Capa do livro “Prostituição em áreas urbanas: histórias do Tempo Presente”, coorganizado por Marlene de Fáveri. Foto: Arquivo Pessoal.

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (2) – “Sexo de costas é melhor do que nada”

Postado em 18/04/2021, 12:35

Domingo, dezoito de abril de dois mil e vinte e um. Passei a semana em minha casa, Florianópolis, cheirando meus guardados que têm gosto de memórias. Organizei uma bancada na sala, de onde escrevo, porque no quarto/escritório não tem mais espaço. Uma pilha de livros repousa num canto apoiada num banquinho de madeira que comprei na rua, em Santo Antônio de Lisboa, isso antes dessa peste nos amotinar temerosos de contrair o vírus medonho. São livros que separei para ler, mas não dou conta, mamma mia!

Semana temerosa. Refém do isolamento, em que pese o receio de contrair a peste, e não é para menos num país que sucumbe: são 370 mil óbitos. Estamos passando vergonha  no crédito, no débito, à prestação e à vista aos olhos e galhofas do mundo com este psicopata no poder. A cegueira construída pelas mídias e fakes imola viventes nas suas crenças negacionistaa e religiosas. Os mandantes riem dos que tombam, canalhas! Brincam de armar gente, roubar seus sonhos, os covardes! Rosnem, por ora, pústulas do inferno – não sois eternos.

Me acostumei com novas rotinas como jamais esquecer a máscara e embebedar as mãos a cada lugar que passo, pagar com um cartão alcoolizado e borrifar tudo o que trago da rua, tudo mesmo. Até a correspondência que chega eu deixo descansar uns dias antes de abrir. Novos hábitos se somam aos já batidos. Mas eu quero nossos encontros de volta, comer junto, sexuar livremente, dançar a dois, andar na rua com amigas e entrar em botecos, lojas, cinemas sem receios. Queremos vacina!

Dentre o feixe de coisas que tive na agenda desta semana, participei do programa Pauta Nossa, na Rede Mundial News TV, a convite da jornalista Renata Barcellos. Ali divulguei meu livro recém lançado Crônicas da Incontingência da Clausura – cotidianos na pandemia . Estou bem animada com os retornos de leitoras e leitores através de comentários nas redes sociais e aqui, no Portal Catarinas. Vibro ao saber que leem e ressignificam meus escritos!  Depois de lançado, um livro, ou as ideias que nele gravitam, deixa de ser da autora e transfere poder de interpretação e crítica a quem os lê. Esta é a viagem da escritura: ser comentada, dialogada, criticada, suspirada. Comentem! Eu gosto!!

Voltando a entrevista, Renata perguntou-me sobre uma pesquisa que fiz faz algum tempo, publicada como ‘As piriguetes de Floripa’ – práticas contemporâneas de propagandas e sexo pago, no livro Prostituição em áreas urbanas: histórias do Tempo Presente, Editora da UDESC. Nesse artigo, relatei práticas das profissionais do sexo e as relações com os clientes em meados da década de 2010, quando começou um deslocamento da prostituição de rua para outros espaços e para o período diurno, motivado pela violência nas áreas urbanas à noite.

Um olhar para as profissionais do sexo na pandemia

Como as profissionais do sexo estão lidando com a pandemia? Como elas sobrevivem? Os clientes as frequentam? Sendo uma profissão que se dá no contato direto entre corpos, quais as estratégias para os cuidados com a higiene sanitária? Boas perguntas.

Retomei o contato com uma mulher que havia entrevistado naquela ocasião. July me atendeu e pude fazer perguntas.

“Ah, no começo da pandemia foi uma dificuldade, passei fome mesmo. Procurei emprego, mas onde? Uns meses depois eles – os clientes – voltaram, mas não tão frequentes. Como preciso me sustentar, aceito, com muito medo. Como eu faço? Fico de máscara e uso muito álcool nas mãos e no corpo, não tem beijo, nem encostos no rosto. Agora tenho uns clientes fixos, mas nem se compara a antes. Como eu me virei? Com as colegas nos juntamos e fomos indo, nos ajudando umas às outras”, disse-me.

Sim, quando as mulheres se juntam, elas dão conta, ensina o Feminismo.

Este depoimento diz muito das condições de penúria das profissionais do sexo com a pandemia.

“A maioria dos clientes que voltaram são casados, como já era antes. Mas eles têm menos medo que eu, eles se arriscam mais, eu é que me cuido, não aceito palhaçada, tenho medo da doença”, completou July.

