Protestos em la Santa Cruz de la Sierra/Foto: El Deber

A crise que sustentaremos com os nossos corpos: o fogo que arde na Bolívia

Postado em 13/09/2019, 19:59

“Quem possuí as mulheres de um território possuí o território, esta é a regra dos velhos e dos novos patriarcas.”
Maria Mies.

Por Claudia Cuéllar.

Tradução: Nicole Ballesteros Albornoz.

 

Na Bolívia, os incêndios causados pela agroindústria de Santa Cruz de la Sierra e que fazem parte de um pacto predatório com o governo junto as transnacionais devastaram cerca de 2 milhões de hectares em localidades de Santa Cruz e Beni. Foram afetados um total de 20 municípios, até o momento o fogo devastou dez reservas naturais, Terras Comunitária de Origem, comunidades indígenas da floresta Amazônica, Chaco e do bosque Chiquitano – terras baixas da Bolívia. E o fogo continua.

A devastação causada pelo fogo é o resultado do complexo da acumulação capitalista, que na Bolívia é sustentado por uma aliança entre diversos atores. Esse complexo há muito tempo tem penetrado e se perpetuado intensamente nas terras baixas, cumprindo o projeto de “Geopolítica da Amazônia”, em que anos atrás o vice-presidente o descreveu como pilar ao progresso na Bolívia, como também o é o projeto de “Modelo Produtivo Autônomo”. Podemos ler em ambos: a idealização de “progresso” para as oligarquias de Santa Cruz de la Sierra que desde a época do ditador Banzer, foram baseados em projetos extrativos diversos, porém, inter-relacionados, abarcando o agronegócio intensivo, a hidrelétrica, a mineração, o desmatamento ilegal, a espoliação de terras e a extração de petróleo e gás.

No entanto, há tempos também as comunidades e as resistências de mulheres – as que enfrentavam diretamente as consequências desse modelo econômico, com seus corpos tem colocados os limites da exploração. São elas que tem desvelado como a aliança violenta e criminosa opera nos territórios. Assim como, são elas as que se manifestaram imediatamente na devastação vivenciada pelos incêndios. Numa escalada brutal do regime “progressista” que o extrativismo exacerbado por meio de violência e saques se concretiza. Além de nos situar nas formas nas quais opera o poder político e econômico e que tipo de crise teremos que enfrentar no presente e no futuro.

Protestos de estudantes universitárias na cidade/ Foto: Claudia Cuellar

Cumplicidade patriarcal: impunidade e ecocídio

Neste 2019, que coincide com o ano eleitoral na Bolívia, a violência e as expulsões estão presentes de forma concatenada. Ano em que temos as taxas mais altas de feminicídios, o aumento dos casos de violações de menores e de estupro coletivo. Também neste ano, em várias cidades, nós mulheres estivemos tomamos às ruas e canalizamos nossa raiva contra a cumplicidade patriarcal e a falta de resposta das instituições públicas que se negam a nos escutar. Nossa raiva aumenta, quando denunciamos as violências e estas são inválidas, na medida que conseguimos politizar nossa dor, as instituições nos infantilizam uma e outra vez.

Enquanto isso acontece, o governo e os empresários reafirmaram sua aliança histórica e criminal contra os territórios. Isso tem se gestando há muitos anos atrás, em reuniões disfarçadas de cúpulas e de todo um andaime institucional que se viabiliza com decretos, normativas e regulamentos, quais o governo do partido politico Movimento ao Socialismo (MAS) foi reestruturando a política agrícola do país, incentivando assim, a agroindústria de maneira voraz e acelerar o avanço capitalista sobre os territórios da região leste do país, Chaco e da Amazônia Boliviana.

Se analisamos como essa aliança foi consolidada, o papel do Estado “progressista” é central. Pois, na medida que é criada a farsa plasmada no conjunto de normas simbólicas, que supostamente protegem a Mãe Terra, existe a omissão do governo em divulgar o que verdadeiramente acontece nos territórios, em zonas de interesse econômico global. Essa é uma das razões pelos quais foram outorgados um sem número de “perdões”[1]. Perdonazos que dão pé a impunidade aos processos ambientais de longa data. Além de agravar a devastação de nosso ecossistema, com vivenciamos com o incêndio incontrolável das últimas semanas.

