Os movimentos de mulheres negras de Santa Catarina se preparam para participar da Marcha das Mulheres Negras, marcada para 25 de novembro, em Brasília. A mobilização começou ainda no Julho das Pretas do ano passado e, desde então, lideranças do estado têm trabalhado para ampliar a presença catarinense e aprofundar os debates em torno dos eixos centrais do encontro: Reparação e Bem Viver.

Além da organização estadual, há uma articulação com os demais estados do Sul: Paraná e Rio Grande do Sul promoveram, junto às catarinenses, encontros conjuntos no início deste ano, ampliando o diálogo regional.

“Em Santa Catarina, dividimos em seis regiões, onde fizemos encontros chamando as mulheres a participarem. Estamos organizadas. Semanalmente temos reuniões e esperamos, inclusive, a vinda de mulheres latino-americanas e caribenhas para a marcha”, explica a pedagoga Maria Estela Costa da Silva, do comitê impulsionador da Marcha em SC e representante da ONG de Mulheres Negras Professora Maura Martins Vicência, de Criciúma. 

O maior desafio, porém, tem sido viabilizar a presença na capital federal. Os movimentos têm buscado apoio de sindicatos e parlamentares para custear ônibus, já que muitas participantes não conseguem arcar com os custos da viagem aérea. 

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Crédito: reprodução.

O esforço coletivo também ganha força simbólica na data: dez anos após a primeira marcha, realizada em 2015, a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) convoca um novo encontro que pretende reunir milhares de mulheres de todo o país e de outros territórios da América Latina, reafirmando a luta e fortalecendo a agenda política do movimento.

Mobilização esbarra na falta de apoio

Segundo Maria Estela, a busca por apoio institucional tem sido marcada pela indiferença e pela falta de sensibilidade política. “Tu pede ajuda aos parlamentares, e eles nem respondem. Eles acham que todos somos iguais e não percebem o racismo estrutural que praticam cotidianamente”, afirma.

Autointituladas ‘Antonietas em Marcha’, em homenagem à Antonieta de Barros, elas também têm buscado apoio junto a sindicatos, que até agora se mostraram mais receptivos. Ainda assim, a ajuda é insuficiente para viabilizar a participação em grande escala. 

Além da falta de financiamento, o tempo de deslocamento é outro aspecto levado em consideração na logística da viagem. Para Vera Fermiano, integrante da AMNB em Florianópolis, é preciso considerar a realidade de trabalhadoras que não podem se ausentar por vários dias. “Não é só botar mulheres em um ônibus e mandar para Brasília. Muitas são domésticas, terceirizadas ou servidoras que não podem ficar tanto tempo fora. Não queremos criar outro problema para a sobrevivência dessas mulheres”, pondera. 

Maria Estela acrescenta que, em comparação com outras regiões do país, a mobilização no Sul avança mais lentamente porque “falta sensibilidade à causa das mulheres negras”. Ela destaca que a região é marcada por um racismo “sutil” e de difícil enfrentamento que se reflete nessa falta de apoio à mobilização.

“Povo ‘educado’, povo ‘gentil’. Mas Santa Catarina mesmo é terrível”, frisa. 

Uma luta por reconhecimento da população negra

Esse cenário de invisibilização e hostilidade ajuda a explicar por que a marcha também se tornou uma forma de reafirmar que Santa Catarina é, sim, território negro. A professora e militante Cássia Sant’Anna, do Movimento Negro Maria Laura, em Joinville, lembra que o estado foi palco de uma “engenharia racial” no século 19, que apagou a presença negra e indígena em favor da narrativa da colonização europeia. 

“Deu tão certo que até hoje persiste a sensação de que esta é uma ‘terra de alemães’. Recentemente, um vídeo de um casal viralizou justamente reforçando essa ideia de que Santa Catarina seria ‘terra deles’”, diz em referência a um casal de influenciadores do estado que propagou em vídeo um discurso excludente, racista e xenófobo contra migrantes. 

Para Cássia, a população negra no Sul enfrenta o desafio de ser constantemente esquecida até mesmo em políticas nacionais e pelo próprio Ministério da Igualdade Racial. “A discussão racial fica concentrada no Sudeste e no Nordeste”, aponta. Ela lembra ainda que Santa Catarina é hoje o estado com maior número proporcional de células neonazistas, fenômeno que se intensificou nos últimos anos, sem que o Estado brasileiro tenha políticas concretas para conter esse avanço. 

