Na sexta-feira, em uma aula no Instituto de Formação de Professores Vera Peñaloza, na cidade de San Martín, em Buenos Aires, uma aluna contou que Brenda vendia roupas usadas na mesma feira em Morón que ela, que havia se endividado com outros vendedores, que a viu pela última vez em março, que disse que não podia pagar e que os vendedores a expulsaram.

Ela nunca mais a viu até estes últimos dias, quando seu nome apareceu ao lado dos de Lara e Morena, primeiro em panfletos que circulavam nas redes sociais anunciando seu desaparecimento. E depois, como vítimas do mais terrível horror.

A cena foi contada pela professora do ESI, María Inés Persa. “Ainda estou comovida”, me disse ela neste sábado quando a contatei após ler sua história em uma publicação no Instagram do “Mulheres que não foram capas”.

Brenda del Castillo e Morena Verdi eram primas. Ambas tinham 20 anos. Lara Morena Gutiérrez, 15, era amiga delas. Brenda tinha um bebê de um ano. As três moravam em La Matanza.

As meninas não chegam à uma situação de prostituição por prazer. Nem ao mundo das drogas. A tortura que sofreram e a crueldade com que foram assassinadas são uma mensagem indelével em seus corpos.

Alguma delas teve algum relacionamento com o traficante que ordenou sua execução? Ficaram com dinheiro ou drogas de outra pessoa? Nada justifica sua execução brutal. Parece necessário destacar isso.

Embora um espectro diverso de jornalistas e especialistas ache isso repugnante — uma batalha cultural entre os dois — a desigualdade de gênero deve ser o guia para analisar os assassinatos de Brenda, Lara e Morena, juntamente com outros elementos da cena sinistra de suas mortes.

O triplo feminicídio de Florencio Varela se torna nebuloso quando se limita a um suposto acerto de contas. Também se torna nebuloso quando a narrativa se encerra na ligação com o tráfico de drogas. Um primo das meninas foi direto: elas não conseguiam encontrar emprego.

Além da busca por justiça, é preciso focar no contexto de precariedade no emprego, no desmantelamento de programas sociais voltados para os jovens e na feminização da pobreza. O panorama precisa ser ampliado e, nesse contexto, devemos incluir o plano econômico neoliberal do governo Milei, que impede muitas meninas (e meninos) de vislumbrar não apenas um futuro, mas também um presente.

Um em cada cinco jovens não estuda nem trabalha, mas a disparidade de gênero é clara: 22,5% das mulheres estão nessa situação, em comparação com 17,5% dos homens, de acordo com o relatório sobre a Situação Socioeducativa dos Jovens (EPH, 2º semestre de 2024, Observatório da Dívida Social da Universidade Católica da Argentina). No entanto, muitas dessas meninas estão, na verdade, assumindo tarefas de cuidado não remuneradas em suas casas.

A desigualdade se agrava com a pobreza: 34,6% dos jovens de famílias de renda muito baixa não estudam nem trabalham, em comparação com apenas 6,5% em famílias de renda média-alta. Essa diferença destaca a forte ligação entre vulnerabilidade socioeconômica e oportunidades de integração educacional e laboral.

Mas a situação atinge mais duramente as mulheres jovens, onde o desemprego chega a 19,2%, dois pontos percentuais a mais do que entre os homens. Há uma enorme disparidade de classe: em famílias de renda média-alta, 61,3% dos jovens estão empregados, enquanto em famílias de renda muito baixa, esse número mal chega a 32,2%.

A insegurança no emprego também está relacionada ao gênero: apenas 29% das mulheres jovens têm emprego registrado, em comparação com 34,1% dos homens.

Um dos maiores alvos dos ajustes implementados pelo governo Milei foram os programas sociais voltados à promoção da educação para jovens, como o Progresar — ​​cujo investimento caiu 63% em 2024. Como aponta um relatório da FUNDAR, essa queda é explicada quase igualmente pela queda nos benefícios (-30,7%) e nos beneficiários (-36,8%). Enquanto isso, os programas de subsídios para promoção ou preservação do emprego formal tiveram uma queda acentuada de 81% desde 2023.

O impacto deste triplo feminicídio, devido à sua brutalidade e espetacularização, trouxe-o à agenda pública. Mas não se trata de um incidente isolado: de 2020 a julho deste ano, foram registrados, pelo menos, 196 feminicídios em contextos relacionados às drogas, segundo o Observatório Nacional MuMaLá. 65% ocorreram em Santa Fé — especialmente em Rosário e Grande Rosário — e 17,5% em Buenos Aires.

As vidas de Brenda, Morena e Lara foram marcadas pela desigualdade e pela falta de oportunidades. A demanda por justiça de suas famílias deve ser ouvida por toda a sociedade.

Mas não basta que todos os envolvidos em suas mortes recebam as penas que merecem: o Estado deve garantir que nenhuma menina seja descartada. Não basta o choque com a brutalidade; é urgente exigir políticas de segurança que impeçam a disseminação do tráfico de drogas nos bairros populares, mas também programas sociais e educacionais que alcancem os jovens mais pobres e impeçam que outras meninas acabem esquartejadas em uma bolsa. 

Este artigo foi publicado originalmente no Página 12 e traduzido para o português pelo Portal Catarinas com autorização da autora.

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  • mariana-carbajal

    Jornalismo especializada em temas de gênero. Autora de diversos livros, entre eles “Yo te creo hermana” (Aguilar, 2019),...

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