Manifestantes marcharam na Cidade do México em solidariedade às argentinas/Foto: Liz Tapia

Aborto legal, seguro e gratuito: 11 anos da experiência de legalização na capital mexicana

Postado em 14/08/2018, 22:01

Atualmente no México a prática do aborto sem restrições é realizada apenas na Cidade do México, capital do país. A lei que legaliza o aborto até a 12ª semana de gestação foi aprovada em 2007 pela Assembleia Legislativa do Distrito Federal (ALDF). Apesar do peso da Igreja na prática política e de a sociedade mexicana ser majoritariamente católica, o ensejo das lutas feministas garantiram o acesso ao aborto legal, seguro e gratuito para muitas mexicanas.

No México são notáveis os frutos dessa conquista, que levaram a reformas no Código Penal do Distrito Federal (hoje conhecida apenas como Cidade do México) e da Lei de Saúde do município. Tais mudanças obrigam as instituições públicas de saúde a atender à solicitação da interrupção voluntária das gestantes, priorizando a atenção da saúde sexual e reprodutiva da mulher, prevalecendo o direito humano à vida e a decidir sobre seu corpo.

Desde a aprovação da lei foram realizados na capital do país mais de 196 mil abortos seguros, o que seria em média cerca de 48 abortos por dia realizados na cidade. Os dados do Sistema de Informação da ILE – Interrupcción Legal del Embarazo também apontam que apesar da proibição e criminalização da prática nos demais estados mexicanos, muitas mulheres de distintas regiões do país se deslocam diariamente para a capital – CDMX para a realização de um aborto voluntário, seguro e sem autuação penal.

Apesar de que a luta pelo aborto legal, seguro e gratuito tenha sido reivindicado pelos movimentos feministas para todo o país, a implementação da ILE é uma realidade somente para a Cidade do México.

Educación sexual para decidir, anticonceptivo para prevenir, aborto legal para no morir”
Hoje as complicações por aborto no México representam a quinta causa de morte materna: 57% das mortes ocorrem por práticas clandestinas, em contraste com os dados da Cidade do México, que zerou sua taxa de mortalidade de mulheres por aborto, o único estado do país que apresenta essa cifra.

A assistente social Cynthia González Cárdenas, da Clínica de Especialidades Médicas – Secretaria de Saúde CDMX, fala da importância da legalização do aborto em todo o país, onde “o resultado mais importante da legalização na capital do país foi zerar a taxa de mortalidade de mulheres mortas em abortos clandestinos por prática inadequada e negligência”. “Ao ter a opção da ILE, sem restringir as causas para proceder com o aborto é possível ter uma atenção gratuita, profissional e laica. Além de obter informações para evitar que seja recorrente (o aborto) como método de planejamento familiar. Geralmente, a cultura proibitiva suscita a clandestinidade. Quando se legaliza o direito a decidir, se regularizam os lugares que prestam o serviço e se busca garantir uma atenção digna”, opinião dada a partir de sua experiência na área da saúde.

Em abril deste ano a lei que descriminalizou o aborto completou 11 anos. A política pública consolidada é referenciada pela sigla ILE – Interrupción Legal del Embarazo e está vinculada à Secretaria de Saúde do município. A ILE legaliza e normatiza a prática do aborto seguro em instituições públicas e privadas na capital mexicana. As clínicas e hospitais onde se realizam o aborto estão distribuídos por toda a cidade.

As instituições públicas que oferecem o serviço gratuito contam com oito hospitais e com cinco clínicas (divididas em: centros de saúde, saúde sexual e reprodutiva da mulher, comunitário). De maneira descentralizada essas instituições têm assistido um total de 10 distritos/delegações dos 16 que formam parte do estado.

http://ile.salud.cdmx.gob.mx/directorio-clinicas-interrupcion-legal-del-embarazo/

A todas as mulheres que solicitam o serviço nessas instituições (públicas) é necessário levar a comprovação da gravidez (exame sanguíneo), o período gestação não pode ultrapassar o prazo de 12 semanas, além de documentação que comprove o domicílio na cidade, identificação oficial e nos casos de menores de idade, estar acompanhado de um dos pais ou responsável legal.

