Depois de ser alvo de mais de 20 processos judiciais, registros de ocorrência, ameaças, além de ver sua vida pessoal e a da filha, de sete anos, expostas nas redes sociais, a comunicadora Jennifer Lamounier, 38, decidiu se defender publicamente e denunciar as violências que tem sofrido por parte do jornalista Leonardo Stoppa, 46, seu ex-marido. 

Inicialmente desencorajada a falar sobre o caso, ela resolveu se posicionar após perceber que vinha sendo retratada de forma pejorativa e estereotipada, como a ex emocionalmente “instável” e “desequilibrada”.

“Já tentei ficar quieta, fugir da mídia, mas quanto mais me calo, mais ele cresce”, afirma ao Catarinas. 

O caso expõe uma dinâmica mais ampla do que um conflito conjugal. Ao longo de anos, a disputa pela guarda da filha se desdobra em uma escalada de violências de gênero que articula diferentes frentes: o uso reiterado do sistema de Justiça, a exposição pública nas redes sociais e a construção de narrativas que desqualificam a vítima. Na avaliação de especialistas ouvidas pela reportagem, esse conjunto de estratégias pode funcionar como mecanismo de controle, desgaste e silenciamento de mulheres em contextos de separação.

Stoppa mantém uma página no Instagram com mais de 80 mil seguidores e um canal no YouTube com mais de 460 mil inscritos, além de ter sido colunista do site Brasil 247, veículo de jornalismo com linha editorial de esquerda. Até então crítico da direita, ele construiu sua imagem pública no campo progressista, o que mudou oficialmente em janeiro deste ano. 

Em uma live de despedida, anunciou sua mudança de espectro político e, dias depois, juntou-se à caminhada do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), realizada em protesto contra a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. A mudança, segundo ele, ocorreu por conta da experiência pessoal com o processo de separação e com a disputa judicial pela convivência com a filha. 

Desde então, passou a defender, de maneira mais explícita, pautas associadas à direita e a ampliar críticas a políticas e narrativas que “fragilizam o papel paterno e a estrutura familiar”. Em suas redes sociais, apresenta-se como um pai afetivo, diz enfrentar dificuldades para ver a filha e publica conteúdos sobre alienação parental, da qual afirma ser vítima.

Dependência financeira e isolamento

Segundo Jennifer, mesmo após decidir pela separação, ela enfrentava dificuldades para concretizá-la. “Tinha uma criança pequena, vivia em isolamento, era pandemia e a situação financeira foi se tornando cada vez mais difícil”, lembra. Como ambos trabalhavam juntos — ela prestando suporte à produção de conteúdo, edição e gestão das redes sociais que, até então, eram do casal —, a comunicadora dependia dele financeiramente. 

Os conflitos começaram depois da gravidez, mas escalaram com desentendimentos familiares e a separação após quase dez anos juntos. Recém chegada a Ponte Nova (MG), onde moravam, ela estava longe da família, não conhecia ninguém na cidade e tinha dificuldade para criar vínculos. 

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Trecho do termo de Declaração registrado em junho de 2023 na Delegacia de Polícia Civil de Ponte Nova/MG, em que Jennifer Lamounier relata violência psicológica e patrimonial e solicita medidas protetivas contra Leonardo Stoppa.

Tempos depois, descobriu que as pessoas a evitavam por conta de comentários negativos que Stoppa espalhava sobre ela. Entre essas pessoas estava Edna Teixeira, advogada que hoje acompanha o caso e que, antes de conhecer a comunicadora, era amiga do jornalista. “Ele fazia todo tipo de pressão e humilhação e colocava ela muito servil”, afirma.

A internet foi seu meio de manter contato com amigas e construir redes de apoio até a separação de fato em 2022. “Era como se eu murchasse, o convívio social perdia a graça quando eu estava com ele”, descreve.

Em 2023, ela pediu uma medida protetiva contra Stoppa por violência doméstica, baseada no histórico de violência psicológica e patrimonial que denunciou. Por conta da determinação, ele saiu do imóvel em que moravam: um prédio que pertencia à família dele. Quando retornou para buscar seus pertences, levou diversos bens materiais que eram do casal, entre eles dois carros, uma moto e até eletrodomésticos, deixando-a “sem nada”. 

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Trecho da decisão sobre a medida protetiva concedida pela 2a Vara Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Ponte Nova, em 2023.

“Tudo o que ela trabalhou a vida inteira. Ela nunca teve acesso às contas [dele]. Ela não sabia quanto ele tinha no banco, não sabia quanto ele movimentava de dinheiro. E ela trabalhava junto”, ressalta a advogada Edna Teixeira. 

Escalada de intimidação

Jennifer e a filha continuaram vivendo no mesmo prédio, mas o período foi marcado por situações com o objetivo de forçá-la a sair, sem que o jornalista demonstrasse preocupação com o fato de ela ter ou não para onde ir com a criança. A comunicadora afirma que Stoppa usava outras pessoas, como a atual companheira, e o próprio sistema de Justiça para atingi-la, já que não poderia fazê-lo diretamente em razão da medida protetiva. “Quase toda semana chegava um oficial de Justiça ou a polícia para me convocar a prestar depoimento”, conta.

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Print de post da companheira de Stoppa. Para preservar sua identidade e a da criança, seus nomes estão borrados na publicação | Crédito: Reprodução.

Ela relata que passou a encontrar câmeras instaladas dentro do apartamento, além de sofrer com interrupções constantes de energia, disparo de alarmes e movimentação frequente de pessoas no prédio, tornando o ambiente cada vez mais hostil. Sua defesa reuniu fotos e vídeos dos episódios, aos quais a reportagem teve acesso. 

Segundo ela, uma das unidades do prédio foi alugada por valor abaixo do mercado para manter um homem no local, aumentando a sensação de intimidação. Em paralelo, Stoppa publicava em suas redes sociais posts endereçados à ex-companheira, a exemplo de um com o título “Como expulsar ratos da sua casa?”, ilustrado com imagens de câmeras de vigilância. 

Em outro episódio, ele enviou mensagens afirmando ter sido informado de que ela estaria envolvida com venda de drogas e alertando que isso poderia levar à prisão e prejudicar a filha. Jennifer entrou em desespero e, com medo que ele pudesse ter escondido alguma substância no apartamento, iniciou uma busca no local.

Além disso, foi alvo de uma ação de reintegração de posse do imóvel e precisou recorrer à Justiça para garantir o direito à moradia. Diante dessa escalada de intimidação, a comunicadora não queria mais permanecer na cidade, mas as ameaças do jornalista de que, se levasse a filha para longe estaria cometendo sequestro, a impediam.

Com poucos recursos financeiros, Jennifer conseguiu deixar o imóvel graças ao apoio de um grupo de mulheres. Entre elas, a advogada Edna e a filósofa e escritora Marcia Tiburi, que posteriormente também passou a ser alvo de ataques por parte do jornalista. 

Violências previstas na Lei Maria da Penha se sobrepõem

Hoje, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) reconhece cinco tipos de violência contra as mulheres: violência física, sexual, moral, psicológica e patrimonial. Em março, o Congresso Nacional  aprovou a inclusão da violência vicária na legislação, no contexto do PL 3.880/2024. O texto reconhece essa forma de violência como aquela em que filhos ou pessoas próximas são utilizados como instrumento para causar sofrimento, punir ou controlar a mulher, como no caso de Itumbiara (GO), ocorrido em fevereiro.

Thales Naves Alves Machado, então secretário municipal de Governo, assassinou os dois filhos, de 12 e 8 anos,  com o objetivo de atingir emocionalmente a mãe das crianças e sua esposa, Sarah Araújo, e depois tirou a própria vida. O projeto segue para a sanção presidencial.

Outras propostas legislativas também buscam ampliar esse escopo, incluindo formas como a violência digital (PL 116/2020) e a violência processual (PL 4830/2024), conhecida como assédio judicial, caracterizada pelo uso de procedimentos judiciais ou administrativos para perseguir, desgastar ou intimidar a mulher.

Já violência psicológica é crime tipificado no Código Penal, no artigo 147-B desde 2021, com pena de seis meses a dois anos e multa. Apesar disso, ainda há resistência no reconhecimento desse tipo de agressão, como explica a advogada criminalista Mayara de Andrade Bezerra, que atua na defesa de mulheres e meninas vítimas de violência sob uma perspectiva antidiscriminatória. 

Ela define esse tipo de violência como aquela que “retira a vitalidade da mulher, esvaziando progressivamente sua autoestima e capacidade de reação”. “Ela também pode ser reforçada pela violência moral, quando há desqualificações constantes, como dizer que ela não é uma boa mãe, que não faz nada direito”, emenda. No caso de Jennifer, sua defesa reúne provas de violência psicológica, moral, patrimonial, digital, processual e vicária.

Relatos unilaterais para engajar e arrecadar doações 

Segundo a advogada Bruna Morato, que compõe a defesa de Jennifer, Stoppa passou a mobilizar seus seguidores com pedidos de doações via Pix feitos em nome da criança, ancorados na versão de que estaria com dificuldades financeiras e impedido de exercer a paternidade. No entanto, conta a advogada, as contribuições são direcionadas para a conta de terceiros a fim de evitar que os valores sejam contabilizados na pensão alimentícia da criança — a quem ele diz amar.

Stoppa alega ainda que a medida protetiva em vigor o impede de ver a filha. A defesa do jornalista chegou a pedir sua revogação, sob o argumento de que as acusações seriam falsas e motivadas pelo término do relacionamento. O Judiciário, no entanto, manteve a decisão, destacando seu caráter cautelar e a necessidade de resguardar a vítima.

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Trecho do pedido de revogação da medida protetiva solicitada pela defesa de Leonardo Stoppa em 2023.

Questionada pela reportagem, Jennifer admite que há um impasse. Ela explica que Stoppa costumava buscar e levar a filha à escola, mas abriu mão das visitas, inicialmente fixadas em 4 dias mensais. Recentemente, ele voltou a protocolar um pedido para ver a criança, mas até o momento não há decisão judicial específica sobre o tema. “Estamos em um ponto complicado do processo, porque não tem decisão do juiz para ele pegar, mas também não tem proibição”, afirma Jennifer.

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Decisão de setembro de 2024 do 3º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Comarca de Belo Horizonte sobre a manutenção de medida protetiva solicitada por Jennifer Lamounier contra Leonardo Stoppa.

Bruna acrescenta que, em diferentes momentos, o próprio Stoppa pediu suspensão das visitas ou deixou de comparecer. A advogada reforça que a narrativa divulgada por ele nas redes sociais distorce o que consta nos autos. “Foi então que percebi que ele estava produzindo relatos unilaterais para publicar na internet, gerar engajamento e arrecadar doações com base em uma história que não corresponde aos fatos”, afirma.

Caso é marcado por tensão e insegurança 

Ela destaca ainda a apreensão em torno do caso. “Diante de toda essa tensão, temos medo que ele faça alguma coisa”, revela. Essa insegurança se justifica diante da forma como Stoppa narra o caso e interpreta o debate público sobre violência de gênero. Em uma de suas lives, ele sugere que o aumento das discussões sobre feminicídio pode gerar ressentimento e ódio entre homens e mulheres, o que, segundo ele, pode contribuir para o aumento desse tipo de crime.

“Cheguei à conclusão de que essa é a estratégia para aumentar o feminicídio. Porque, todas as vezes que você cria situações para que o homem fique com ódio da mulher, você cria condições para o feminicídio”, disse em live.

“Eu entreguei a minha carreira nas mãos da esquerda que foi incapaz de resgatar a minha filha de uma alienação parental que foi iniciada por um grupo de esquerda ​”, emendou em outro trecho. 

Na transmissão, Stoppa afirma que “a esquerda criou um inimigo que é o feminicídio” para mobilizar apoio político, tomada por uma pauta “identitária” e deixou de priorizar outras agendas sociais, como o combate à fome. Além disso, diz ter visto em estatísticas — sem citar quais — que mais homens são assassinados em contextos de violência doméstica do que mulheres. 

Em 2025, circulou amplamente nas redes sociais um vídeo com a mesma desinformação, logo desmentida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – parceiros no “Atlas da Violência”. Embora os homicídios de homens representem a maioria das mortes violentas no país, os dados oficiais mostram que esses crimes ocorrem majoritariamente por armas de fogo, em contextos urbanos e relacionados a disputas criminais, e não em ambientes de violência doméstica ou familiar. 

Lei de Alienação Parental configura nova forma de violência de gênero

Outro tema frequente em posts e lives do jornalista é a alienação parental. O conceito é utilizado para descrever situações em que um dos responsáveis tenta interferir na relação da criança ou adolescente com o outro genitor, por meio de manipulação emocional ou da criação de narrativas que possam prejudicar esse vínculo. No Brasil, o tema é regulamentado pela Lei nº 12.318/2010, que prevê medidas para coibir práticas consideradas prejudiciais à convivência familiar.

No entanto, sua aplicação é alvo de críticas de organizações feministas e de especialistas em direitos humanos. Segundo a advogada Rúbia Abs, mestra em Direitos Humanos e coordenadora nacional do Comité de América Latina y el Caribe para la Defensa de los Derechos de las Mujeres (Cladem), a Lei da Alienação Parental tem sido frequentemente acionada em disputas familiares para descredibilizar denúncias de violência feitas por mães contra ex-parceiros ou pressioná-las no processo de separação. 

A acusação de alienação parental aparece como parte de uma estratégia para prolongar o litígio, evitar o pagamento de pensão alimentícia e como mais uma forma de controle sobre a mulher, gerando desgaste emocional e econômico para mães e crianças envolvidas.

“As mulheres acabam tendo que provar continuamente que estão protegendo os filhos, enquanto suas palavras e relatos são colocados em dúvida”, explica Rubia.

Jennifer afirma que essa foi a primeira estratégia acionada por Stoppa no processo de divórcio e guarda da filha, que tramita em segredo de justiça. “Ele alegou que eu era ‘louca’, ‘esquizofrênica’, que não alimentava bem a criança, que tinha animais peçonhentos dentro da casa”. Por isso, o medo de perder a guarda aumentou seu receio de sair da cidade. “Eu precisava ter respaldo legal para tudo, para conseguir me mover com tranquilidade e não correr o risco de perder minha filha por um ‘vacilo’ meu”, diz.

A lei define alienação parental como a interferência na formação psicológica da criança por parte de um genitor ou responsável, com o objetivo de prejudicar ou dificultar o vínculo com o outro genitor. A comunicadora afirma identificar esse tipo de conduta em vídeos de Stoppa direcionados à filha: “Bom dia, Júlia*, vou te contar a historinha da Rapunzel”, conta sobre como ele abre um dos vídeos publicados em redes sociais. 

“Aí ele faz aquela analogia da mãe narcisista, como se fosse eu. Depois: ‘Bom dia, Júlia*, estou passando na porta da sua casa, mas não posso te visitar porque a mamãe brigou com o papai’. Isso é claramente alienação parental em público. Mas prefiro não usar esse termo; chamo de violência vicária.” 

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Prints de shorts do canal no Youtube de Leonardo Stoppa.

Ela relata episódios que considera prejudiciais à saúde mental da filha quando a criança ficava com o pai: era exposta a filmes de terror impróprios para a idade, submetida a brincadeiras que testavam sua resistência a permanecer acordada por longos períodos e sofria negligência em cuidados básicos — como alimentação, higiene e material escolar — muitas vezes deixados a cargo de terceiros que nem sempre assumiam essa responsabilidade.

“O inimigo é o homem”

Enquanto isso, Stoppa defende a Lei de Alienação Parental em suas redes sociais e transmissões “ao vivo”, afirmando que as críticas à norma fazem parte de uma disputa ideológica, inserida em uma lógica de “guerra de gêneros”. Em suas falas, igualmente minimiza denúncias de violência feitas por mulheres e deslegitima mecanismos de proteção, como a Lei Maria da Penha. 

Essa retórica está diretamente alinhada com o discurso de grupos Red Pill e outras correntes masculinistas, que buscam intimidar mulheres e silenciar denúncias de violência doméstica, além de proteger pais acusados de pedofilia.

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Print de Stoppa sendo parabenizado pelo Instituto de Defesa dos Direitos do Homem, organização que propaga discurso masculinista e diz proteger os direitos de homens e meninos.

“A esquerda não tem mais a guerra entre patrões e empregados, não tem mais a guerra entre a elite e os pobres, porque todos se acham ricos. O dividir para conquistar da esquerda acabou. E, nessa circunstância, é preciso criar um outro inimigo. O inimigo é o homem. A esquerda se une para proteger a mulher, mas, para proteger a mulher do homem, está acabando com as famílias”, disse na live de despedida.

Debate sobre a lei extrapola divisões ideológicas

Diferentemente do que costuma ser colocado por grupos masculinistas, o debate sobre a norma extrapola divisões ideológicas, já que políticos de direita também questionam sua aplicação. O senador Magno Malta (PL-ES), por exemplo, propôs sua revogação com o Projeto de Lei nº 1.372/2023; enquanto a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) apresentou relatório favorável à revogação na Comissão de Direitos Humanos do Senado, onde a proposta segue em discussão.

Em dezembro de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a revogação (PL 2812/2022), sob o argumento de que a norma não gerou os efeitos esperados na redução de abusos, além ter permitido a aplicação de medidas consideradas severas sem suficiente embasamento técnico, o que poderia desvirtuar sua finalidade. O texto deve seguir em tramitação no Senado em 2026. Enquanto isso, a lei permanece em vigor.

Entre os defensores da revogação estão a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do Ministério Público Federal, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), o Conselho Federal de Psicologia (CFP), defensorias públicas, além de instâncias internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU). O Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAN), por sua vez, se destaca como exceção, defendendo a permanência da lei apesar de apontar falhas em sua aplicação. 

Rubia aponta a problemática da teoria que deu origem à lei, a chamada Síndrome da Alienação Parental (SAP), formulada pelo psiquiatra norte-americano Richard Gardner na década de 1980, mas que nunca teve sua cientificidade aprovada por pares. Segundo ela, “Richard Gardner, que cunhou essa terminologia, era defensor de abusadores sexuais e afirmava que o problema não era a criança ser abusada, e sim o “problema” que as mães criavam por conta disso”.

Enquanto isso, dados do Painel Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram um aumento das ações judiciais relacionadas à alienação parental: a quantidade de casos novos passou de 4.331 em 2020 para 8.409 em 2025, um aumento de aproximadamente 94%, com alta contínua ano a ano.

“O Judiciário já dispõe de toda a legislação necessária para atuar caso ocorra algum tipo de manipulação, não sendo necessária essa lei que discrimina mulheres e crianças, faz sofrer toda a família e empurra os litígios para cinco ou seis anos de sofrimento”, completa Rubia. 

Misoginia e ataque nas redes sociais

Pessoas que ofereceram apoio ou algum tipo de suporte à Jennifer também se tornaram alvo do jornalista. É o caso de Marcia Tiburi, acusada de coordenar o grupo de mulheres de esquerda que “se uniu para destruí-lo”, “destruir sua família” e “levá-lo ao suicídio”.

Segundo Stoppa, o grupo não teria lhe dado oportunidade para apresentar sua versão da história. Ele afirma possuir provas registradas em “gravação de circuito fechado de televisão”, por exemplo, e diz que poderia tê-las apresentado se tivesse tido a chance. “Fui acusado por essas 50 mulheres de ter deixado a minha ex-mulher aqui em Ponte Nova desamparada, passando fome. No entanto, no início, o primeiro movimento de separação deu para ela uma pensão de um salário para a filha e um terço do salário mínimo para ela”, emendou. Este último ponto foi confirmado por Edna Teixeira que explica que a pensão demorou para sair. 

Marcia, por sua vez, afirma que não o conhece pessoalmente e que foi procurada por uma amiga para ajudar Jennifer, por conta de sua atuação como conselheira e colunista do Brasil 247, veículo em que Stoppa também trabalhava. A partir desse contato, ela se colocou à disposição para ajudar.

“O que me tocou naquela época foi que ela estava numa situação em que precisava sair daquele lugar; a impressão que eu tinha era de que ela vivia uma espécie de cárcere privado, em função do abandono que vivia com aquela criança e de todo um contexto de violência psicológica”, diz a filósofa.

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Prints de mensagens recebidas pela escritora Marcia Tiburi após ser mencionada por Leonardo Stoppa em lives e posts.

Até então, ela sequer havia mencionado publicamente o nome do jornalista, o que não o impediu de avançar com ataques misóginos, chamando-a de “invejosa” e desqualificando a vasta produção acadêmica e literária da escritora. “Eu citei a situação e acho que ele vestiu a carapuça. A partir daí, ele passou a me atacar. Por isso, minha advogada decidiu processá-lo, principalmente com pedidos de retirada de conteúdo, para impedir a continuidade da divulgação de mensagens misóginas contra mim.”

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Print da decisão favorável à filósofa e escritora Marcia Tiburi.

A Justiça concedeu medidas cautelares em favor da escritora, determinando que o jornalista não se aproxime a menos de 300 metros dela, não mantenha qualquer tipo de contato — inclusive por terceiros — e remova o conteúdo que a menciona de todas as plataformas onde esteja publicado. O descumprimento dessas determinações pode levar à prisão preventiva, nos termos do artigo 282, parágrafo 4º, do Código de Processo Penal.

Profissionais acionados no caso se tornaram alvo de retaliação

Profissionais que prestaram assistência à Jennifer foram alvo de ações. Segundo Edna, o jornalista processou a terapeuta responsável pelo acompanhamento psicológico da criança para descredibilizar a profissional. “Ele investiga a vida das psicólogas e entra com um processo contra elas. É desse jeito que ele faz”, afirma.

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Prints de posts feitos por Stoppa em suas redes sociais.

Já um engenheiro elétrico que realizou uma avaliação técnica no imóvel em que Jennifer e a filha moravam em Ponte Nova, por conta dos constantes cortes de energia e internet, foi denunciado ao conselho profissional sob alegação de que não teria prestado o serviço para o qual foi contratado. A defesa da comunicadora precisou reunir provas, como fotografias, vídeos e depoimentos de testemunhas, para comprovar a presença do profissional no local e evitar novas acusações.

Para Edna, esse movimento tinha como objetivo descredibilizar Jennifer. “Como ele ajuizou uma ação contra ela por denunciação caluniosa, injúria e difamação, tudo o que ele pudesse fazer para colocá-la como ‘mentirosa’ ou ‘fraudadora’, servia para reforçar essa narrativa.”. 

Ela afirma ainda que alguns profissionais se recusaram a prestar serviços no imóvel por receio de retaliações da família de Stoppa. “Três dos que chamamos se recusaram, dizendo que não iriam se submeter a esse tipo de situação”, conta. 

Jennifer chegou a morar por cerca de cinco meses na casa de um casal que se sensibilizou com a situação, mas eles também sofreram retaliações.

“Todo mundo que tentou falar do meu caso ou me ajudar acabou sofrendo algum tipo de retaliação. Alguns foram processados, outros sofreram ataques públicos e, no caso da família que me acolheu, chegaram a ser expulsos [da casa onde moravam]”, relata.

Por medo de novas represálias, eles preferem não ter seus nomes mencionados. 

Revitimização das mulheres é padrão em casos dessa natureza

De acordo com a advogada Mayara de Andrade Bezerra, a reiteração de múltiplas formas de violência contra a mulher é um padrão em casos dessa natureza. No caso de Stoppa, a visibilidade pública projeta o conflito para o ambiente digital, mas, de modo geral, as estratégias utilizadas são alinhadas à violência de gênero. 

As práticas de vulnerabilização das mulheres, explica a advogada, se adaptam à realidade e às ferramentas disponíveis de quem as pratica, mantendo a mesma lógica estrutural de controle, deslegitimação e silenciamento.

“O que percebemos é que a violência nunca aparece sozinha. No mínimo, ela se manifesta em dupla ou em cadeia, porque uma forma de violência acaba reforçando a outra. Quando se dá a violência física, por exemplo, já houve a violência moral e psicológica antes”, expõe. 

No ambiente digital, mesmo quando não há menção direta à pessoa alvo do ataque, publicações, vídeos ou conteúdos nas redes sociais podem conter referências implícitas, permitindo associação posterior. “Uma vez feita essa conexão, dificilmente conseguimos desconstruí-la apenas com retratação ou republicação, porque isso fica incutido na cabeça das pessoas”, afirma Mayara. 

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Prints de posts feitos por Stoppa em suas redes sociais.

Outro padrão é a tentativa do agressor de inverter o lugar de vítima por meio de narrativas sem comprovação objetiva. Em casos de ex-casais que possuem filhos em comum, esse vínculo pode ser utilizado justamente para sustentar esse papel. “Eles se colocam como impedidos de ver o filho, mal compreendidos e injustiçados, e isso faz parte do processo de violência”, acrescenta.

Esse contexto se relaciona às desigualdades econômicas, considerando que, socialmente, é comum que o homem tenha maior controle ou gerenciamento do patrimônio do casal e, consequentemente, maior acesso a recursos jurídicos e sociais para sustentar essas estratégias.

“Quem tem dinheiro tem maiores condições de constituir defesa técnica qualificada, contratando um advogado especialista, e de estruturar adequadamente a propositura de ações judiciais. Já quem não tem, muitas vezes depende da Defensoria Pública, que realiza um trabalho importante, mas enfrenta dificuldades para atender a alta demanda com a rapidez necessária. Isso cria um desequilíbrio que parte desse lugar social e vai para dentro do judiciário”, explica a advogada. 

Violência de gênero é naturalizada, mas denúncia é fundamental

O cenário enfrentado por mulheres vítimas de violência de gênero é marcado pela naturalização dessas agressões, que não cessam quando elas denunciam ou buscam apoio institucional. Mayara de Andrade analisa que as instituições ainda não incorporaram plenamente a perspectiva de gênero em suas práticas, o que dificulta o enfrentamento dessas situações e torna o processo de defesa mais complexo para as vítimas.

“Fui ao Ministério Público perguntar sobre minha medida protetiva, mas fui informada de que não havia nenhum registro lá, apenas na delegacia. Quando voltei lá para falar com a delegada, ela me reconheceu e disse: ‘Ah, é você?’. Em seguida, mandou que eu procurasse o CRAS [Centro de Referência de Assistência Social], dizendo que meu problema era psicológico e não deveria ser tratado ali”, relembra Jennifer sobre como foi deslegitimada na delegacia. 

Mesmo assim, Mayara ressalta que denunciar continua sendo fundamental. “É extremamente necessário, inclusive porque é justamente o que os autores da violência esperam que não seja feito. A ausência de denúncia é muito confortável para que eles continuem praticando violências contra a vítima atual e outras possíveis vítimas, se é que elas já não existem”, afirma. 

Para que a denúncia seja efetiva e a vítima protegida, o ideal é buscar apoio jurídico ou uma rede de suporte antes de formalizar a queixa. No mesmo sentido, é recomendável não ir sozinha à delegacia e recorrer a núcleos especializados de atendimento à vítima, como os existentes em iniciativas do Ministério Público, que contam com equipes preparadas para atuar com perspectiva de gênero. Além disso, é importante compreender como cada tipo de violência é investigado e como as provas podem ser apresentadas.

No caso da violência psicológica, que nem sempre deixa marcas visíveis, a forma mais segura de demonstrar o dano emocional é por meio de documentos técnicos, como laudos ou relatórios elaborados por profissionais da psicologia. Recentemente, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que é possível comprovar o dano emocional, necessário para caracterizar o crime de violência psicológica, por meio de declarações da vítima, depoimentos de testemunhas e mensagens de texto, dispensando a obrigatoriedade de laudo pericial. 

“O laudo técnico é importante porque a ausência dele abre margem para maior discussão, já que se trata de uma análise que envolve elementos subjetivos”, completa Mayara. Ela recomenda que a mulher busque acompanhamento psicológico, pois ele contribui tanto como registro técnico quanto para o fortalecimento emocional da vítima.

Cada tipo de violência possui forma própria de investigação e processamento no âmbito policial e judicial. Segundo o STJ, a comprovação do dano causado pela violência garante direito à reparação civil, independentemente da existência de processo criminal.

“Eu não estou sozinha”

Para dar visibilidade ao caso e tentar ajudar outras mulheres que enfrentam situações semelhantes, Jennifer tem compartilhado sua história em entrevistas e redes sociais.

“Percebi que não estou sozinha. Há muitas mulheres que enfrentam violência jurídica, institucional, doméstica, perseguição digital, etc. No meu caso, o agravante é que ele é uma figura pública e tem muita energia para vingança. Então, o processo virá. Ele vai querer processar, ele vai querer direito de resposta”, expõe.

Os dados reforçam a dimensão desse cenário. Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, em 2025 cerca de 3,7 milhões de mulheres relataram ter sofrido violência doméstica ou familiar nos últimos 12 meses. A subnotificação é significativa: 29% das entrevistadas não se consideram vítimas, mas descrevem situações compatíveis com agressões, o que eleva o número potencial de mulheres afetadas para cerca de 25 milhões. 

A pesquisa destaca ainda as novas formas de violência, como a digital, com 5% das mulheres recebendo mensagens ofensivas ou ameaçadoras de forma recorrente, e mostra que, em 71% dos casos, outras pessoas, incluindo crianças, estavam presentes no momento da agressão. Além disso, mais da metade das entrevistadas (58%) afirmaram conviver com situações de violência há mais de um ano e a preocupação com os filhos aparece entre os principais motivos para não ter denunciado a agressão.

Por fim, Jennifer alerta para a necessidade de não deixar seu caso cair no esquecimento e para o risco em que se encontra: “A violência não acabou, e a promessa dele é voltar com força total. Não podemos deixar o assunto morrer. O agressor está sempre buscando uma brecha para continuar.” 

*Utilizamos um nome fictício para proteger a identidade da criança.

*A reportagem entrou em contato com o jornalista Leonardo Stoppa para pedir um posicionamento sobre o caso, mas até a publicação da reportagem não houve retorno. 

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  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

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3 Comentários

Marlene de Fáveri em 17 de abril de 2026

Excelente reportagem, Kelly. Agressores machistas querem naturalizar o direito de agredirem mulheres praticando violências e não serem punidos. Uma criança sendo violentada assim, que triste. Uma mulher tentando se defender. o patriarcado é cruel.

Jéssica Leandro em 17 de abril de 2026

Que esse nojento/Genitor possa ver o quão errado ele está. é um caso extremamente desumano com a mãe de uma criança que vai dar amor e carinho! conte comigo Jennifer

Genoveva Moraes em 16 de abril de 2026

Esse caso é tão absurdo! Tão desumano! O agressor não dá um dia de trégua para mãe e filha. Ele destruiu a vida dessas duas mulheres. Jennifer, sinto muito por essa situação desumana e cruel. Nenhuma mulher deveria ter que passar por isso. Força e coragem!

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