Embora seja pertinente a nossa análise que o Decreto 3973/2019, em que se autoriza as queimadas controladas nas localidades afetadas, e por isso, sua revogação é central, não podemos perder de vista que o que está em jogo não somente se apresenta nas alterações do marco regulatório, mas também na impunidade com a qual o Estado e suas alianças estão operando.

Pois, essa política criminal é reproduzida com impunidade. A impunidade não é apenas a falta de justiça, a impunidade é constitutiva de um pacto patriarcal: de onde o poder do corpo sobre o corpo emana, onde se instala a cumplicidade dos silêncios e autorização para violar. São pactuados acordos ofensivos aos territórios e aos corpos feminizados, onde cada sujeito privilegiado obtém poder predatório e paga o preço dessa afiliação. Pacto que se fecha (entre os pares) e avança contra as mulheres e tudo o que elas representam, entrelaçada com o avanço do capital. A reconquista de territórios, a violência sentidas nos corpos e a anulação da capacidade autônoma de reproduzir a vida, é portanto, o epicentro do desastre que estamos vivendo.

A aliança criminosa que impunemente está devastando territórios e tudo o que emana dele para o sustento da vida, por meio da maquinaria capitalista acelerada e articulada nos discursos, práticas simbólicas de cooptação: coisifica, retira, coloniza e violenta. Além disso, tenta nos fazer acreditar que somos sujeitos e sujeitas autônomos da natureza, indivíduos sem corpos ou corpos individualizados que não dependem mais dela (a natureza) para sua conservação, e assim, entregamos o “desenvolvimento” nas mãos de uns poucos. Onde se transforma e divide as relações sociais, que só tem servido para reestabelecer as hierarquias.

É através dessa política patriarcal capitalista que o governo tem condescendência e até admiração pelas elites e certos grupos fundamentalistas que sustentam esse modelo predatório. “O interesse comum” dessa diversidade de atores é submeter corpos e territórios, portanto, estes atores estão reorientando as formas de permanecer no poder, forjando alianças que validadas entre si. Tal como Bolsonaro, que está entregando a Amazônia ao capitalismo, ao militarismo e ao fundamentalismo religioso. Na Bolívia, o progressismo faz exatamente o mesmo, mas com o disfarce da distribuição de lucros e do fortalecimento do Estado Plurinacional. 

Nossos bosques como banquete e nossos corpos como negócios

Enquanto em toda a Bolívia, uma multidão de pessoas, de diferentes geografias e demandas sociais se mobiliza para apagar os incêndios, exaltando raiva e atuando como bombeiros de maneira voluntária (resgatando animais, informando a população local e entre outras tantas tarefas) o presidente Evo Morales junto a seus parceiros chineses e latifundiários de Santa Cruz comemoraram a primeira exportação de carne para a China.

Foi então, nesse contexto, que marchas encabeçadas por grupos ambientalistas, feministas, universitárias, comunidades e organizações indígenas e mais grupos, somaram-se para reivindicar outras medidas ao meio ambiente. Foi com o lema “não ao extrativismo” que se defendeu a pauta ecológica real e a anulação do decreto 3973/19. Nisso, o presidente Evo Morales e seus aliados retornam a portas fechadas, para falar sobre os termos da “capacidade produtiva da Bolívia” que se pretende implementar.

Como vemos, é a força social que tem se encarregado de combater as consequências da devastação deste pacto, enquanto o governo não vê problema em dialogar com os agroindustriais, os que desejam que medida 3973/19 não seja revogada, como tão pouco pretendo renegociar suas políticas de alianças transnacionais em seus compromissos futuros – que estou segura que pouca gente conhece. Pode existir algo mais patriarcal do que isso?

Bom, sabemos que o Estado não nos cuida. Até agora o tem ficado claro é que nos devasta. Primeiro, porque essa aliança incentiva uma política de reconquista colonial (sempre presente), política que tem sido validada pela troca de mulheres e de territórios como afirmação dos pactos de poder. Segundo, porque promove o relacionamento progressivo abusivo com a natureza (o impedimento de manifestação da natureza selvagem e os territórios se assimilam a mercadorias) apoiado na falsa ideia de desenvolvimento. No entanto, a resistência comunitária, impulsadas e sustentada pelas mulheres, tem denunciado essa política – que nos abate e nos maltrata, em seus espaços privados e coletivos.