A atenção médica que a paciente recebe é realizada por equipe técnica multidisciplinar, integrada por médicos, assistentes sociais, psicólogos e profissionais da enfermagem. Além de realizar a ILE, a equipe pode realizar citologia vaginal e aplicação do implante subcutâneo (anticonceptivo hormonal temporário) nos casos que a mulher escolha a utilização desse método, que é disponibilizado pelo Seguro Social. As assistentes sociais são responsáveis em prestar orientação sobre os métodos anticonceptivos. De maneira individualiza a mulher recebe atenção psicológica; e as profissionais da enfermagem orientam a gestante para os procedimentos e cuidados (preparo e recuperação pós aborto) que serão e deverão ser realizados, respectivamente.

“O mais importante é deixar claro para a paciente que a ILE é um direito e que parte desse direito é ter uma atenção eficaz, digna e de qualidade. É uma decisão que ela pode tomar, baseada em seu projeto de vida, expectativas, crenças e vivencias, ou seja, é uma decisão pessoal e ninguém pode impedir que ela o faça se assim o deseja”, afirma a assistente social Cynthia González Cárdenas.

Nas clínicas e hospitais públicos habilitados da ILE, o serviço é 100% gratuito, no entanto, o tempo de duração pode ser mais longo. As mulheres que desejam abortar devem comparecer nas clínicas ou hospitais pela manhã, período em que são distribuídas aproximadamente 20 fichas dos atendimentos realizados no dia, e o atendimento se estabelece por ordem de chegada. Nesse período de espera, a gestante realiza exames laboratoriais e geralmente é liberada no início da tarde.

Após a realização dos exames, se a opção for o abortamento por medicação, a gestante inicia o procedimento com a ingestão de mifepristona, utilizado para preparar o útero e em casa deverá ser feita a ingestão do misoprostol. Se recomenda que, em casos de qualquer sinal ou alarme de hemorragia, deve-se comparecer de forma imediata à emergência do hospital. Se o procedimento recomendado pelos médicos for o de aspiração – sucção, dependendo das semanas de gestação, este é realizado na primeira consulta.

Em ambos procedimentos de abortamentos, após duas semanas é necessário retornar à clínica de atenção para monitoramento e avaliação. As consultas de retorno são basicamente para a realização de ultrassonografia que verifica a presença de resíduos no útero que possam causar infecções.

As clínicas privadas são divididas entre fundações, redes e associações da sociedade civil (ONGs). Estas últimas prestam o serviço por um valor de colaboração relativamente acessível. “Se distinguem da pública ao oferecer tempos menores de espera e atenção individualizada”, é o que explica a assistente social.

No atendimento privado não é exigido a comprovação de residência, o que possibilita que o acesso se amplie às mulheres de outros estados, estrangeiras, além de atender à demanda do município. Estas clínicas devidamente habilitadas pela ILE oferecem uma variedade de serviços e de preços. Em algumas delas são oferecidos subsídios para as mulheres com dificuldades para custear o serviço. Os pacotes podem incluir: procedimento (medicamentos ou aspiração), tipo de anestesia (local ou geral), consulta médica, ultrassom, dispositivo intrauterino de cobre, transporte para as pessoas que vem de outras localidades (rodoviária – clínica), entre outras necessidades.

Nas clínicas privadas o tempo previsto para a realização do abortamento por aspiração – sucção é de 15 a 20 minutos, quando dentro da sala de procedimentos. As consultas são agendadas por telefone e em caso de desistência da mulher na avaliação médica (previamente agendada) é cobrada apenas a consulta, cujo preço depende de cada instituição.

Os abortos realizados pela ingestão de medicamentos atingem de 95% a 98% de eficácia e por meio do método cirúrgico de aspiração do feto de 99% a 100%.

Da clandestinidade para a efetivação do direito reprodutivo da mulher
A prática do aborto clandestino, ainda que oculta, sempre esteve presente na sociedade mexicana. As mortes de mulheres decorrentes de um abortamento realizado em condições insalubres e inadequadas têm revelado uma importante contradição na sociedade: entre o discurso da defesa da vida desde a concepção do embrião, e a realidade produzida pela ilegalidade. As mortes de muitas mulheres que decidiram abortar revelam uma anulação e negligência perante a vida: nessa difícil equação a vida de mulheres.

No México, com exceção da capital onde o aborto é permitido, “a restrição ao abortamento não evita que ele aconteça” segundo evidenciam os resultados da pesquisa realizada pelo Instituto Guttmacher em parceria com uma das universidades mais importantes do país, El Colégio de México (COLMEX). Uma das cifras apresentadas no estudo Embarazo no planeado y aborto inducido en México estima que somente no ano de 2009 foram realizados mais de um milhão de abortos no país.

