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Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (41) – ou do presépio e o mito da virgindade

Postado em 20/12/2020, 14:27

Domingo, vinte de dezembro de dois mil e vinte. Como é bom voltar para a casa da mãe! Abraçá-la é o melhor presente. Minha mãe ainda está com dificuldade de andar depois de um tombo e se apoia em muletas. Levei as tomografias ao ortopedista e tem algo pressionando uma hérnia de disco. Com tratamento e fisioterapia, ela vai melhorar!

Tchê andou sumida por uns dias e minha mãe disse que, ou teve parto complicado e perdeu os felininhos, ou “os gatos machos comeram os gatinhos como fazem quando querem que a gata entre logo no cio”. Deixa assim, é da natureza. Lamentei.

Um dia depois desse lamento fiquei uma onça com a Tchê: Laura e eu a surpreendemos mordendo um passarinho. Tentamos fazer com que o largasse, mas ela fugiu para a mata com ele na boca. Quando a localizamos, estava abocanhando a passarinha: era uma fêmea e dela brotaram ovos pela boca da gata… Ficamos boquiabertas com a destreza e ligeireza com que a Tchê engoliu a ave grávida com penas, ossos, ovos e tudo. Depois lambeu os beiços como se nada tivesse acontecido. “Tia, acho que vou sonhar com esta cena!”, disse a pequena Laura. Eu também, Laura.

As hortaliças que plantei nesses meses de pandemia estão maduras para a colheita e temos verduras frescas e sem agrotóxicos! Os pássaros chilreiam em revoada por aí nas copas das árvores e, à medida que cai a noite, parece que os batráquios endoidam. Tudo está esverdeado em tons variados e as flores em êxtase. Violetas e outras flores espraiam-se no auge das cores, um paraíso… não fosse a pandemia, ufa.

Passei meu aniversário com minha mãe e minha sobrinha Laura. Amigas e amigos me cumprimentaram pela telinha, e minha filha, desde a Itália, me encheu de alegrias: te amo, Tashi! Das companheiras do Instituto de Estudos de Gênero recebi uma assinatura do Clube de Assinaturas de Livros – TAG e pensem na minha alegria: livros! Obrigada, Joana Pedro e colegas, amo vocês! Os abraços da mãe renovaram-me as energias e  Rita, a cuidadora, fez um bolo que reafirma minhas lutas! Foi emocionante! Passei o dia com minha mãe aprendendo coisas de como é ir envelhecendo. Toda idade é linda porque vivemos até ela! Obrigada, gente!

Laura e meu bolo de aniversário/Foto: arquivo pessoal

Minha mãe tem o costume de fazer um presépio quando entra o mês de dezembro. Neste ano ela lamentou que não daria conta devido à pouca mobilidade. Nívea, minha cunhada, Laura e eu abrimos a caixa de papelão guardada desde janeiro com os enfeites e os personagens do presépio. A mãe contribuiu como pôde e até ficou de pé um tempão, colocando os enfeites na árvore com Laura: lindeza de ver a avó ensinando a neta a fazer um presépio!

“Mas falta o laguinho!”, disse a mãe, quando estava quase pronto. “Marlene, vai na gaveta da cozinha que lá tem pedaços de espelho”. Colocamos um lago próximo da manjedoura e os patinhos em cima. Um lago de espelho! “Será que tinha lago ou rio por perto?”, perguntou Nívea. “Será que tinha patinhos?”, pergunta Laura. “Não sabemos, mas se não tinha, o nosso tem!”, disse eu. Rimos! A casa da mãe cheira a Natal depois desta arte num canto da sala!

Presépio. Casa de Therezinha de Fáveri. Turvo/Foto: arquivo pessoal

Minha nona tinha os personagens representativos daquela noite em Belém: Maria, José, o menino, o bercinho de palhas, duas ovelhas, dois bois e três pastores. Eram imagens pequenas e delicadas, e as ovelhas eram de uma imitação de lã branquinha. Eu amava o ritual que prenunciava o Natal. Quando mudamos para Turvo minha nona levou o presépio para minha mãe: “É prá ti, Therezinha, sei que vais usar e guardar bem”.

Aconteceu que um incêndio consumiu a velha casa de madeira de minha mãe e todos os nossos objetos de memória viraram cinzas. Dentre estes, as minúsculas esculturas do presépio. Isto faz uns 25 anos. Depois daquele triste episódio, minha mãe só enfeitava a árvore. Todas as vezes, ao dedicar-se a este afazer, suspirava e lamentava a perda pelo fogo do que chama de “relíquia de minha mãe”. Numa ocasião fui ao Peru e encantei-me com um presépio cujos personagens tinham feições, cor da pele e vestuário dos nativos Incas, e trouxe para minha mãe.

