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Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (5) – “A maternidade pode ser uma dádiva, mas não nos define”

Postado em 09/05/2021, 13:17

Domingo, nove de maio de dois mil e vinte e um. Em Turvo, pelas seis horas da manhã de ontem, fui despertada por um escarcéu de galos cantando, pintos piando, Guevara e Tchê miando. Era como se disputassem quem gritava mais alto. “Marlene, vai ver o que aconteceu lá fora, pode ser um gambá!”, disse minha mãe. Zureta de sono, calcei os chinelos de rua e fui averiguar, com vontade de socar os bichos, mas só um pouquinho! Percebi que na noite anterior havia esquecido de fechar as penosas e os piupiuzinhos nos respectivos galinheiros. Em função disso, eles acordaram mais cedo e gritavam de fome. É impressionante como estão sempre esfomeados!!! Dei milho, couve, água, e se acalmaram. Ufa, nem contei para a mãe o que aconteceu… todas as noites ela pergunta se eu já fechei os galinheiros, mas ontem eu esqueci.

“Eu sempre gostei de dar um presentinho para minhas filhas e noras que são mães, mas este ano nem posso sair para comprar”, lamentou minha mãe. Abracei-a e disse que todos os dias são dias das mulheres e das mães, que não se preocupasse pois o mais importante é a saúde de todas nós, que presente é invenção do capitalismo e que o amor que temos umas às outras vale mais que tudo. Ela entendeu, e sorriu com os olhos de mãe que sossega e acalma.

Disse a ela que muitos povos celebram o dias das mães, mas não no mesmo dia do ano, e que o fazem está de acordo com sua cultura e costumes. Os gregos, por exemplo, cultuavam a deusa Rhea, mãe de todos os deuses, os ameríndios cultuam a mãe terra, a Pacha Mama. Mas esta celebração como nós conhecemos foi invenção de uma norte-americana, Anna Jarvis, com intuito de reverenciar a memória de sua mãe que havia se dedicado a organizar mulheres para trabalhos sociais e melhorias para a saúde, bem como para o cuidado dos soldados feridos durante a Guerra Civil Americana (1861-1865).

Anna tanto insistiu junto aos congressistas que, em 1910, a data foi incorporada ao calendário oficial do Estado da Virgínia. No ano de 1914, o segundo domingo de maio foi estabelecido como o Dia Nacional das Mães nos Estados Unidos. Paulatinamente, outros países adotaram a comemoração. Consta que Anna Jarvis sofreu zombarias porque, caso aprovassem um dia para as mães, em breve seria o dia da sogra…

Todavia, tão logo oficializado, maio tornou-se um mês de campanhas lucrativas para o comércio com a procura de flores, cartões e presentes para as mães, e Anna rebelou-se contra os aproveitadores. Para Katharine Lane Antolini, pesquisadora dos estudos de gênero numa universidade da Virgínia, Anna Jarvis “queria que esse dia fosse um ‘dia santo’ que nos lembrasse da mãe que colocou as necessidades de seus filhos antes das suas. Ela nunca quis que se tornasse um dia para dar presentes caros e onerosos, como outros feriados se tornaram no início do século 20“. Seus protestos foram ignorados e, ironicamente, a igreja frequentada por Jarvis e sua mãe é o Santuário Internacional do Dia das Mães.

Minha mãe ficou pensativa: “Que coisa! Eu achava que era criação da igreja!” Só que não. No Brasil, o dia das mães foi decretado por Getúlio Vargas no dia 05 de maio de 1932 em “comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana” e a ser celebrado no segundo domingo de maio. Outro decreto, de 12 de maio do mesmo ano, contemplava benefícios trabalhistas instituindo o dissídio coletivo – em tese, reajuste salarial no dia 1º de maio – e o fomento para as despesas em presentes para as mães, o que sugere influência do comércio.

Se as mães eram consideradas como úteros reprodutores da Nação no ideário de Vargas, durante o regime militar no Brasil (1964-1985), quando se copiava tudo dos Estados Unidos, houve maior ênfase no papel das famílias e, em particular, das mães. “A maternidade bem vivida, a mulher dedicada aos filhos era um perfil exaltado em concursos, valorizado e que ganhava capas de revista”, na análise da historiadora Mary Del Priore.

Minha mãe foi educada – assim como eu fui na infância – ouvindo discursos que enalteciam Maria, a virgem mãe escolhida para nos redimir dos pecados, mensageira de nossas súplicas com seu amor terno, piedoso e solícito. Embora Maria seja única, é retratada em centenas de nossas senhoras, sempre veneradas por sua maternidade, e não por serem mulheres. Caprichosa, a memória de minha mãe cata um instante do passado: “Eu aprendi com os padres capuchinhos que Deus é adorado porque ele é homem e só ele está vivo no santíssimo sacramento, mas Maria não. Maria só é venerada porque é a mãe de Deus, mas não está viva na hóstia”. Mas que barbaridade, pensei. Padres machistas e oportunistas.