O estudo também apontou que 54% das gestações não planejadas terminaram em abortos induzidos, sendo que 34% resultaram em nascimentos não planejados e 12% em abortos espontâneos. Apenas 16% dos abortos induzidos foram praticados por médicos, 36% das mulheres sofrem complicações que requeriam tratamento médico e 25% dessas mulheres não receberam o atendimento. As mulheres mais pobres do meio rural são as mulheres com menos possibilidade de atenção médica nas situações de complicações pós-aborto.

Antes da aprovação da lei do aborto na Cidade do México em abril de 2007, o município representava 14% do total de mulheres mortas por abortamento mal realizados. O tema da legalização do aborto, portanto, não se desvincula do tema de saúde pública, bem como, do tema de justiça social. Justiça em razão das mortes de mulheres que poderiam ser evitadas.

Para sinalizar os avanços da política pública ILE na capital mexicana, foram resgatadas as experiências de duas mulheres que optaram por realizar um aborto, diante de uma gravidez não planejada. Uma diferença importante entre elas é que uma realizou a interrupção antes e a outra depois da legalização. 

Foto: Liz Tapia

A descoberta da gravidez
“Efetivamente, estava grávida. Antes de qualquer coisa, consultei diferentes médicos (todos homens) que confirmaram a gestação. Me aproximei de alguns deles para a possibilidade de que realizassem o aborto, no entanto ouvi: “eu não realizo esse tipo de procedimento”, “deverias ter, é um filho que Deus te enviou”. A cada comentário me sentia ameaçada com uma imposição. Nenhum deles concebia a possibilidade de realizar o aborto. Não sabia o que fazer, sentia muita confusão em mim (meu companheiro também estava confuso). Eu apenas sabia que não queria ser mãe”, relatou Anabel* após comprovação da gravidez. Nesse momento, Anabel cursava sua primeira graduação, estava prestes a completar 20 anos e morava na Cidade do México.

Em um outro cenário e etapa de vida distinta de Anabel, uma outra mulher que nos compartilhou sua história, Margarita, nos ofereceu uma visão diferente em relação ao seu atendimento médico na mesma cidade. “A primeira visita ao médico foi na emergência obstétrica de um hospital. Como sentia dores na região pélvica procurei um profissional. No atendimento, a ginecologista me pediu um ultrassom para assegurar que estava tudo bem com a gestação, realizei o exame no mesmo dia para retornar com a mesma médica em seu plantão. Através do ultrassom descobri que estava entrando na 5ª semana, o que bateu com as minhas contas. Ao retornar no consultório, a médica orientou sobre medicação para as dores e cuidados para os dois primeiros meses da gravidez, assim como sobre a possibilidade de interrupção da gestante até a 12ª semana – caso eu não quisesse ser mãe naquele momento. A orientação seguiu da informação de que na Cidade do México (cidade de residência) o aborto é legal e seguro, podendo optar por instituições públicas ou privadas. Como demostrei surpresa e inconformidade com a gravidez, a médica me sugeriu dedicar um tempo para tomar a decisão, já que poderia esperar um mês para o procedimento. Nesse momento, apesar de tantas inseguranças a respeito da maternidade, senti uma certa segurança e alívio em poder ter opções. Ter opção referente a algo que pertence a mim: ao meu corpo, a minha vida. Sem necessidade de me esconder ou sentir culpa de não desejar ser mãe nesse momento” contou Margarita*, diante de uma gravidez não planejada que aconteceu neste ano.

Os relatos acima nos levam à compreensão de que quando se fala de aborto seguro, a palavra “seguro”, que de imediato nos remete ao procedimento realizado (ato médico), ganha conotação para além das circunstâncias e condições em que ocorre. O aborto seguro é a garantia real da integralidade da vida das mulheres que desejam interromper a sua gravidez. Em razão das construções históricas e simbólicas enraizadas no campo da subjetividade, que transitam na cotidianidade da mulher e no exercício da maternidade, o “seguro” também pode alimentar as posições dessa mulher diante de sua(s) escolha(s), sem temer a juízos ou preconceitos da sociedade ou das pessoas que a rodeiam com relação ao aborto praticado por ela. E nesse sentido, a informação tem um papel relevante para obter essa segurança.

Foto: Liz Tapia

“Mi cuerpo, mi decisión”
“Sem dúvida, o mais difícil no meu caso foi tomar a decisão, após o aborto foi como se tudo tivesse se resolvido, e já não existia tantos medos e nem culpa de ter negado a gravidez.  Na verdade foi um alívio para mim e para meu companheiro” reflexão de Margarita com respeito a decisão de ter abortado.

