O feminicídio de Catarina Kasten, 31 anos, em Florianópolis (SC), causou uma dor coletiva que será difícil de superar. Um protesto marcado às pressas para o último sábado (22), às 7h, horário em que Catarina saiu de casa para não mais voltar, nos levou ao mesmo caminho feito por ela no dia anterior, quando foi violada e morta. Seguimos pelo trecho curto, de cerca de 500 metros, cercado por pedras e verde, passando pela ponte que liga a praia da Armação à do Matadeiro. 

A mobilização ganhou ainda mais força porque o feminicídio ocorreu um dia após o início da Campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Catarina foi a nona vítima de feminicídio no estado somente neste mês, o que torna novembro o mais letal do ano até agora, já são 47 casos registrados em 2025. O próximo ato está marcado para esta terça-feira, 25, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher

Caminhamos entre o silêncio pesado, o choro, e o som de um tambor em tom fúnebre, como se cada batida ecoasse em nós a ausência. As belezas de uma das praias mais bonitas da Ilha não amenizaram o lamento, tampouco a indagação sobre como um território turístico, tão familiar e tão simbólico para a cidade, pôde se tornar palco de tamanha brutalidade. 

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Manifestação convocada após o feminicídio de Catarina Kasten | Crédito: Paula Guimarães.

Enquanto surfistas e banhistas seguiam rumo ao mar, nós caminhávamos com cartazes, flores e lágrimas, lembrando que, para as mulheres, até mesmo trajetos cotidianos podem ser atravessados pelo medo.

“Poderia ser qualquer uma de nós, e é isso que choca”, afirmou a moradora da Armação, Bárbara Graciola, 31 anos, mesma idade de Catarina. 

Para a manifestante, é ainda mais triste pelo fato de o crime ter acontecido em um lugar do cotidiano, um espaço de convivência e afeto entre mulheres. “O Matadeiro é a nossa casa. Eu moro aqui há sete anos. A gente passa por aquele caminho sozinha, com amigas, indo surfar, fazer remo. Nunca imaginei sentir medo ali”, diz a entrevistada que é mestranda em História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Para a jovem, o crime não pode ser explicado por circunstâncias como horário, roupa ou presença de drogas: “Isso foi um feminicídio. Foi porque ela era mulher. Se fosse um homem, não teria acontecido.”

Bárbara acredita já ter visto o agressor no bairro e isso intensifica o terror. “Ele não é um monstro. É um homem comum, um vizinho. É uma pessoa que convive, que passa pela gente na rua. A gente tem que parar com essa história de achar que quem faz isso é um monstro, que é uma exceção”, afirma.

Cultura de violência: “A insegurança existe desde que a gente nasce e é mulher”

A fisioterapeuta Carla Teixeira, 51 anos, moradora antiga do Matadeiro, reforça que o medo nunca foi novidade. “A sensação de insegurança sempre existiu. Desde que a gente nasce mulher, dizem pra gente como se comportar, e a gente cresce com medo”, diz.

Carla fazia a trilha diariamente, “dia e noite”, e mesmo assim seguia com receio, algo que todas as mulheres da região compartilham. Ela destaca que o feminicídio de Catarina não só expõe a vulnerabilidade, mas também reforça uma lógica machista que tenta empurrar as mulheres para dentro de casa.

“Esse tipo de crime diz: ‘fiquem em casa, porque o mundo é nosso’. Os homens soltos, a gente trancada. Isso tem que mudar”.

Mobilização crescente: do luto à organização comunitária

O ato realizado no dia seguinte ao crime, inicialmente pensado por um pequeno grupo de mulheres surfistas, ganhou proporções inesperadas. “Resolvemos convidar outras pessoas e cresceu. Veio toda essa gente. Isso traz um pouco de esperança no meio de tanta dor”, conta a fisioterapeuta. 

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Manifestação convocada após o feminicídio de Catarina Kasten | Crédito: Paula Guimarães.

A comunidade discute medidas de segurança, como iluminação e câmeras, mas tanto Carla quanto Bárbara insistem que nada disso resolve a raiz do problema. “Não adianta câmera se não houver educação. A piada sobre a roupa da mulher, o deboche sobre o cabelo, isso mata. E acaba se configurando depois nesses atos bárbaros”, afirma Carla.

As mulheres da comunidade não querem abrir mão de ocupar os espaços que sempre foram seus. A entrevistada comentou que talvez algumas passem a considerar cursos de defesa pessoal, na tentativa de aumentar as chances de fuga em uma situação de risco. Mas enfatizou que isso não basta: é a comunidade que precisa se comprometer com a proteção das mulheres e a mudança de mentalidade. “Deixar de sair, de fazer a trilha, não é uma opção”, ressalta Carla. 

O clima de alerta entre as surfistas

O feminicídio atravessou a comunidade de forma profunda, mobilizando até mulheres que não costumavam participar de atos ou organizações feministas. Segundo Lígia Antunes de Siqueira, 42 anos, professora da rede municipal de Florianópolis e estudante de doutorado na UFSC, a percepção coletiva é nítida: “Atravessou demais, porque podia ter sido qualquer uma. Um horror.”

Lígia Antunes é surfista e frequenta as trilhas do Matadeiro e do Campeche nas primeiras horas da manhã. Ela relata que sempre surfou cedo, muitas vezes antes do sol nascer, porque as condições de vento em Florianópolis pioram a partir das 10h. O trajeto até a praia e as trilhas são parte da sua rotina, frequentemente feitas sozinha, como tantas outras mulheres da comunidade.

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Manifestação convocada após o feminicídio de Catarina Kasten | Crédito: Paula Guimarães.

Depois do feminicídio de Catarina, porém, tudo mudou. Ligia descreve um clima de alerta generalizado entre as surfistas e mulheres que circulam nas trilhas. “Agora, nos grupos de surf, as meninas estão falando: ‘não façam mais a trilha sozinha’, ‘esperem alguém passar pra ir junto’, ‘combina de ir junto’. Cadê a nossa autonomia?”, questiona.

O episódio também trouxe à tona situações de assédio frequentes nas trilhas da região, que já ensejaram outras mobilizações de mulheres. A surfista cita o caso recente de uma amiga. “Ela estava brincando com as filhas pequenas e um cara passou, olhou pra ela e ficou mordendo os lábios. É muita liberdade que eles têm para ter esses pensamentos e para agir como esse guri agiu”, relata.

Ligia usa com mais frequência a trilha na Servidão dos Surfistas e passou a esperar o dia clarear para atravessar, algo que nunca precisou fazer antes. “Se tá muito escuro antes do sol nascer, eu fico com muito medo. Porque se passa alguém que nem esse imbecil aí e me joga pro meio das dunas, ele vai fazer o que ele quiser”, conta.

Expressão de poder sobre corpo das mulheres

O que leva um jovem de 20 anos a matar uma mulher que ele sequer conhecia? O que passa pela cabeça de alguém para emboscar, sexualizar, perseguir e matar uma mulher sozinha em uma trilha em minutos? E mais inquietante: o que o encoraja? A ideia de impessoalidade, ajuda a entender casos como esse: o ataque não acontece por quem a vítima é, mas pelo que ela representa, uma mulher que ocupa um espaço que a estrutura patriarcal insiste em controlar.

É o que defende a antropóloga argentina Rita Segato, referência internacional nos estudos sobre violência de gênero, para quem o feminicídio, mesmo quando ocorre entre pessoas que se conhecem, não é um ato motivado por questões pessoais, mas uma violência dirigida ao grupo social das mulheres. Ou seja, a vítima é atacada não por quem é individualmente, mas porque pertence a um coletivo historicamente alvo de dominação e controle. 

Para a antropóloga, feminicídios expressam uma estrutura que autoriza a brutalidade masculina contra mulheres, sobretudo quando há violência sexual. “A expressão violência sexual confunde, porque, embora a agressão seja perpetrada por meios sexuais, seu propósito não é de natureza sexual, mas sim de natureza relacionada ao poder”, explica.

O corpo feminino funciona como território político onde a dominação é reafirmada. Trata-se de uma demonstração pública de masculinidade: “O poder é expresso, exibido e consolidado […] diante dos olhos do público”. 

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Manifestação convocada após o feminicídio de Catarina Kasten | Crédito: Paula Guimarães.

Recordes de feminicídio e estupro


Em 2024, 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, o maior número já observado desde 2015, quando a lei do feminicídio entrou em vigor. A maioria era negra, jovem e vitimada por homens conhecidos, quase sempre dentro de casa, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Uma parcela significativa desses crimes ocorre em espaços públicos: 5,8% do total, segundo os registros. Mas esse índice pode ser muito maior, ponderam as pesquisadoras do Anuário, Isabella Matosinhos e Amanda Lagreca. Isso porque o sistema de Justiça ainda tende a reconhecer como feminicídio, sobretudo, os casos ocorridos dentro de casa e cometidos por parceiros ou familiares, deixando de fora situações como a vivida por Catarina.

O país também bateu recorde no registro de estupros, foram 87.545 no total. Estudos citados no Anuário mostram que muitos feminicídios cometidos por desconhecidos envolvem componentes de sexualização forçada, perseguição e tentativa de impor controle sobre o corpo da vítima:

“O estupro é o tipo penal que mais claramente expressa o atravessamento entre violência de gênero e poder sexual, sendo compreendido por autoras como Heleieth Saffioti como forma extrema de reafirmação da ordem patriarcal”.

O estudo “Violência Sexual contra as Mulheres no Estado de Santa Catarina aponta que foram registrados 10.086 casos de violência sexual no estado de 2014 a 2020. No entanto, a pesquisa qualitativa revela que todas as 329 mulheres entrevistadas relataram ter sofrido violência sexual ao longo da vida, mas nenhuma havia registrado boletim de ocorrência. As pesquisadoras atribuem esse silêncio a medo, vergonha, falta de apoio institucional, revitimização e descrença na palavra da vítima.

Assim, o caso de Catarina não é um evento isolado. É parte da mesma estrutura que mata mulheres no país inteiro e que, no Matadeiro, se materializa em um caminho que deixou de ser só caminho para se tornar o símbolo da disputa das mulheres pelo direito de existir, circular e sobreviver.

Entenda o caso

Na manhã de sexta-feira, 21 de novembro, Catarina saiu de casa por volta das 6h50 rumo a uma aula de natação, seguindo a trilha do Matadeiro para chegar à Praia da Armação.

Quando não retornou no horário habitual, seu companheiro estranhou a demora. Somente por volta do meio-dia surgiram mensagens em um aplicativo informando que pertences de Catarina haviam sido encontrados na trilha e que ela não havia chegado à aula.

Diante da confirmação, a Polícia Militar foi acionada. Durante as buscas, os policiais foram abordados por dois homens que relataram ter encontrado um corpo na trilha. Com a chegada da Polícia Civil e Científica, foi identificado que se tratava de Catarina. O corpo da jovem tinha marcas de asfixia e violência sexual.

Com o apoio de moradores da região, a polícia obteve acesso a imagens de câmeras de segurança no percurso feito pela jovem. A partir dessa análise, os agentes identificaram Giovane Correa Mayer, 21 anos, morador da região, que confessou o crime.

Giovane foi preso em flagrante e segue detido preventivamente, pelos crimes de estrupro e feminicídio.

Quem era Catarina

Catarina era natural de Joinville, uma pessoa que amava a natureza e gostava muito de viver em Florianópolis. Estudante do Programa de Pós-Graduação em Inglês: Estudos Linguísticos e Literários na UFSC, planejava seguir para o doutorado e criar um núcleo de pesquisa voltado ao estudo crítico da educação e da promoção da justiça social.

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Catarina Kasten | Crédito: reprodução Instagram.

Uma estudante generosa e profundamente comprometida com a justiça social, como descreve Felipe Sangreman, 36 anos, colega e orientando informal de Catarina no mestrado. Ele a conheceu há cerca de dois anos antes de sua morte, quando assistia às disciplinas do mestrado como aluno especial.

Catarina se tornou sua co-orientadora informal, ajudando-o desde o processo seletivo para ingressar no programa de pós-graduação, revisando textos, orientando apresentações e ajudando a lidar com a ansiedade. 

No dia anterior ao crime, a pesquisadora ainda havia revisado um dos trabalhos dele. “Ela era calma, dedicada, doava o tempo dela. Me transformou como aluno. Era uma pessoa com um coração muito bom, sempre falando de educação crítica e justiça social”, conta Felipe.

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Catarina Kasten | Crédito: Dan Pellicciari.

Também conversamos com a artista e produtora cultural, Bárbara Baccin dos Santos, 30 anos, que dividiu casa com Catarina nos primeiros anos em que chegaram a Florianópolis e iniciaram faculdade. Ela recorda o período em que viveram como uma pequena família, compartilhando rotinas, almoços e conversas. “Lembro das conversas pegando sol no quintal, dos planos, das fofocas”, lembra.

A entrevistada lembra também o processo de amadurecimento e politização que viveram juntas, das festas, amizades e do despertar feminista, sempre acompanhadas do medo de voltar sozinhas para casa. Anos depois, as duas passaram a morar no mesmo bairro, mas quase não se encontravam. “E foi aqui que Cata teve sua vida arrancada de forma cruel, indo fazer o que amava, no nosso bairro querido”, lamenta.

A amiga repudia narrativas xenófobas que tentam explicar a violência e defende respostas coletivas, estruturais, que envolvam políticas públicas, educação, saúde e segurança. “O problema é grande demais para ser individualizado”, diz.

Em nota, a UFSC manifestou profundo “pesar e indignação” e repudiou veementemente qualquer forma de violência contra mulheres, ressaltando que situações como essa não podem ser naturalizadas. “A Universidade junta esforços com todos os que buscam trabalhar para que tais acontecimentos não se repitam, fazendo coro à indignação da comunidade universitária e, ao mesmo tempo, se solidarizando com os amigos e os familiares de Catarina neste momento de dor”. 

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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