, dignidade, o direito à existência na sua diferença e  gritos de humanidade.

Conforme dados do Ministério da Saúde, a ocorrência de estupros coletivos no ano de 2019 no Brasil somam 5.372 casos: 14 por dia, ou cerca de um a cada cem minutos. Lembro que estes dados são de vítimas que buscaram o hospital para atendimento – quantos outros carregaram as dores em silêncio, com medo, sob ameaças? Não tive como saber quantos homotransexuais foram vítimas, mas, como neste triste caso de Florianópolis, essas agressões são recorrentes. Estupros alegadamente corretivos, com o intuito de “corrigir” a homossexualidade, acontecem de forma sórdida, e também são pouco denunciados.

O estupro ocorrido nessa semana é mais um crime de homofobia que vem ocorrendo, infelizmente. Por estes dias foi detido o serial killer confesso pelo assassinato de três homens homossexuais em Santa Catarina e Paraná… Já nos acostumamos com notícias destas violências contra homossexuais e transexuais, o que é torturante.

No ano de 2020, 237 LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) tiveram morte violenta no Brasil, vítimas da homotransfobia, conforme Relatório do Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+. Destes, 224 foram homicídios (94,5%) e 13 suicídios (5,5%).

“Tem que mudar o sistema, porque a maioria dos estupros é coletivo, porque o homem sente que tem mais poder em grupo”, analisa a Delegada Cristiana Bento, do Rio de Janeiro. Em 2018, uma Lei aprova o aumento da pena por prática de estupro, estupro coletivo e corretivo, bem como os que tipifica como crimes de importunação sexual e de divulgação de cena de estupro. Se terá resultados, vamos ver.

O que leva homens a praticarem estupros coletivos? Validação da masculinidade e disputa de virilidade diante de seus pares? Nos códigos da masculinidade, se um homem faz sexo com outro homem é chamado de veado; mas se um grupo de homens pratica um estupro coletivo, é prova de força, coragem, virilidade, poder.

Nas relações de gênero, as disputas se dão como se fossem naturais e aceitas na “casa dos homens”. Tanto faz se as vítimas forem meninas ou meninos, homens ou mulheres. Misoginia, homotransfobia, machismo e violências sexuais estão na nossa estrutura de relações sociais pautadas no poder, domínio, posse, disputas e violências. De quais referências, exemplos, educação e abandonos foram vítimas estes estupradores? Quais mensagens grudaram nos seus cérebros e os moveu a estuprar, bater, acossar, espancar, humilhar e tatuar “viado” na pele do outro só porque ele é gay? Como explicar que quem mais mata homo e transexuais no mundo é o Brasil?

Este caso horrendo lembra outro, em 2010 e também em Florianópolis, quando três garotos filhos da fina flor da cidade estupraram uma garota da escola – poder, disputa, machismo, educação tóxica. O que diferencia o crime de estupro de 2010 e o de 2021? São diferentes, mas dizem que homens de qualquer idade se sentem poderosos em grupo, disputando e afirmando masculinidade. Uma violência que cresce incentivada por atitudes de homens no poder – infelizmente algumas mulheres – declaradamente homofóbicos e, pasmem, com o aval de algumas igrejas.

Tive muitos alunos e alunas homossexuais durante trinta anos de docência. Todos eles carregavam uma história dolorida. Alguns escondiam-se como podiam. Outros, se arriscavam e assumiam. Lembro das histórias, das dores, dos medos. Igor era um aluno brilhante. Dedicava-se com paixão à pesquisa. Chegou calado, não olhava nos olhos de ninguém. Sofria bullying e se recolhia. Quando me contou do professor que o desqualificava por sua sexualidade, virei onça. Tentamos denunciar, mas ele foi ameaçado. Eu orientei seu TCC. Entreguei-lhe o diploma e abracei com orgulho o aluno que já estava aprovado numa pós-graduação. Sofro ainda a dor de quando me contaram que ele havia se suicidado. Sim, eu sabia de suas angústias. Ele não aguentou a pressão, e foi com as estrelas.

Do outro, Rob, senti sua ausência nas aulas. Quando voltou, notei manchas na pele e o andar trêmulo. Então me contou da agressão sofrida na rua por dois homens que o chamavam de “marica” e bateram nele até a exaustão. Sobreviveu, mas nunca mais foi alegre. Do Marc, que sentava na primeira fila e nunca saía no intervalo. Tinha medo de ir ao banheiro e ser currado. Já o tinham ameaçado, só porque ele não gostava de brigar e era meigo. E do Saul que apanhava e batia, batia e apanhava. Mais apanhava do que batia, porque os garotos maiores se juntavam e o queriam violentar.

Assisti por estes dias à série Pose (Netflix), que retrata a realidade da comunidade LGBT de Nova York na década de 1980. Entre dança, moda e bailes estão os dramas de pessoas transgênero e transexuais que vivem à margem, num tempo em que a AIDS ceifava vidas. Alguns sobreviveram e resistiram para contar como foi que tudo aconteceu…

Mas, porque mesmo a sexualidade do outro incomoda? Vamos ao início: foram as religiões e seus dogmas que amaldiçoaram pessoas não hetero, as demonizaram e excluíram. O controle dos corpos e das almas era, e é, o pilar do poder das instituições religiosas.

Hoje, esse controle ameaça democracias, condena os diferentes nas crenças e fé, quer impor currículos escolares emburrecedores e acríticos, relações exclusivamente heterossexuais, famílias patriarcais, mulheres subjugadas e os homotransexuais banidos. Da mesma forma, querem excluir temas que pregam o respeito e emancipam, como estudos gênero, sexualidades e diversidades. O poder quando usado para maldades corrompe, conspira, ladroa sonhos.

Só com uma educação que contemple os debates sobre as diversidades, sobre as prescrições sociais e sexuais, sobre o direito à cidadania, à justiça e com equidade nas esferas do público e privado é emancipatória. Todos os humanos têm direitos a não serem discriminados por sua cor da pele, sotaque, corpo, crenças, etnia, raça, sexo, pinturas na pele, classe, gênero ou escolhas sexuais. Só assim poderemos apostar num mundo de pessoas generosas. Será que ainda há tempo?

“O amor que não ousa dizer o nome”.
Oscar Wilde

 

Marlene de Fáveri, 06 de junho de 2021. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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