Ainda sobre a experiência de Margarita dos momentos que levaram a sua escolha: “fiz dois testes em casa, os dois positivos, não era mais uma suspeita, realmente estava grávida. A resposta imediata a notícia foi somente choro, afinal de contas uma gravidez não planejada já estava consumada e fazendo parte de mim. Foram dias e semanas muito difíceis até a decisão de fazer o aborto. Segui a orientação da médica de passar um tempo pensando no assunto, não vou negar que foi doloroso. Eu e meu companheiro tivemos muitas dúvidas, já que pensamos em algum momento (que não esse) ser pais. Foi um momento de refletir nas implicações imediatas e as futuras – desde dos cuidados com a gestação até a maternidade, pensamos principalmente, em cenários possíveis para ter o bebé. O difícil de tomar a decisão, acho que teve muito a ver com as construções sociais que a gente carrega ao longo de nossa construção como mulher, a construção simbólica e por vezes romântica da maternidade, nos impõem uma condição feminina vinculada ao afeto e ao cuidado, em que o desejo de ser mãe não pode ser repelido. Apesar dos meus intentos de desconstruções nesse sentido, senti muitas contradições e, às vezes um sentimento de culpa. Essa culpa fazia com que tivesse medo de optar pelo aborto e de que esse sentimento pudesse durar muito tempo após o procedimento. O que na verdade não aconteceu, após o aborto não senti culpa, o choro cessou. Creio que era mais de desespero ao me ver mãe em um contexto sem emprego e de transição da minha vida e do meu parceiro. Ouvi de algumas mulheres, que não há o momento certo ou condições ideais para ser mãe, mas para mim esse não foi o momento, a minha saúde mental estava em risco. Foi então, quando optamos pelo aborto”.

Em uma postura diferente da anterior, Anabel após a confirmação da gravidez buscou alternativas que a levassem a realizar o aborto, ainda que ilegal naquela conjuntura, colocando sua decisão a frente de possíveis implicações futuras. “Certa vez uma amiga comentou que quando esteve grávida, médicos de uma clínica privada do Estado de México lhe ofereceram a possibilidade de realizar um aborto, por isso considerei esse espaço uma alternativa. O médico que nos atendeu nos informou sobre continuar a gestação (dando informações sobre as consultas periódicas e os respectivos cuidados na gestação) ou realizar o aborto. Para realizar o aborto, ele comunicaria o pessoal médico que o feto tinha morrido e teriam que proceder urgentemente com o método de aspiração. O médico não diria nada sobre meu desejo de abortar nas dependências hospitalares, já que seria ilegal e crime, ainda que em alguns lugares se praticassem. Desde o início considerei que a decisão era minha, sem duvidar optei pela segunda alternativa” relato de Anabel que decidiu realizar um aborto quando a prática não era legalizada. O procedimento custou em torno de R$ 800 na época. 

Foto: Liz Tapia

Uma outra contribuição que é necessária ser colocada acerca da decisão de interromper uma gestação, é de que o peso maior se projeta sobre a mulher. Nos relatos disponibilizados por estas mulheres, elas demonstram serem protagonistas de seus destinos e das suas vidas, o que revela a existência de um projeto de vida individual, ainda que possa coexistir com projetos de vidas de seus parceiros. Entretanto, na hora da escolha em realizar o aborto a decisão esteve em suas mãos.

No relato de Anabel é possível visualizar essa afirmação: “antes de entrar no transporte que nos levaria à clínica, meu companheiro me abraçou e tentou me persuadir para continuar com a gravidez. Disse firmemente que não e continuamos o caminho (…) Pela tarde me deram alta para deixar a clínica. Imediatamente fomos comer, tinha muita fome, fisicamente me sentia bem. Posteriormente, nos apressamos para irmos à casa e repousar para minha recuperação. Deitada em minha cama, eu e meu companheiro conversamos sobre o acontecido. Ele chorou e eu não. Senti alívio. Nesse momento, não estava consciente da possibilidade de ser denunciada e ir para a prisão. Eu só não queria ser mãe nesse momento. Não me arrependi de nada e olhando hoje, continuo sem arrependimento”, relato Anabel após ter realizado o aborto.

