Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (1) – ou, do vírus invisível.

Postado em 24/03/2020, 17:13

Quinta-feira, doze de março de dois mil e vinte. Acordei cedo, juntei pertences para uma semana – roupas, medicamentos, um livro, computador, o caderno com manuscritos inacabados e poesias, carteira, óculos, celular e carregador, assim, como em toda viagem. No elevador, abracei a menina vizinha que estava de aniversário, e sua mãe; cumprimentei o zelador com aperto de mão. No posto, abasteci com tranquilidade, comprei água, e peguei a estrada. O plano era ficar uma semana em Turvo, e então voltar para reunião do Fazendo Gênero, outra com meu partido político (evidentemente, de esquerda), comparecer às milongas tangueias do final de semana; e namorar, porque eu mereço. Com bom transito, chegaria para o almoço com minha mãe e a senhora que a cuida. Viagem tranquila, uma parada no caminho, onde encontrei uma ex-aluno, bebemos café e compartilhamos caloroso abraço. Como sempre acontece, cheguei em casa da mãe e trocamos largos e longos apertos de braços; digo que ela está linda, e ela me diz coisas carinhosas… Almoçamos, nós três, na calmaria; embora a conversa rumou para riscos e medo da doença do vírus. Muito bom estar em casa de mami! Dia seguinte, brinquei com minha sobrinha amada, e até vimos um filme infantil e dormimos juntinhas; abraço meu irmão com o calor de sempre. Era sexta-feira.

No sábado, quatorze de março, bem como no domingo, dia quinze, almoçamos em família, colhemos limões, fizemos cafunés. Foi quando as notícias alarmantes nos preocupou com mais evidências – governos de Estados fechando fronteiras, ordenando isolamento social, em meio à vergonha da incompetência e dos absurdos ditos pelo mandatário que não me representa. Ficamos apreensivas, quase que incrédulas do que se avizinhava. Na segunda feira, dia dezesseis, a pandemia é global; nós, mortais e que temos medo da doença e da morte, vimos atônitos um muro sendo construído para impedir abraços. Na terça feira, dia dezessete, decretos passaram a gerir nossa mobilidade – mesmo assim, fui à manicure porque tinha horário marcado, e levei minha mãe para cortar os cabelos. Nesses dois lugares, o álcool em gel passou a fazer parte de nossas vidas. A cabeleireira nos recebeu com namastê à distância, e fez o trabalho com as mãos devidamente desinfetadas.

A redes sociais, as notícias e decretos davam conta que a capital do Estado estava sob controle, viagens canceladas, ajuntamento de pessoas proibido, comércio à portas fechadas; nem cinema, bailes, aulas, reuniões quaisquer que fossem… Sem nenhuma dúvida, adiei a viagem de volta para casa, e por tempo indeterminado…

Na quarta-feira, dia dezoito, os habitantes da pequena cidade do interior acordaram sem rumo… perplexos: naquele dia, e no dia seguinte, quinta-feira, dezenove, sabe-se lá com quais expressões e representações, fecharam as portas dos comércios, oficinas, salões de beleza, serviços públicos, serrarias, casas agropecuárias; e, obrigados por força de lei a se abster de festas, cultos, reuniões, bailes… Meus irmãos fecharam a oficina de conserto de elétrica de carros e, pela primeira vez nas suas vidas, passaram uma quinta-feira sem ir ao trabalho.

Minha mãe, nos seus oitenta e um anos e meio, preocupou-se sobremaneira com a possível escassez de alimentos e outros bens de consumo, como a comida das galinhas e dos gatos, material de higiene e limpeza; ela olhou tudo na despensa, na geladeira, vasculhou os armário, e fez uma lista de compras enorme; tanto repetiu que queria ir ao supermercado que tive que, pela primeira vez na vida, proibi-la veementemente de sair de casa. Eu fui, fiquei na fila da cooperativa que é supermercado, porque entravam cinco pessoas por vez, não sem antes se higienizar na porta, e uma funcionária passava álcool gel no carrinho; tive que pegar os alimentos com as mãos alcoolizadas, e pagar com cartão bêbado, e assim…

Hoje é dia 20 de março, sexta-feira. Os noticiários dão conta que o mundo está em pânico; e as projeções são de que óbitos e contaminados crescerão de forma geométrica. Eu e minha mãe, aqui no sul do Estado de Santa Catarina, numa pequena cidade de menos de treze mil habitantes (isso em todo o município), sitiadas dentre os muros e plantas e árvores, inventamos coisas para não pensar muito no que virá. Ninguém chega perto de nós, especialmente de minha mãe, octagenária.

Nos últimos oito dias de minha vida, passei de livre e feliz pessoa indo visitar a mãe no interior para a situação de sitiada, em quase clausura… sem abraços e sem fazer tranças na Laura.

Marlene de Fáveri, Turvo, SC. 20 de março de 2020.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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