Imagem: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Mariana Basílio

Postado em 08/08/2020, 10:56

A chica que escreve da semana é a querida Mariana Basílio escritora, poeta e tradutora brasileira. Já publicou diversas obras como “Nepente” (Giostri, 2015), “Sombras & Luzes” (Penalux, 2016) e “Tríptico Vital” (Patuá, 2018). Venceu o prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo pelo seu terceito livro. É licenciada em Pedagogia e possui um Mestrado em Educação, ambos pela Universidade Estadual Paulista.

Vamos à entrevista! 😊

Poderia nos contar um pouco de sua trajetória como poeta? Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Comecei a escrever na adolescência, a partir dos quinze, dezesseis anos de idade. Na época comecei a ler mais literatura, e me apaixonei pela escrita do dramaturgo português Gil Vicente. Em sua obra, “O Auto da Barca do Inferno”, percebi que a palavra e sua representação falavam de longe o que ainda me falavam de perto, isto é, o passado era o presente e também o futuro. Comecei, ao mesmo tempo, a ler mais da engenhosidade da palavra, que é o labor poético, e então eu tive vontade de dizer no fundo as minhas próprias, para me reconectar com essa atemporalidade do ser humano.

Além disso, poderia nos contar um pouco sobre suas influências literárias. Quais nomes da literatura te marcaram? Qual foi sua última leitura?
Comecei, como a maioria dos autores e das autoras, lendo as obras apresentadas como cânone no mundo, entre elas as de Dante Alighieri, John Milton, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Hermann Hesse, Walt Whitman, Edna St. Vincent Millay, Gabriela Mistral, Alejandra Pizarnik, Pablo Neruda, Nicanor Parra, Langston Hughes, Silvia OCampo, Jorge Luis Borges, Audre Lorde, Maya Angelou; no Brasil, Machado de Assis, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Solano Trindade, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima, Auta de Souza, Gilka Machado, Carolina Maria de Jesus, Adélia Prado, Olga Savary, Conceição Evaristo, etc. Posteriormente, ainda falando de nosso país, comecei a ler muito nos últimos anos, enquanto vou sendo também publicada, o(a)s poetas contemporâneo(a)s, assim como o(a)s romancistas, contistas, ensaístas, cronistas, pintores e pintoras, cantores e cantoras, continuo me fomentando com os diversos aparatos artísticos existentes.

Minha última leitura foi o livro de poesia “A Ossatura do Rinoceronte”, da mato-grossense Divanize Carbonieri.

Seu livro “Tríptico vital” publicado pela Patuá foi vencedor do prêmio ProAC 32/2017, poderia nos contar um pouco sobre o livro e sua criação?
O livro é um poema longo, uma narrativa dividida entre três linhas principais “Da Existência”, “Da Experiência” e “Da Extensão”, como uma pintura que se abre às questões filosóficas, antropológicas, biológicas, sociológicas e culturais a que vamos sendo expostos durante nosso início, meio e final de vida. É minha homenagem para Hilda Hilst, poeta vizinha de casa, risos (sou de Bauru e ela de Jaú, municípios colados). A obra é baseada em diferentes leituras, mas mais influenciada pelos questionamentos do livro “A Negação da Morte”, de Ernest Becker, ganhador do prêmio Pulitzer de 1974. Nesse livro, o antropólogo discute nossas intenções, reflexos e medos humanos perante o desenlace da vida, na possível finitude ou infinitude dos seres. O livro traz em seus braços plurais uma pulsação poética que tenta remeter o leitor e a leitora de seus versos, para constatações e sensações de sua própria realidade particular, através das histórias políticas, sociais, históricas, biológicas e literárias que o “Tríptico vital” nos incorpora durante as suas 164 páginas de narrativa.

 Antes dele, você já havia publicado outros dois livros de poesia. Como avalia a diferença entre essas obras? Poderia nos contar um pouco a respeito. E também, quais seus planos para futuras obras?
Meu primeiro livro, “Nepente”, foi escrito após um processo radical de aceitação do meu eu, enquanto escritora e poeta. Escrevia prosa e poesia desde a metade da adolescência, a partir de leituras feitas na escola, e de obras que fui adicionando perante meu crescimento, minha formação e opiniões entre ser jovem e me tornar realmente adulta. Após o término da minha graduação, em Pedagogia, e estando no mestrado, comecei a sentir que naquele momento, aos 25 anos, eu tinha a escolha de assumir quem minha essência realmente era, ou então submergir. Felizmente, eu ouvi o meu insight, e me aventurei em desengavetar escritos da última década, desde os 15 anos, feitos em máquinas de escrever, os quais acabei por descartar como formação de livro, risos. E então escrevi, nos meses seguintes, os poemas do meu primeiro trabalho profissional. Foi algo feito por alguém fora do mercado editorial, literário, lançado para amigo(a)s e familiares na cidade natal. Algo ainda muito tímido, mas que me permitiu adentrar, vagarosamente, meses depois, no mercado e no meio de autore(a)s e leitore(a)s de poesia do país.

Já no meu segundo livro, “Sombras & Luzes”, foi o meu firmamento. Não tinha mais a pressão de ter que me assumir como poeta perante o público, e já conhecia melhor o meio, os leitores foram aparecendo, consegui formar uma obra mais ampla, inclusive, o livro mais longo que publiquei, de quase 300 páginas. É um compilado com tom surrealista, que faz um diálogo com a dialética marxista, e o filósofo Karel Kosík, do termo “A Dialética do Concreto”, em que os opostos é que revelam a essência, a verdade dos fatos e dos sentidos em nossa sociedade, e na arte também. Foi uma homenagem ao poeta português Herberto Helder. O primeiro livro lançado na metrópole de São Paulo, e com um público formado somente por leitores e leitoras, escritore(a)s e poetas. Com esse livro, consegui mais espaço no meio, e me firmei na intenção da construção de uma obra pela vida toda em diante.