Maria, mãe de Jesus, é a imagem feminina mais venerada do mundo católico. Ela representa o amor de mãe, a doação, subserviência, recato, pureza, castidade, modelo ideal para as mulheres na sua função maternal. Com que representações as mulheres aparecem nas encíclicas papais e outros documentos normativos da Igreja Católica? Quando são citadas, são sempre como seres passíveis de cair em tentação e pecar – a oração mariana mais conhecida pede clemência – “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadoras…”

Lembrei da pesquisa de Ana Cláudia Ribas, “A BOA IMPRENSA” E A “SAGRADA FAMÍLIA”: Sexualidade, casamento e moral nos discursos da imprensa católica em Florianópolis – 1929/1959. Ana debruçou-se sobre o jornal O Apóstolo e percebeu as representações normativas referentes à família e às identidades de gênero de interesse do Vaticano como modelos de conduta e comportamentos. O que aparece são preocupações com os valores morais e de civilidade, com o que as mulheres liam ou assistiam no cinema, com a preservação do corpo, com o pavor das ideias feministas e do comunismo, e com a construção de modelos de santidade feminina e de preservação da virgindade. Nenhuma referência ao dia das mães tal qual instituído por Vargas, ou que fugisse ao modelo único, etéreo e pautado na castidade de Maria, a mãe ideal.

O casamento era, para estes princípios religiosos, o mal menor porque dele viriam os filhos, tantos quantos Deus mandasse. Casar significava perder a virgindade – cometer o pecado da carne – única virtude verdadeira para uma mulher verdadeiramente católica. Então, o dia das mães não servia para o modelo católico, mas a celebração de dias dedicados à Virgem Maria através de milhares de imagens de madonas veneradas por terem sido escolhidas para gerar Jesus, sim, estas serviam. Considerando que para os cânones do catolicismo as mulheres devem manter-se castas e, quando casadas, ser passivas, submissas, parideiras, honradas, honestas, dessexualizadas, pudicas e tementes a Deus, qual o lugar delas enquanto mães?

Mães são, ates de tudo, mulheres, são elas que parem. Há homens que assumem a maternidade, assim como mulheres assumem a paternidade, avós e avôs criam netos na diversidade das famílias, mas o útero é propriedade das mulheres (e pessoas com útero). Para falar das mães há que se ter consciência da historicidade do controle sobre seus úteros e corpos, como a culpabilização das mulheres por um aborto motivado por estupro.

Nesta semana, assistíamos a uma reportagem sobre a morte de mulheres grávidas por terem contraído a Covid-19, e minha mãe ficou inconformada: “Por que morrem essas mulheres? Que piedade, que triste!”. Muito triste mesmo, mãezinha. No ano de 2020, a cada 10 casos de morte materna por Covid-19 no mundo, oito são mulheres brasileiras. No Brasil “morreram mais gestantes e puérperas do que no resto do mundo inteiro junto”, situação gravíssima que configura um massacre. Ressalto que mais de 70% dessas mortes maternas no Brasil são de mulheres negras. Racismo e genocídio atingindo as mulheres mães.

Parlamentares feministas propuseram projetos de lei que determinam o afastamento das empregadas gestantes do trabalho presencial durante a pandemia, e a inclusão de grávidas e puérperas no grupo prioritário de vacinação. A pressão destas parlamentares levou à aprovação, pelo Ministério da Saúde, de nota técnica incluindo as pessoas gestantes e puérperas, independente da condição de saúde pré-existente, no Plano Nacional de Imunização para Covid-19. A Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras fez uma chamada à ação para redução da mortalidade materna por Covid-19 no Brasil e para implementação urgente de medidas que minimizem as mortes. Há mulheres que agem e exercitam o feminismo de cada dia, resistem e promovem ações combativas.

Como tem reagido a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, aquela religiosa e ultraconservadora, a este massacre de mulheres grávidas e puérperas pela Covid-19? Nenhuma política pública, nada que minimize tantas perdas. Irônico é que sua pasta tem diabolizado os estudos de gênero e sexualidade numa militância ideológica contra o feminismo e os direitos das mulheres.  O que esperar de um país que, enquanto ruma para meio milhão de óbitos, as pessoas continuam destilando ódio e matando em nome de um deus?

Quantas mães estão cortadas de dor com a perda de seus filhos para o vírus? Quantos órfãos cujas mães foram ceifadas pelo mesmo motivo? De quais mães e famílias fala a ministra quando se refere à maternidade? São muitos os paradoxos grudados nos dogmas religiosos ainda ardendo no útero das mulheres.

Mulheres que vão a óbito, filhos fadados à orfandade, fome que ceifa mulheres mães e seus filhos – são 116,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar ou passando fome no Brasil neste momento… Quantas mães não têm comida para dar aos filhos hoje? E a fome de amanhã como certeza doendo na boca do estômago?? Em mais da metade dos lares brasileiros, o dia é de miséria e desesperança.

Se não forem respeitados os direitos das mulheres e providos na sua dignidade, como esperar que sejam mães na sua plenitude? Mães estão em home office, esgotadas, ou estão no trabalho informal nas ruas, expondo-se aos riscos de contágio de si e seus filhos. Ou estão sem trabalho e sem comida, moradia, saúde. Estas mães estão infelizes, cansadas e doentes.

Não, este não é um texto contra as mulheres que decidem ser mães. É um grito contra dogmas e contra o projeto genocida deste governo que atinge as mulheres no ventre, no útero, e lhes tira a vida. Quero que todas as mulheres (e pessoas com útero) que decidirem ser mães (e pais) possam ter direitos e dignidade.

Sem os direitos das mulheres (e pessoas com útero) resguardados as mães não terão dignidade.

“Seja uma pessoa completa. A maternidade é uma dádiva maravilhosa, mas não seja definida apenas pela maternidade. Seja uma pessoa completa”, diz Chimamanda Ngozi Adichie.

Marlene de Fáveri, 09 de maio de 2021. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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