Tanto a política de reconquista como a violência contra as mulheres, implícita nas expulsões territoriais, alimentam na “conquista do Oriente boliviano”, momento histórico central para a dominação masculina sobre o corpo feminino, forjada na conciliação dos proprietários de terras em Santa Cruz e que hoje representam o epicentro nacional de um capitalismo agroindustrial predatório na Bolívia. Historicamente, a construção da feminilidade evidenciada nas festas e encontros entre as fraternidades masculinas nessa região, engendraram o modos operandi das relações de género: o corpo da mulher se coisifica para que o homem alcance sua transcendência masculina.

Registro feito por um bombeiro voluntário nas áreas de queimadas/Foto: Mongobay

A luta contra a impunidade alçadas pelas feministas estão mobilizando e gritando: Justiça! Essa luta está relacionada com a raiva, que emerge da devastação que estamos enfrentando. Acaso, não estamos sofrendo com o corpo a mesma dor que sentimos pela violência que avança sobre nós? Acaso a impotência não tem gerado medo, quando pensamos como sobreviveremos nos próximos anos e séculos? Acaso, não sentimos nas entranhas que o passado foi apagado e de que pouco sabemos sobre o futuro, porque perdemos não só terra, mas também memória, experiência, afetos e ancestralidade? Portanto, as mobilizações geradas pelo fogo (queimadas) também gritam: Justiça!

As lutas feministas emergentes estão disputando outro sentido nessa realidade atrofiada, que graças ao progressismo, tem sido visível e recorrente a modernização da instrumentalidade do poder na Bolívia. Ao mesmo tempo, a politização que emerge dos medos que sentimos e das dores que enfrentamos estão disputando um conhecimento encarnado, com raízes profundas que não seriam possíveis sem relacioná-las com o corpo – corpo que sustenta a natureza e a natureza que sustenta corpo.

Portanto, estas lutas feministas emergentes nos mostram outras coisas da impunidade: em particular, que nós e as comunidades não fazemos parte desse pacto. Embora, sabemos que existem mulheres que mediam políticas extrativas, bem como, a expulsão feroz, a rede de cumplicidade que resulta na violência gestada contra nossos corpos e nossos territórios, não faz parte da nossa política, porque contra isso nós estamos rebelando.

Não somos herdeiras das logias[2], mas sim herdeiras das memórias de nossas avós e de suas comunidades e do povo indígena, que habitam(desde sempre) as terras baixas da Bolívia e que historicamente tem lutado e se mobilizado em torno ao território. Que saem e regressam as montanhas, habitando e indo além dos limites inventados pelo Estado-nação. São resistências que brotam dessa rebeldia, nesse habitar nômade de corpos que não se fixam por muito tempo num só lugar que a disputa é por relações mais integradas com as formas das quais se reproduze a vida nos seus territórios.

A rebeldia também, está em ocultar-se do capital e um claro exemplo são os povos indígenas que habitam esses territórios, que consiste numa luta histórica contra os donos de terras (latifundiários) e hoje se manifesta no capital agroindustrial. A rebelião desses povos, a igual que muitas lutas em que as mulheres tem guiado, estão questionando as estruturas clássicas sindicais. Sendo assim, elas tencionam e transformam a luta anticapitalista, porque não se encaixam no que emerge – que vem do hegemônico. Pensam, sentem, conhecem e anseiam por uma luta conectada: entre redes e territorialidades mais amplas.

As mulheres da Terra Indígena e Parque Nacional Isiboro-Secure (TIPNIS) já nos alertaram em 2011 da agonia da terra. Também as insurreições da década de 1990 nas planícies da Bolívia, as mulheres guaranis de Tacovo Mora, as que resistem as hidrelétricas e as expulsões territoriais e batalhas diárias. Por isso, a memória é um campo de disputa significativo, a luta contra os latifundiários é também a luta contra o patriarca, pois, seus pactos nos tem vulnerado na crise sistêmica que estávamos vivendo silenciosamente no país, mas que o voraz fogo das florestas acenderam o grito em meio às chamas. Fogo que arde e que destrói a vida.

[1] Os perdões instituídos em lei, conhecido como “perdonazos” otorgados entre 1996 a 2011, com reedicoes a partir de entao, ampliando as flexibilizacao das legislacoes ambientais.

[2] A palavra logias refere-se a grupos e associações maçônicas, as logias em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia organizam o poder nas mãos da oligarquia latifundista local.

 




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