Alerta: o texto contém spoilers do filme O Agente Secreto a partir do 5º parágrafo.

No domingo, dia 23 de novembro de 2025, um dia após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado por crimes como abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa e coação no curso do processo — as salas de cinema que exibiam o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, em Florianópolis, estavam praticamente lotadas.

É um fenômeno difícil de explicar, se considerarmos que Santa Catarina é um dos estados mais bolsonaristas do Brasil e que os eleitores do ex-presidente poderiam estar nas ruas ou boicotando as salas de cinema consideradas “esquerdistas”, mas eles se calaram ou permaneceram recolhidos em seus lares. 

O fato de o estado ter importado os filhos de Bolsonaro, com um deles tornando-se o vereador mais votado de Balneário Camboriú, não diminuiu, de forma alguma, o grande sucesso desse e de outros filmes críticos à extrema direita, como Ainda estou aqui, de Walter Salles, e Bacurau, também de Mendonça Filho. Ambos lotaram as sessões de cinema da capital catarinense na época de seus respectivos lançamentos, como comentado em rodas de cinéfilos locais e confirmado por mim mesma, já que os ingressos esgotavam facilmente.

Os espectadores não ignoravam o que iriam assistir, já que houve ampla divulgação prévia dos filmes citados.

O cinema nacional, cabe-nos concluir, tem encarado de frente as feridas abertas da nossa história, especialmente ao expor os anos da Ditadura Militar. 

Em uma das cenas de O Agente Secreto, passada em uma barbearia de um bairro periférico do Recife, um matador de aluguel de São Paulo que age como um playboy, é morto. Seu corpo é coberto por um jornal, no qual se lê a seguinte manchete: “TURISTA PAULISTA ASSASSINADO NO SEBO”. A plateia gargalhou e aplaudiu aliviada, como se o referido personagem representasse a extrema direita, que se associa hoje a essa parte do nosso país. 

Há muitas camadas de significado nessa única cena, que pode ser lida igualmente como uma metáfora da queda do centro (São Paulo) e da força da periferia (Recife), que bravamente resiste política e culturalmente, em meios aos avanços do poderio do Sudeste. Essa leitura acabou sendo acolhida, acredito, em Santa Catarina, pois, em muitos aspectos, o estado se percebe à margem do centro, inclusive em relação aos outros estados do Sul — Paraná e Rio Grande do Sul —, mais atuantes no cenário político e cultural do Brasil.

Também gostaria de chamar a atenção para a invisibilidade das minorias que a produção traz à tona. O protagonista, por exemplo, tenta obsessivamente encontrar a documentação de sua mãe já falecida. Porém, nada há nos arquivos oficiais sobre ela. O funcionário que ele consulta lhe sugere: “O pai é sempre mais fácil… isso é lá de fora… Se precisar de ajuda pra achar essa ficha de identificação da sua mãe, avise…”. Mulheres são facilmente apagadas, em todos os sentidos, como fica claro no filme, onde a história pessoal da mãe jamais será reconstituída. 

É apenas próximo do final da trama que o espectador toma conhecimento de uma informação fundamental: a mãe do protagonista era indígena.

Nada mais natural, concluirá o espectador contemporâneo, do que essa falta de registro em plena Ditadura Militar, que buscou, e conseguiu, apagar a história de certas minorias incômodas.

Os direitos dos povos originários nunca foram devidamente respeitados, e ainda hoje a demarcação de suas terras é questionada em Brasília.

Outro ponto que merece destaque porque também enseja uma discussão que vai além do próprio filme, o que é um traço revelador de sua capacidade de fazer pensar, é o comportamento “ético” do matador profissional do Recife. Contratado pelos dois homens do “Sul” quando chegam à cidade e decidem terceirizar o serviço sujo, o bandido local recebe pagamento adiantado para eliminar o protagonista. Mesmo depois de ter mortalmente ferido um de seus contratantes, enquanto do outro não há mais notícias, ele cumpre o prometido e alveja o inimigo da dupla.

 Mas qual é a trama central do filme? Os temas são vários, e, além dos já mencionados, avulta, sobretudo do meio para o fim, a autonomia das pesquisas acadêmicas no Brasil.

O Agente Secreto transcorre numa época em que o ensino superior estava sob o escrutínio dos militares e do empresariado a ele associado.

Os pesquisadores, como o filme destaca, buscavam preservar a independência de suas investigações, que perderiam seu poder renovador se elas se rendessem aos interesses de uma empresa privada qualquer. Era essa, talvez, a visão de uma época que o diretor Kleber Mendonça Filho quis resgatar ou recriar. 

Hoje, essa reflexão segue sendo fundamental. Com orçamentos cada vez menores, as universidades públicas, principalmente as federais, são levadas a buscar parcerias com empresas privadas e talvez precisem negociar com elas a autonomia de suas pesquisas.

Depois de assistir ao filme, li o roteiro lançado em livro. Nele, o diretor conta que foi influenciado por sua mãe, Joselice Jucá, que era professora e historiadora. Ele lembra também que sua família era constituída de professores: “Jr. e Ronaldo (do lado da minha mãe) e tia Marluce do lado do meu pai. Todos professores, meus dois pais e os três tios e tia”. Talvez por isso a questão do ensino e da pesquisa tenham recebido no longa-metragem o destaque que comentei. 

A mãe de Kleber Mendonça Filho ganha protagonismo em seu texto de apresentação do roteiro, ressaltando sua influência:

“Ela defendeu durante toda a sua carreira como professora, acadêmica e pesquisadora, a técnica da história oral. Defendeu também a pesquisa e a análise de documentos”. 

O filme, ainda que indiretamente, reconstitui a visão de Joselice Jucá, que defendia a busca pela verdade por meio da pluralidade de perspectivas de mundo.

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  • Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, ensaísta, escritora e tradutora. Traduziu, entre outros, Edward Le...

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1 comentário

Marcelo em 08 de fevereiro de 2026

Você esqueceu do pega pega.. da sacanagem na praça enquanto rolava a paródia da perna .. os esquerdistas adoram esse tipo de sacanagem nos seus filmes .. tirando isso .. foi um filme de bosta como todo filme esquerdista é..

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