Meus planos atuais incluem a publicação de meus livros de tradução em poesia, algo que já venho fazendo há alguns anos, em revistas nacionais e estrangeiras, um livro de ensaio sobre o fazer poético, a publicação do meu primeiro romance, e uma antologia de contos bem especial para a qual enviei material esse ano, um convite lindo, e que será publicada em breve; será meu primeiro conto publicado, trabalho de prosa no geral também. Além disso, há meu quarto livro de poesia, também premiado pelo ProAC 32/2019, “Mácula”, que sairá ainda em 2020 da mesma maneira.

Um projeto que trará olhares sobre a pandemia, as resoluções sociais e políticas do país, confissões, e um olhar mais particular todo meu, como um diário que se move perante os sentimentos coletivos que estamos enfrentando no país, nos últimos anos, as questões urgentes e que me elencam nesse momento.

Se fosse usar um livro paralelo para definir a vibração dele, diria “A Rosa do Povo”, do Drummond.

Você cursou pedagogia e tem também um mestrado na área. Acredita que essa formação influenciou sua poesia de alguma forma?
Com certeza. Primeiramente, estamos falando de Educação, um dos pilares que moveu a própria possibilidade da cultura e da arte se emanciparem e evoluírem enquanto coletividade. E em segunda instância, a minha origem é humilde, não tinha livros em casa enquanto eu crescia na infância, só pude descobri-los e me formar enquanto leitora iniciante com os livros da escola; a primeira em que me descobri foi na E.M.E.I Prof. Henrique Bertolucci, na qual estudei no Ensino Fundamental I. Passados os anos, e a continuidade dessa importante ponte pedagógica, da evolução de meus saberes perante os anos, ao adentrar em uma universidade pública, e ser, entre meus pais e irmã, a primeira pessoa a cursar a graduação, consegui avançar em saberes mais complexos, discussões sobre estrutura política, social, filosófica, antropológica, educacional, cultural, artística a que eu e nós estamos inseridos. Tudo o que move um(a) poeta, afinal! Os saberes, os sentidos, nosso interior e exterior, eu e você, sociedade, natureza, formações. E foi na biblioteca da Unesp que pude emprestar e ler semanalmente minhas pilhas de livros de literatura, educação, política, filosofia, e artes gerais. Eu devo tudo que sou às formações que pude ter, principalmente, nas trajetórias públicas que pude ter acesso. O mesmo com o mestrado, que também foi pela Unesp, só que em outra cidade. Muitas leituras e pessoas que me formaram, me fizeram poder querer ser e estar aqui nesse presente. Sou imensamente grata!

Como foi sua experiência de publicação?
Meus três livros foram em três editoras diferentes. A primeira delas, não tive uma boa experiência. Nas duas seguintes, gostei da forma como me trataram, a mim e aos meus livros. Só optei pela mudança, entre uma pela outra, por algo ideológico que avistei na terceira, que me agrada bastante – incluindo nisso não cobrar a publicação dos autores e autoras. Por isso, seguirei no meu quarto livro com essa mesma editora.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Não desista, não tema, não se diminua, seja qual for a situação; levante-se, ouça a si mesma, compreenda que o tempo é nosso maior aliado, e nossos esforços serão recompensados.

Para conhecer um pouco mais o trabalho dessa chica maravilhosa, pedi a Mariana que pudesse nos presentear com um trecho de suas obras. Boa leitura! Ensaio Poético Amoroso

“Toda uma geração passou por mim como por sombras.” Anna Akhmátova

1

Só o mistério faz viver e morrer.
Humanos, nas superfícies terrenas.
Acima das cordilheiras, eles são
os que chegam, mas não me encontram.
Os que aguardo, mas se despedem.

As coisas discretas, adoráveis, sensíveis:
as mãos negativas, azuis, impressas,
esparramam-se nas cavernas madalenianas –
as mãos sobre as paredes, intactas,
redescobertas em um crescente borrão.

Ser o tempo, de frente ao oceano,
acima do granito, com os olhos abertos
sustentando o nu da minha desolação.
De frente ao oceano, onde as outras
mãos ultrapassam o cerne do oxigênio.

Uma mulher, só, no interior da caverna,
há trinta mil anos anseia por mapas,
por uma única rota, uma cama inútil –
em que não fariam de si um culto, mas um
assombro, desacelerando promessas irrevogáveis.

Talvez haja nela um eu, dentro do eu, gritando:
Eu te amo.
– Amo a possibilidade de que me ouçam.
Eu te amo.
Ela olha para o abismo do próprio estômago.
As lascas dos dedos pelo vão da janela.
Os miolos da memória, sempre impossíveis.

Trinta mil anos mais tarde, grito:
Eu te amo.
– Amo o que não se evade nos registros da escuridão.

(…)”

Além dessa entrevista deliciosa a Mariana fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:
Livro: “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, da Stela do Patrocínio (Azougue, 2001).Filme: “A Cor Púrpura”, de Steven Spielberg (1986), uma adaptação do romance epistolar da premiada autora afro-americana Alice Walker.

Gostaria de agradecer imensamente a Mariana Basílio por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

 

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert