A comunidade do Morro do Mocotó, localizada no Maciço do Morro da Cruz, é uma das mais antigas e densamente habitadas de Florianópolis (SC). Suas ladeiras, escadarias, vielas e paredes coloridas compõem o cenário que abriga mais de oito mil moradores, que convivem cotidianamente com a ausência de políticas públicas, mas também constroem redes de solidariedade, resistência e expressão da força cultural do território. 

De acordo com pesquisas realizadas sobre segurança pública, em 2025, a capital registrou recorde de mortes decorrentes de ações policiais e, nas periferias, essas intervenções representam a maioria dos casos violentos atribuídos à polícia local. Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em parceria com a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) reforçam esse quadro ao indicarem a presença constante da polícia nas comunidades, muitas vezes associada a abordagens que ultrapassam o uso necessário da força e configuram abuso de poder.

Operações recentes, como a de fevereiro deste ano, que resultou na morte de um morador da comunidade, também apontam para a necessidade de um olhar mais atento e crítico à região, em uma perspectiva que a reconheça em sua diversidade, potencialidades e direitos.

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Morro do Mocotó | Crédito: Jéssica Michels/Portal Catarinas.

O Portal Catarinas esteve no Morro do Mocotó para conhecer de perto os desafios cotidianos e a atuação das mulheres na articulação de redes de apoio, projetos socioeducacionais e iniciativas culturais dentro e fora da comunidade. Elas estão na linha de frente das histórias de resistência e criatividade, mantendo o território vivo e com possibilidades de futuro.

Cultura como transformação social

A iniciativa de construir um espaço comunitário voltado à cultura, à educação e à valorização da identidade negra nasceu após um momento de dor: a morte de um jovem da comunidade. Para Ana Cristina Silva Bittencourt Antunes, educadora, coreógrafa e fundadora do Grupo Mittos, o momento de luto revelou a necessidade de criar um ambiente de união e cuidado com crianças e jovens, oferecendo caminhos de arte, educação e esperança.

Somando 30 anos de atuação, o projeto criado em 1996 desenvolve atividades como dança afro, percussão, teatro, reforço escolar e pré-vestibular, atendendo crianças, adolescentes e jovens da comunidade. A proposta é ampliar oportunidades e fortalecer trajetórias educacionais, ao mesmo tempo em que valoriza os saberes ancestrais e a cultura do território. 

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Anelise Rosa, diretora do Grupo Mittos, e Ana Cristina Silva Bittencourt Antunes, coordenadora | Crédito: Jéssica Michels/Portal Catarinas.

A atuação também se estende ao campo social e à construção de pertencimento na comunidade. Além das atividades culturais, o grupo já organizou campanhas de arrecadação de alimentos, roupas e apoio a famílias em situação de vulnerabilidade.

Hoje, o Grupo Mittos atende cerca de 108 crianças e jovens em sua sede localizada dentro do Morro, e também se destaca fora da comunidade, participando de eventos culturais e oficinas abertas ao público.

“Nossas ações contribuem para o fortalecimento da autoestima, da identidade cultural e da cidadania, como uma experiência de organização comunitária, que articula cultura, educação e ancestralidade como instrumentos de resistência, pertencimento e transformação social dentro do território”, pontuou Ana. 

Meninas de Fibra e a independência financeira 

“Eu pegava as escamas de peixe na casa de minha avó, limpava e colocava nas unhas das minhas primas. Foi assim que comecei a me encontrar desde muito cedo em uma área que, no futuro, se tornou minha profissão, meu projeto de vida”, lembra Alessandra Lima, empreendedora e idealizadora do primeiro projeto social de nails do Brasil Meninas de Fibra.

A iniciativa surgiu com o objetivo de capacitar mulheres da comunidade com oficinas e cursos profissionalizantes na área da beleza, como: maquiagem, manicure tradicional, unhas de fibra de vidro, molde f1 (técnica de alongamento de unhas feita com moldes prontos que facilitam a aplicação), nail design completo, plástica dos pés e papel de parede líquido. As oficinas buscam promover a autonomia financeira, estimular o protagonismo feminino e ampliar oportunidades de trabalho de meninas e mulheres que passam por vulnerabilidade social. 

Nascida e criada no Morro do Mocotó, Alessandra conta que a ideia de criar o projeto surgiu da própria vivência: “Quando me especializei na minha profissão, percebi que muitas pessoas da comunidade buscavam uma oportunidade de aprender e garantir sua própria renda, especialmente mulheres. Foi então que comecei inicialmente a oferecer vagas solidárias, permitindo que participassem das formações gratuitamente. A iniciativa foi ganhando força com o tempo e, em 2020, realizamos o primeiro curso na comunidade, formando 60 pessoas e abrindo caminhos para a autonomia financeira de muitas delas”, relembra. 

O projeto já recebeu reconhecimento em premiações. Em 2023, Alessandra foi laureada com o Prêmio Floripa Faz Bem, na categoria Educação, que homenageia iniciativas que contribuem para educação, esporte, cultura e meio ambiente. Atualmente o projeto está na nona edição.

Maria Eduarda Silva, mulher negra e mãe solo, foi criada na comunidade da Mariquinha, próxima ao Morro do Mocotó, ambas localizadas no Maciço do Morro da Cruz. Participante da capacitação do projeto, ela hoje é proprietária do próprio estúdio de nail design no Morro.

“Sou fruto deste projeto. Hoje tenho meu próprio espaço de trabalho onde conquistei autonomia e independência financeira. Meu estúdio também oferece serviços de massoterapia. Projetos sociais transformam vidas, e eu sou a prova viva disso”, destaca.

Ela critica a forma como muitas vezes a comunidade é observada e percebida de forma equivocada pelo Estado e por parte da sociedade: “A gente vem desconstruindo a ideia de que no morro só tem violência. Somos uma comunidade cheia de histórias de acolhimento e redes de apoio. Tenho clientes de dentro e fora da comunidade, e cada pessoa que recebo aqui, busco mostrar que o morro não é só violência, pelo contrário, aqui tem oportunidade e educação. Tenho muito orgulho de construir meu trabalho aqui”.

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Maria Eduarda Silva | Crédito: Jéssica Michels/Portal Catarinas.

Ressocialização e impacto no presídio feminino 

Em Florianópolis, o cárcere feminino revela dinâmicas além do encarceramento. O Presídio Feminino da capital, única unidade exclusiva para mulheres em Santa Catarina, abriga aproximadamente entre 100 e 120 mulheres privadas de liberdade, número próximo à capacidade da unidade. Estudos indicam que o trabalho no cárcere frequentemente se relaciona mais a mecanismos de controle e interesses econômicos do que à reintegração social das mulheres. 

Na dissertação de mestrado da antropóloga Isadora de Assis Bandeira, a pesquisadora buscou compreender como funciona o trabalho realizado pelas mulheres presas no presídio feminino de Florianópolis. Os resultados mostram que os efeitos do encarceramento extrapolam os limites físicos da prisão. O cárcere não impacta apenas as mulheres privadas de liberdade, mas também reconfigura as dinâmicas de suas redes externas, especialmente entre mães, filhas e companheiras, que passam a assumir responsabilidades adicionais de cuidado e a lidar com sobrecargas na saúde mental e na vida social e financeira.

Pensando nesse cenário, um dos pilares do Meninas de Fibra, segundo Alessandra, é a atuação em presídios femininos. O projeto envolve capacitação profissional a mulheres privadas de liberdade com a ministração de oficinas: “O presídio não é o ponto final, mas o começo de uma nova história. Elas podem se reintegrar à sociedade com autonomia e oportunidade de trabalho”, afirma.

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Turma de participantes do Meninas de Fibra | Crédito: SEJURI SC.

Ela também reforça que a iniciativa atende a todas as comunidades de Florianópolis e respeita a diversidade: “Com cursos que unem técnica e cidadania, a gente segue fortalecendo mulheres e abrindo caminhos de autonomia, educação e empreendedorismo, mostrando que, com fibra e determinação, é possível transformar realidades e construir novas perspectivas de futuro”.

Educação quilombola e pertencimento como identidade 

O resgate da ancestralidade também é ferramenta de transformação e pertencimento. Remanescente do Quilombo Santa Cruz, em Paulo Lopes (SC), a educadora Letícia Rosa de Jesus da Silva é formada pela educação quilombola e coordena o Núcleo Quilombola do Morro do Mocotó. Há seis anos, ela lidera um trabalho que articula educação, cultura e identidade para famílias remanescentes quilombolas da região.

Também nascida e criada no Morro do Mocotó, Letícia vive uma prática educativa que transborda os muros da escola e reconecta gerações. “Minha função dentro da comunidade é fazer o resgate da nossa ancestralidade, trazer o conhecimento da nossa identidade e pertencimento, pois muitos ainda nem sabiam que eram remanescentes”, conta. 

No estado de Santa Catarina, existem cerca de 21 comunidades quilombolas identificadas, sendo 17 certificadas pela Fundação Cultural Palmares e apenas algumas com terras tituladas, o que evidencia desafios históricos na garantia de direitos territoriais. Segundo dados do IBGE e da Secretaria de Assistência Social de Santa Catarina, a população quilombola do estado soma cerca de 4.500 pessoas, distribuídas em 16 municípios, sendo que grande parte vive fora de territórios oficialmente reconhecidos e enfrenta dificuldades no acesso a políticas públicas de educação, saúde e infraestrutura. 

Apesar dos desafios estruturais, essas comunidades mantêm vivos seus saberes, sua cultura e suas práticas coletivas, enquanto iniciativas de valorização dos conhecimentos tradicionais fortalecem o protagonismo social e ampliam o reconhecimento de seus direitos.

“A maneira mais fácil de libertar o nosso povo que ainda é escravizado pelo sistema é através da educação, porque a educação é libertação, e a partir daí vêm oportunidades melhores de vida”, destaca. 

Letícia, que também é estudante de Pedagogia na UFSC, coordena turmas que vão da alfabetização ao ensino médio, atendendo famílias remanescentes quilombolas que vivem no Morro do Mocotó. Ao longo dos anos, já foram formadas mais de 40 turmas, com dezenas de jovens que hoje ingressaram em universidades e cursos técnicos. Atualmente, o território reúne cerca de 57 famílias remanescentes.

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Letícia Rosa de Jesus da Silva (de camiseta preta, ao centro do fundo) e uma das turmas da Educação Quilombola | Crédito: arquivo pessoal.

Entre seus grupos, há uma turma composta por senhoras, com idades entre 54 e 81 anos. “É um prazer aprender com elas. A gente aprende mais do que ensina, a partir das vivências e da ancestralidade, da cultura, de tudo o que elas passaram desde a formação pela nossa comunidade, começada pelos avós”, conta. Para ela, esses saberes ancestrais, convertidos em práticas pedagógicas, são a base de uma educação emancipatória.

“Eu creio que uma educação humanizada e mais acolhedora, que vá além dos muros do colégio, é libertadora. Alguns estudantes trabalham arduamente, e buscam dentro da escola a humanização e o acolhimento que não encontram fora da educação quilombola. Eles sentem esse espaço como segunda casa”, finalizou.

Conectar o asfalto à comunidade e à cultura do morro

No alto do Morro do Mocotó, um quintal de família se transformou em um dos espaços mais simbólicos da nova dinâmica cultural e turística da comunidade. O Pico do Mané Bar Favela, com vista privilegiada para a Baía Sul e para a Ponte Hercílio Luz, é um bar que atrai encontros entre moradores e visitantes.

À frente do espaço está Karen Borges, uma das proprietárias do espaço cultural:

“Entendo essa iniciativa como uma das maiores quebras de paradigma: a nossa maior missão é conectar o asfalto com a comunidade, é fazer o asfalto subir e vivenciar a cultura do morro. É o nosso maior desafio e também a nossa maior realização”. 

Ela conta que cerca de 90% do público vem de fora da comunidade, interessado em conhecer uma realidade diferente daquela frequentemente retratada. “Há muito estigma sobre violência, mas é totalmente diferente do que a mídia mostra. Aqui tem muita criança, cultura, lazer, pessoas inteligentes e muita arte”, completa.

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Pico do Mané Bar Favela | Crédito: arquivo pessoal.

A história do Pico do Mané também é atravessada por recomeços. A ideia surgiu a partir do irmão de Karen, Tiago Borges, que, ao sair do sistema prisional, encontrou dificuldades para se reinserir no mercado de trabalho.

“Ele queria mudar de vida e ter um novo começo, mas ninguém dava oportunidade. Então começamos com uma mercearia pequena no quintal da casa da nossa vó, vendendo peixe congelado”, relembra. Com o tempo, a iniciativa cresceu, passou pela venda de frango assado e ganhou visibilidade nas redes sociais, sempre com o objetivo de atrair pessoas de fora para dentro do morro. 

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Pico do Mané Bar Favela. O grafite homenageia a artista Valda Costa, do Morro do Mocotó, que retratava a comunidade em suas obras. Ela faleceu em 1993 | Crédito: Jéssica Michels/Portal Catarinas.

“A gente começou colocando música, e as pessoas foram percebendo que queriam mais, queriam um bar, um espaço turístico. Hoje já conseguimos estruturar isso e crescemos muito a partir daí. Também conseguimos uma casa bem maior para nossa avó morar”, conta.

As abordagens policiais em territórios periféricos ainda representam um desafio cotidiano para quem mantém iniciativas na comunidade. “A abordagem policial é sempre mais agressiva, de uma forma que não se vê fora das comunidades. Por isso, precisei instalar câmeras em todo o estabelecimento para me proteger da violência policial”, relata.

“Viver nosso brilho do alto do morro”

Silêncio, tem uma voz soando, e só ouve quem já viu o céu chorando.
E mesmo quando o tempo fecha, sorri acreditando, cantando e bolando um novo plano no declive. E a voz agora gritando ‘sonhos são livres’!
Seremos livres e lidos nos livros, não como estatística, mas pela capacidade de acreditar juntos, arriscar juntos, vencer juntos. E assim mudar o próprio destino juntos.

O trecho é de uma poesia assinada pelo poeta, compositor e músico Raul Silter. em homenagem ao Pico do Mané e à comunidade do Morro do Mocotó. O texto foi criado para celebrar os quatro anos do espaço, comemorados no dia 22 de março com uma programação especial no bar. Durante o evento, Raul fará a leitura da obra poética, que depois será emoldurada e passará a integrar as paredes do local.

 “Agora é recolorir os corações de nossos meninos juntos, refazer os trilhos juntos, viver nosso brilho do alto do morro com santos de casa construindo milagres, não por um, mas por todos” diz em outro trecho. 

“Me emocionei muito com essa poesia. Ouvi-la ao vivo no aniversário do bar será incrível. Minha avó e minha mãe estarão presentes, e isso é muito importante, porque toda essa construção teve muito apoio da família”, afirmou Karen antes da celebração.

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Karen Borges | Crédito: arquivo pessoal.

​Para o aniversário, estavam previstas apresentações de músicos ligados à trajetória do Pico do Mané, além da participação de um artista que iria pintar um quadro com o rosto de Karen e seu irmão, Tiago, como referência à realização que marca a história da criação do espaço.

Catarinas nas comunidades

Esta foi a primeira reportagem de uma série que o Portal Catarinas realizará nos territórios de Florianópolis e da região metropolitana. Narrar essas vivências é um ato de transgressão às histórias que buscam estigmatizar os morros.

Conhecer o Morro do Mocotó pela força das mulheres na transformação da realidade local nos reafirmou ainda mais como é possível práticas emancipatórias florescerem no coletivo. As comunidades vêm reescrevendo suas próprias histórias com narrativas criativas de subversão e encorajamento para um caminho com mais possibilidades, mesmo diante de adversidades históricas.

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  • Ediane Oliveira

    Jornalista e produtora cultural, é mestre em Antropologia pela UFPel e doutoranda em Jornalismo na UFSC. Pesquisa mídia...

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