A hostilidade recai de forma ainda mais dura sobre as mulheres negras, alvos de racismo e violência de gênero. Para Vera, a conjuntura política recente agravou esse cenário, especialmente depois do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022). “Abriram a porta do inferno e todo mundo que ficava escondidinho atrás do telefone, resolveu colocar seu ódio e suas frustrações para fora”, afirma. 

Ela recorda que no início dos anos 2000 era possível percorrer o estado debatendo questões raciais, políticas públicas e falando sobre a importância de criar conselhos de participação popular, mas hoje esse trabalho se tornou muito mais difícil.

“São quase 50 anos de reivindicações de um movimento super atuante. A cada passo que avançamos, quinze puxam para trás. Parece que estamos sempre recomeçando. Mas enquanto não houver equidade, não dá para parar de marchar, não dá para parar de reivindicar”, garante. 

Dez anos depois, mudanças vieram a conta-gotas

A primeira Marcha das Mulheres Negras ocorreu em 2015, reunindo cerca de 100 mil mulheres de diversas regiões do país contra o racismo, a violência e pelo Bem Viver. A proposta de marchar pelos direitos das mulheres e da população negra como um todo havia sido apresentada em 2011 por Nilma Bentes, ativista do Centro de Estudo e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), durante o Encontro Ibero-americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes (Afro XXI), em Salvador.

Dez anos depois, as conquistas são reconhecidas, mas consideradas insuficientes diante das desigualdades sociais, econômicas e raciais que persistem. Maria Estela, que esteve na primeira marcha, observa que muitas mulheres negras passaram a ocupar cargos públicos e romperam o silêncio que as mantinha no anonimato, no entanto, ressalta que esses e outros avanços ocorreram “a conta-gotas”.

“Por que trazemos a questão da reparação? Porque percebemos que, nesses dez anos, pouco conseguimos. É preciso reparar tudo o que falta na vida das mulheres negras. Somos nós que ocupamos os piores salários, que estamos na base da pirâmide da sociedade. Buscar a reparação é reivindicar direitos historicamente negados às mulheres negras. A marcha é isso”, afirma a pedagoga.

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Crédito: reprodução.

O cenário político da última década também deixou marcas profundas. Vera Fermiano também participou do primeiro encontro e recorda que, pouco depois da marcha, o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, interrompeu políticas que vinham sendo construídas nos governos anteriores. Conferências, conselhos e coordenadorias de igualdade racial perderam força ou foram extintos, e a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, segue sem plena implementação.

Para ela, os retrocessos também se refletem no agravamento do genocídio da juventude negra e na ausência de políticas de segurança pública capazes de garantir a vida dessa população.

“Nós ainda estamos lutando por coisas muito básicas: creches, o fim da violência obstétrica, saúde mínima para a população negra. É nesse sentido que agora marchamos por reparações. O mínimo que se pode fazer é reparar, porque não existe bem viver sem reparações.”

Bem Viver é marchar por justiça e dignidade

O Bem Viver, para as mulheres negras, é inseparável da coletividade. Cássia ressalta que estar em movimento junto com outras mulheres fortalece a autoestima e a capacidade de decisão. E que a marcha, nesse sentido, simboliza um espaço de reconhecimento e inspiração mútua, em que cada uma percebe que não está sozinha em suas dores e vivências.

Segundo a professora, essa dimensão rompe com a lógica individualista da sociedade atual. “A gente se reconhece na outra e se inspira também. Porque às vezes a gente acha que está sozinha, sem ter noção de que aquilo que estamos sofrendo é o que outras mulheres também sofrem ou já sofreram”, reflete.

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Maria Estela associa o Bem Viver diretamente à justiça social e à igualdade racial. Para ela, trata-se de garantir direitos básicos: uma mãe negra saber que o filho pode sair de casa sem correr o risco de ser morto pela polícia; ter acesso a creche para poder trabalhar; receber um salário justo pelo trabalho realizado; ser respeitada em sua integridade.

Ao falar de reparação e dignidade, a pedagoga lembra o caso de Sonia Maria de Jesus, mulher negra e surda mantida em regime de escravidão moderna por 40 anos na casa do desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Jorge Luiz de Borba. Sonia tornou-se símbolo da resistência feminista e antirracista, com movimentos organizados em diálogo com sua família para garantir sua libertação e uma vida digna.

A luta das mulheres negras se articula contra as desigualdades históricas e por um projeto de sociedade em que a vida da população negra seja cuidada e devidamente respeitada. O Bem Viver se apresenta, portanto, como horizonte e construção coletiva que une resistência e esperança, baseado na prática do encontro e na garantia de direitos. Marchar por Reparação e Bem Viver é marchar por justiça e dignidade. 

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  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

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