“Que lindo!”, disse ao receber o presente. Naquele ano ela construiu casinhas recortando caixas de sapatos, buscou na mata uma árvore com forma de um cone, barba de velho para cobrir o estábulo e ajeitar detalhes. Nas mãos de minha mãe a montanha de coisas se transformava num pinheiro enfeitado, uma cidadela próxima da manjedoura, um lago, um estábulo e os personagens nas suas posições conforme o mito na natividade. Num desses natais, arranjou uma extensão com lâmpadas minúsculas que piscavam, e os seus olhos brilharam como o pisca-pisca!

Era das mulheres a tarefa de organizar o presépio e reproduzir a tradição da representação do nascimento do menino Jesus. Minha mãe recriava a cada ano, no mês de dezembro, um espetáculo artístico, quase todo com materiais reciclados e catados no mato (sempre tivemos um matagal perto de casa, que privilégio!): a árvore escolhida com critérios específicos, barbas de velho (um tipo de bromélia que se cria dependurada nas árvores e em geral nas mais velhas), folhas secas, areia, terra. Com tesoura, barbantes, cola, papéis coloridos e os personagens, construía um cenário deslumbrante, apesar de simples que, com os anos, foi acrescentando pequenos animais de artesanato que eu trazia das viagens. Sempre trouxe animaizinhos para a mãe e ela os coleciona numa prateleira da sala, além dos que vão aparecendo não sei de onde, tanto que o presépio dela hoje é transnacional e transcultural! Acompanhando os tempos!! E minha mãe acredita que tinha um lago bem próximo da manjedoura!

Foto: arquivo pessoal

Do que falo? A começar do início: na representação da narrativa bíblica de Mateus (capítulo 1:18 a 25), Maria estava prometida em casamento a José. Mas engravidara – que descuido! – do Espírito Santo. José não ficara confortável com isso, mas um anjo lhe afirmara que Maria era a escolhida pelo senhor para ser a mãe do Salvador. Ele acreditou e a desposou. Mas, como um homem justo e “não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente”. Então das nuvens saiu um anjo e o convenceu a continuar casado “pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo”. E foi assim contada essa história pelo escriba Mateus alguns séculos depois dessa treta de casamento arranjado – afinal, é possível engravidar do Espírito Santo? Por favor, não quero tirar a inocência de quem crê; eu respeito. “Mas José não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho”, disse Mateus. Mas depois estava liberado, ufa!

Todavia, como se conta, o rei de Roma, Herodes, um déspota à época, decretou um recenseamento dos habitantes do Império. José e Maria iam para a Galileia com esta finalidade e, como não havia mais hospedagens, receberam abrigo num estábulo para passarem a noite. Foi então que Maria deu à luz.

Um contratempo nos planos expansionistas de Herodes: corria boca a boca a notícia do nascimento de um menino que seria o Rei dos Judeus. O déspota, receoso de perder o trono, mandou matar todos os recém-nascidos do Império, mas o menino foi salvo porque o casal fugiu para o Egito.

Verdade mesmo sobre essa história a gente não pode afirmar. Mas sabe-se que o mito da virgindade condena as mulheres a manterem a pureza e o hímen intacto até entregá-lo a um único varão. Quantas dores e sofrimentos elas vêm suportando sob o domínio masculino sobre seus corpos, domínio esse ditado por leis religiosas? Os narradores desses mitos, todos homens, escolheram o hímen como balança para a porta do céu ou do inferno.

Ah, mulheres piedosas que se submeteram a um homem, entre múltiplas maternidades e quase nada de prazeres, porque ‘perderam’ a pureza, sendo apontadas como culpadas desonradas. Maria seria culpada caso José não a desposasse? O anjo estaria preocupado com a desonra pública daquela mulher caso não tivesse um marido ao lado? Ah, os mitos. Assim se construiu também um modelo de família como se fosse a única possível: heterossexual, baseada na honra feminina, no patriarcado, no sexo contido e nos prazeres negados a elas. O que passaram as mulheres…

Será que o narrador Mateus, ao insistir na imagem de que mães solteiras seriam desonradas buscava justificar um adultério através de ação divina? Imaginaria ele que, quase dois mil anos depois, essa narrativa ainda seria um best seller dos catecismos? Teria ele ideia do aparato ideológico que justificou desde então o domínio sobre as mulheres na cobrança da virgindade?