Pela voz de Margarita foi possível chegar em outra história, de uma mulher que realizou o aborto no mesmo dia e clínica que ela. “Dividi o quarto com outras mulheres no preparo e após o aborto. Uma delas, que vinha de outro estado acompanhada do seu namorado me contou que no momento em que foi feito o ultrassom, ele começou a chorar e pediu para ela ter o bebé, já que seria seu primeiro filho. No entanto, ela nos comentou (a mim e a outras mulheres que compartilhamos o quarto) que tinha três filhos pequenos, um deles de oito meses, e que não queria mais um. Já havia dificuldades para cuidar de seus filhos e a gestação a impossibilitaria de trabalhar para sustentá-los”, relata Margarida. 

É importante reconhecer essas vozes, já que determinadas experiências são exclusivas aos corpos femininos, como a de realizar um aborto. Estas experiências transformam-se em argumentação e defesa para onde a legalização não existe, como é possível ver na fala de Margarita após o aborto: “depois dessa experiência, tem sido ainda mais difícil para mim aceitar que no resto do país o aborto seja um crime. A punição e as mortes cotidianas em razão de abortos clandestinos é algo perverso contra nós mulheres. O crime não é de quem aborta, e sim de quem proíbe, ou seja, o criminoso é o Estado, que ao invés de legalizar e ofertar os serviços adequados e seguros para preservar a vida das mulheres, criminaliza! Vulnerabilizando ainda mais as condições de vida das mulheres ao ponto de transformar a clandestinidade em única alternativa. Não deveria o Estado ditar as regras sobre nossos corpos. O corpo é nosso e a decisão também deve ser nossa” defende Margarita sobre a necessidade de legalização do aborto no restante do país.

O aborto
“Chegando ao nosso destino dei entrada imediata na clínica. Introduziram um óvulo vaginal para a dilatação, o que demorou muitas horas. Dois médicos, entre eles o que estava dando seguimento ao meu caso, e estaria assistindo o outro (médico), realizaram o aborto. Me aplicaram anestesia geral e o procedimento durou apenas 15 minutos. Uma vez terminado me queixei muito, estando ainda sobre efeitos da anestesia, e pediram para meu companheiro me acompanhar enquanto me recuperava” relato de Anabel em sua experiência de aborto realizado em 2003.

“Com relação ao procedimento (aborto) pesquisei os métodos utilizados, as recomendações das clínicas habilitadas, as mais próximas de onde eu moro, custos e serviços oferecidos. Optei por uma fundação, onde os serviços tinham um custo de 100 reais até 800 reais* todos eles incluíam a consulta, onde é feito o ultrassom para assegurar o tempo (semanas) de gestação e outros incluíam dispositivo intrauterino de cobre. O mais econômico e podendo realizar em casa é a opção de medicamentos, mas no meu caso estava descartado, como eu estava com quase 9 semanas a opção que eu tinha era o procedimento cirúrgico (sucção) podendo ser realizado com anestesia local ou geral. Segundo a informação obtida pela clínica, com a anestesia local é possível sentir um pouco de dor durante e após o aborto, a depender de cada mulher e período gestacional, em razão disso escolhi o procedimento com anestesia geral, nesse caso não senti nenhum tipo de dor. Em razão da anestesia não consigo lembrar quanto tempo durou, apesar de que tudo me pareceu muito rápido entre o procedimento e recuperação na clínica”, detalhou Margarida.

Diante das experiências expostas de Anabel e de Margarita é possível constatar que o abortamento em condições adequadas não apresenta risco à saúde das pacientes. De acordo com ILE é uma prática 100% segura. Em ambas vivências os abortos foram bem sucedidos e realizados em dependências de qualidade médica, apesar de que um deles respondia a uma ilegalidade onde a mulher estaria sujeita à detenção.

A criminalização, ou seja, a repercussão penal que uma delas poderia ter sofrido transformaria radicalmente sua vida. Hoje, Anabel tem dois títulos de graduação e um de pós-graduação e diz que a experiência a ajudou a repensar a maternidade. “Agora, com meus trinta e sete anos sei que não quero ser mãe”, diz após 15 anos de ter praticado o aborto. No atual contexto da capital mexicana, a legalização cessou esse tipo de condenação, porém a prática continua sendo criminosa em outros estados.

Em episódio recente na vida pública, a descriminalização foi defendida e impulsionada pelos movimentos feministas e organizações da sociedade civil no estado de Veracruz. No início de julho, um juiz federal ordenou ao Estado aplicar reformas nos artigos: 149, 150 e 154 do Código Penal veracruzano atendendo à proposta das feministas. Na redação vigente dos artigos, a mulher que queira e que realize um aborto é criminalizada, a sentença é de 6 meses a 2 anos de prisão, com pagamentos de multas no valor de até 70 dias do seu salário. Embora, tenha sido dado um passo importante para que o assunto seja colocado na agenda política, na semana passada (última semana de julho) os congressistas da atual gestão impugnaram a ordem do juiz.