Por que clientes que voltaram a procurar as profissionais do sexo se arriscam mais? Explica-se na construção cultural machista de que os homens se sentem menos vulneráveis e mais destemidos diante dos perigos em geral. Os riscos são para ambos, cliente e trabalhadora.

As profissionais do sexo sequer têm a profissão regulamentada e raramente são visíveis às políticas sociais. Em 2012, o ex deputado federal Jean Wyllys (PSOL) propôs o Projeto de Lei Gabriela Leite que regulamentaria a prostituição (livre de extorsão e exploração) e garantiria a proteção das leis trabalhistas, o acesso a programas de saúde e educação, o direito a organização profissional, a aposentadoria. Com resistências por motivos religiosos, políticos e mesmo de feministas abolicionistas, o projeto não seguiu adiante.

July fala de Florianópolis e não é diferente em outros lugares. Atingidas sobremaneira com a pandemia e o fechamento de casas onde elas atendiam por ordem sanitária, muitas voltaram às ruas, expondo-se ao alto risco de contaminação. Com a oferta maior que a procura, o valor do programa caiu e a exploração aumentou. Uma parte delas obteve o auxílio emergencial, mas não deu conta de suprir os custos da sobrevivência.

“Ou tu aceitas isso ou passa necessidades e até fome”, acrescentou July.

No mês de março, com a onda roxa da pandemia, no centro de Belo Horizonte hotéis foram fechados e mais de três mil mulheres cis e trans profissionais do sexo ficaram sem trabalho. Organizadas através da Associação das Prostitutas de Minas, decretaram greve por tempo indeterminado. Reivindicam garantia de imunização e a inclusão no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização, do Ministério da Saúde, alegando impossibilidade de distanciamento social no desempenho de suas atividades.  Cida Vieira, presidente da APROSMIG, reitera que a vacina é fundamental para a segurança no trabalho. “Muitas de nós estão sem ajuda e nenhum benefício. A sociedade hipócrita precisa dos nossos serviços, mas nos repele. Muito preconceito e estigma. O que aumentou com a pandemia”, disse ela. 

Já a presidente do Coletivo Coisa de Puta +, Maria Elias, que atua pelos direitos das trabalhadoras sexuais desde Belém, Pará, conta que, além do kit camisinha e gel lubrificante, acrescentaram a máscara, o álcool gel, levam mudas de roupas para trocar a cada programa e recomendam que não tenham contato com as vias aéreas. Também estabeleceram regras e protocolos para a relação sexual: “Os clientes não podem beijá-las e elas precisam ficar de costas durante o ato. Quem se recusa a seguir o protocolo é posto para fora do quarto. (…) Sexo de costas é melhor do que nada”. Esse protocolo fez com que passassem a serem chamadas de “as garotas que trabalham de costas”, motivo de risos e de estigmas.

Conta Maria Elias que a maior dificuldade é convencer os clientes a seguirem o protocolo. “Antes, era difícil negociar o uso de preservativo, agora essa dificuldade dobrou ao tentar fazer o cliente usar máscara e não nos beijar. Já aconteceu de não aceitarem e tivemos que chamar um segurança do local onde estávamos trabalhando ou sair do quarto e desistir do programa. E fazendo isso ficamos só com a metade do pouco dinheiro que ganhamos hoje. Isso é rotineiro, infelizmente.”

Recupero a fala de July que os clientes “se arriscam mais” e, a dificuldade de “fazer o cliente usar máscara e não beijar”, evidencia o descuido de clientes para com a segurança sanitária, a dele e a da mulher profissional do sexo.

Clientes são homens, muitos tem parceiras fixas, família. A recusa aos protocolos sanitários tem relação com a construção das masculinidades agregadas ao machismo e poder sobre as mulheres. Nas estruturas, o patriarcado se revela nas franjas desse cotidiano.

Urgem políticas públicas que preservem a dignidade dessa categoria de profissionais que, atravessada pela classe, raça, gênero e geração, tem sido invisibilizada. Trabalhadoras informais são estigmatizadas. Essas mulheres sustentam famílias, sofrem com o sexismo, as violências físicas e simbólicas, a exploração do trabalho, o racismo e a fome. Com a pandemia, desnudou-se a precariedade de suas vidas e a feminização da pobreza.

Os clientes? Continuam procurando os serviços sexuais. Querem este serviço disponível, anônimo e barato. Portanto, é hipócrita qualquer condenação e preconceitos para com essas mulheres.

“Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”.
Virginia Woolf

Marlene de Fáveri, 18 de abril de 2021. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri