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Coluna da Basuras Coletiva

Agro é tóxico!

Postado em 23/04/2021, 8:56

No solo, no ar e nas águas os agrotóxicos são nocivos para todos os seres e plantas.

Nesta semana, o governo federal liberou 34 novos agrotóxicos para comercialização. Desde o início do governo Bolsonaro foram autorizados 1131 novos produtos agrotóxicos, totalizando 3197 tipos de agrotóxicos comercializados no Brasil. O que coloca o país como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. 

Mas de que tipo de agrotóxicos estamos falando? Dentre os produtos que são divulgados, é possível encontrar atrazina, acefato e paraquat, substâncias neurotóxicas que causam doenças como câncer e Alzheimer, conforme apontam diversas pesquisas realizadas em todo o mundo, usadas inclusive como justificativa para impedir que esses agrotóxicos sejam aplicados na produção de alimentos há décadas, como é o caso de todos os países europeus.

Existe ainda uma parcela de agrotóxicos considerados pelo governo brasileiro como “sigilo comercial” e portanto, não são divulgados. Na prática, significa que 28% dos alimentos ingeridos no país foram cultivados com, pelo menos, uma substância escondida da população brasileira (esses dados foram obtidos em 2018 por meio da Lei de Acesso à Informação obtida pela Repórter Brasil e Agência Pública, acesse a reportagem clicando aqui).

A Bayer (Alemanha) foi a campeã de registros considerados “sigilo comercial”, com 11 substâncias secretas. Na sequência, vem a Syngenta (Suíça) e a Basf (Alemanha). Juntas, essas três multinacionais representam 52% dos registros sigilosos de agrotóxicos cujas informações não foram publicadas e que estão nos alimentos do nosso cotidiano. 

Monocultura de terras e mentes

Essas multinacionais atuam em sistemas de plantação monoculturais correspondentes a commodities agrícolas, enquanto cerca de 70% da alimentação da população brasileira vem da agricultura familiar. Portanto, aquele velho falso-argumento de que se o “agronegócio parar a fome aumenta” e que é “necessário produzir mais alimentos para acabar com a fome” é mentiroso.

De acordo com o “Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo de 2020”, levantamento realizado pela ONU em 2019 e publicado no ano passado,  931 milhões de toneladas de alimentos foram desperdiçados no mundo, o que representa 17% da produção de alimentos. Enquanto isso, 690 milhões de pessoas vivem atualmente com insegurança alimentar, situação que se agravou na pandemia.

Voltando à origem dos alimentos no Brasil, mesmo que grande parte deles venham da agricultura familiar, o que representa uma redução no uso de agrotóxicos extremamente nocivos em relação às monoculturas, outro ponto de contaminação é a água. 

De acordo com o Mapa do Agrotóxico, desenvolvido pela Repórter Brasil, Public Eye e Agência Pública com dados da Sisagua (Ministério da Saúde), 2.300 cidades brasileiras têm agrotóxicos saindo das suas torneiras. Em Curitiba (PR), por exemplo, foram encontrados 27 tipos de agrotóxicos nas análises, sendo 11 destes extremamente nocivos para a saúde humana, como o Glifosato.  

Em seu livro “Monocultura da Mente”, a física, filósofa e ativista Vandana Shiva relaciona de que forma a monocultura está presente inclusive nas esferas intelectuais, estabelecidas por meio da manipulação e do controle social. Nesta perspectiva a autora destaca a compreensão das florestas naturais enquanto “erva daninha” e “caos”, enquanto a floresta fabricada pelo humano é vista como “recurso” ou “ordem”.

Rompendo as lógicas monoculturais

A América Latina e, em especial o Brasil por ter sido pioneiro, são referências mundiais do sistema agroflorestal. Este tipo de produção prioriza a manutenção da vida, visto que parte do ponto básico: a monocultura e seus agrotóxicos não são sustentáveis, pois contaminam o solo, as plantas, os rios, o ar, os animais e as pessoas. 

Alternativas se tornam cada vez mais frequentes e gestos como passar a comprar da agricultura familiar e orgânica, deixa de dar lucro às multinacionais e fortalece uma produção mais sustentável de vida. Para encontrar iniciativas perto de você, use ferramentas como essa do GreenPeace: “Encontre um produtor agroecológico perto de você” e procure por sua região em iniciativas da reforma agrária mst.org

Referências
@robotox, conta no twitter criada pela Agência Pública e Repórter Brasil para divulgar os novos produtos agrotóxicos liberados no mercado brasileiro.

“Por trás do alimento”, Repórter Brasil e Agência Pública: https://portrasdoalimento.info/2020/11/26/governo-nao-divulga-dados-de-72-dos-agrotoxicos-protegendo-multinacionais/#

Mapa do Agrotóxico: https://portrasdoalimento.info/agrotoxico-na-agua/# 

Livro “Monocultura da Mente”, de Vandana Shiva.

Vandana Shiva explica a monocultura da mente: https://www.fronteiras.com/videos/monoculturas-da-mente

“Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo de 2020”, ONU: https://news.un.org/pt/story/2020/07/1719961 

“Apesar do combate ao desperdício, perda de comida aumenta no Brasil durante a pandemia”, National Geographic: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2020/09/desperdicio-e-perda-de-comida-aumentam-no-brasil-durante-a-pandemia-sao-paulo

Ferramenta do GreenPeace “Encontre um produtor agroecológico perto de você: https://www.greenpeace.org/brasil/agricultura/encontre-um-produtor-agroecologico-perto-de-voce/

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Beatriz Lago e Gabriela Giannini são fundadoras da Basuras, uma coletiva latinoamericana que produz conteúdos elaborados a partir de uma perspectiva feminista e anticapitalista de assuntos diversos como meio ambiente, política, corpas dissidentes, autonomia popular, direitos humanos, entre outros. A coletiva nasceu no Brasil, durante as eleições presidenciais de 2018, com campanhas informativas nas ruas sobre política e combate a fake news. Desde então, desenvolvemos materiais como zines, lambes, informativos, audiovisuais, oficinas e intervenções urbanas. A equipe não é fixa e varia conforme os projetos.
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