Quem são as mulheres que abortam na CDMX?
De acordo com a assistente social Cynthia González Cárdenas, o perfil das mulheres que buscam o serviço é bastante heterogêneo: “de idade variada, desde adolescentes a mulheres em última etapa de sua fertilidade, de diferentes profissões, de distintas partes da cidade, inclusive familiares que perguntam sobre o serviço para que mulheres de outro estado possam acessar a ILE, estrangeiras e de todos estados civis”.

Corroborando para a informação, Margarita nos fornece sua percepção a respeito do perfil que hoje se caracteriza na cidade: “havíamos agendado um horário por telefone, mas na verdade passamos muito mais tempo do horário indicado, em razão do número de pessoas. Uma diferença importante entre o serviço público e clínicas e fundações privadas, é que os primeiros exigem a comprovação de residência na CDMX, o que limita, principalmente, o acesso de mulheres de outras cidades/estados onde o aborto é criminalizado. Penso que em razão disso, esse dia (sábado) estava saturado. Me impressionou, realmente, havia muita gente naquele dia. Como pedem para que a mulher vá acompanhada, estavam ao lado de seus companheiros, de amigas, de mães (as adolescentes), inclusive algumas com bebés e filhos. Nesse dia, penso que haviam umas 50 pessoas de diferentes idades para realizar o aborto nas horas em que estivemos lá. Foi possível ver adolescentes, mulheres de 20- 30, de 30-40, inclusive de 40 – 50 ou mais”, segundo esse relato existe uma composição do perfil variado das mulheres que buscam os serviços privados da ILE.

Educação sexual
A respeito do tema da educação sexual, de acordo com a atuação e experiência da assistente social da Clínica de Especialidades tem existido um esforço pontual nos programas de saúde sexual e reprodutiva pelos promotores e agentes de saúde do município a nível escolar, paralelo ao ILE.

A ações estão direcionadas à prevenção da gravidez na adolescência; na promoção dos direitos sexuais e reprodutivos; maior divulgação de métodos anticonceptivos; promoção de planejamento familiar. Corroborando para planos de vida, a partir de temas vinculados à autoestima e assertividade com foco nos jovens em idade escolar, essas ações são realizados por agentes e promotores de saúde. Há necessidade de promover uma articulação constante entre o setor saúde e o setor educacional, afirma a assistente social.

Assim como também existem limites colocados hoje, numerados pela profissional da saúde: “o problema é que as vezes encontramos obstáculos, ante a falta de organização e logística dos serviços na saúde pública e também em razão da carga de trabalho e a falta de equipe técnica, além da falta de sintonia entre os objetivos propostos e das escolas onde se aplicam estes esforços”.

Apesar dos avanços na área da saúde, na sociedade ainda resulta um tabu falar de sexualidade, em razão do predomínio das crenças religiosas dessa população. No entanto, a educação sexual não é um tema secundário, é parte importante da instrumentalização da política pública, sobretudo, na atenção aos jovens.

A importância do aborto legal, seguro e gratuito
A experiência da legalização do aborto na CDMX, que hoje tem 11 anos de implementação, não somente fez com que a interrupção voluntária da gestação passasse de crime para se consolidar como política pública, mas também direcionou essa sociedade a um caminho de ascensão dos direitos em torno da sexualidade e dos direitos reprodutivos para as mulheres dessa geração e de geração futuras.

O aborto legal, seguro e gratuito é uma política pública que tem sido uma ferramenta de luta social e política. Em lugares que ainda criminalizam a prática essa luta rejeita em absoluto a apropriação da decisão perante nossos corpos pelo Estado patriarcal.

A defesa de que seja respeitada a vontade interromper a gestação até a 12ª semana, bem como, que a decisão seja transferida exclusivamente às mulheres de exercer a maternidade é altamente legítima. As experiências relatadas nessa matéria revelam a necessidade de que o aborto legal, seguro e gratuito seja ampliado nos demais estados do país, como também em outras sociedades de nosso continente.

*O valor colocado foi convertido em reais. Foram usados nomes fictícios para as mulheres que compartilharam suas experiências, conservando o sigilo entendido como componente ético no uso de informações reais.

Nicole Ballesteros Albornoz é assistente social, mestre em Serviço Social (UNAM) e doutoranda em Sociologia pela Benemérita Universidad Autónoma de Puebla (BUAP).