A palavra ‘presépio’ em latim significa curral, estrebaria ou um cercado para animais. Sua apropriação na construção da narrativa para o nascimento de Jesus data do século XIII. Era o ano de 1223 quando São Francisco de Assis, numa noite de Natal, decidiu montar um cenário teatral com a imagem do menino Jesus em um presépio de palha, rodeado por um boi e um jumento vivos, para tornar aquele momento real. Isso aconteceu em Greccio, perto de Roma, Itália, e faz 797 anos. A repercussão foi imediata: tanto famílias da nobreza europeia quanto pessoas humildes passaram a reverenciar o nascimento de Jesus com a feitura de um presépio em suas casas. E a árvore? De símbolo pagão que significa fertilidade, foi sendo apropriada nas festas natalinas, mas somente em meados do século XX foram autorizadas árvores de Natal nas igrejas católicas. No Vaticano, só em 1982 foi permitida a montagem da árvore de Natal na Praça de São Pedro, em Roma.

A invenção destas tradições – árvore de Natal, presépio, culto às imagens, presentes – foram produzidas em momentos da história com distintos interesses religiosos e econômicos. Crendo ou não, ainda encantam crianças e adultos. Os presentes de Natal, por exemplo, foram uma invenção do capitalismo.

Foto: arquivo pessoal

Quando eu era criança, embora não fosse costume receber presentes no Natal, de uma feita, eu devia ter uns seis anos, ganhei uma boneca de plástico barato, dessas cujos braços, pernas e cabeça caiam o tempo todo. Os olhos eram pintados de guache, acho, porque na primeira unhada caia toda a tinta.  Meus irmãos ganharam carrinhos de plástico. O gênero se constrói assim, desde pequenos, sendo educados para determinadas prescrições: às meninas, a de ser mãe, do lar, parideiras; a eles, o volante, a bola, a arma. Nas lojas de brinquedos ainda separam o que é de meninos e o que é para meninas, destacando-se o rosa e o azul. O que dizer das tais ‘barbies articuladas’, sonho de todas as meninas? Custa uma fortuna, mas a publicidade organiza o desejo, prescreve funções de gênero e os naturaliza. Me sinto feliz por ter feito diferente e ter podido escolher meus caminhos! Obrigada, mãe, que não me cerceou e me educou para a liberdade!

Urda Alice Klueger contou sobre esta representação mais conhecida da cristandade e as ansiedades das crianças à espera do Natal, das guloseimas e dos presentes: estão em “Crônicas de Natal e histórias da minha avó” – de ler e beijar as lembranças!

Ademais, me lembro bem que nos natais ou outras festas eram as mulheres que iam para a cozinha, serviam, tiravam a louça, lavavam e limpavam tudo o que fica depois de um almoço ou jantar de famílias extensas. Não, nunca houve feriado para elas. “A gente trabalhava dobrado”, disse-me uma tia.

Este Natal acontecerá durante uma pandemia. Não se sabe o que virá pela frente. Um governo negacionista dificulta a compra de vacinas e ignora as  185 mil mortes, mesmo com o grave crescimento das contaminações. O Brasil é o hoje o segundo país com mais óbitos registrados pelo novo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos. Durma-se com um barulho desses! Ah, quantos impropérios já disse e quantos ainda direi diante desse descaso odioso para com a vida de tantas pessoas. Evidente que vai haver aglomerações natalinas e uma crise sanitária agravada na sequência.

Sinto mesmo que, para milhares de famílias o Natal será de dor da morte de quem se ama, ou a dor de passar a noite de Belém respirando por tubos moribundamente. Quantas histórias já ouvimos? Quantas pessoas que amamos e nem pudemos nos despedir? Outras que conhecíamos, até que alguém diz: “Sabe o fulano? Pois é, morreu de covid”. E o medo que temos de “pegar o coiso” que nos rouba a tesão e os prazeres do corpo e da carne?  E do medo de “pegar e passar para outros”, os mais vulneráveis, principalmente? E a tristeza de ouvir “eu não vou tomar a vacina” como se dissesse “vamos brincar de carrinho”? Monstruosamente.  Isso é cristão? Reflita.

Na minha casa o Natal sempre foi um encontro familiar. Minha mãe se esmerava em preparar boas comidas, economizava durante o ano para ter “um presentinho prá cada um de vocês”, enfeitava casa e fazia o presépio com amor para nós, seus filhos e filhas, depois netos, netas… não é para amar? Como será este Natal? Eu farei o possível para organizar as coisas como você sempre fez, mãezinha, porque me ensinou o valor da solidariedade e do cuidado.

Desejo a vocês, leitoras e leitores, um Natal de afetos, fraternidade, respeito, generosidade, igualdade de direitos, humildade, cidadania, humanidade. Paz e serenidade.  Mesmo que sem abraços, ou distantes de amores, mas com os corações embriagados de vida!!!

Marlene de Fáveri, 20 de dezembro de 2020. Turvo. SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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