Era novembro de 2023. Eu estava passando por dois lutos repentinos: um aborto espontâneo e um coração partido. A depressão já havia se tornado um problema crônico na minha vida desde a adolescência e, na luta contra o mal do século, eu vivia uma jornada de altos e baixos. Com os acontecimentos daquele período, a montanha-russa emocional desceu bruscamente. Não conseguia comer, dormia quase 16 horas por dia e não via sentido em nada na minha vida. Mergulhei ainda mais na depressão.

Nós dois nos falávamos todos os dias, o dia inteiro. Mas, depois do sexo, veio o ghosting. Aquilo afetou drasticamente a minha autoestima como mulher negra, pois o preterimento constante sempre parece estar na equação.

É sobre o que diz aquela famosa frase do livro “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Cada pessoa tem um papel sobre expectativas que o outro cria em uma relação, mas vivemos em uma realidade dominada pela frieza do mundo digital. 

Eu me sentia imensamente triste e desvalorizada, porém o inesperado ainda estava por vir: uma gestação gemelar, subvertendo a lógica de um corpo que recebia, há dois anos, um comprimido anticoncepcional por dia. 

Depois que caiu a ficha, aceitei a vindoura maternidade como quem aceita que o sol vai nascer amanhã, outra vez. Eram inesperados? Sim, mas seriam bem-vindos. Contudo, o aborto espontâneo veio e, com ele, o luto perinatal. Um luto invisível que, só nos últimos anos, começou a sair das sombras da sociedade, quando mais e mais mulheres decidiram falar abertamente sobre essa dor.

Como tantas pessoas podem gestar, tive que ir a uma maternidade, tomar remédios para expelir tecidos retidos e atravessar uma dor insuportável ao lado do leito de mulheres que haviam acabado de dar a luz. Lembro de ter ouvido de uma enfermeira: “Você é jovem. Pode tentar de novo. Deus estava precisando de dois anjinhos”. Naquele dia, soube como era a sensação de sentir um vazio no corpo e na alma.

Após esses eventos traumáticos, uma amiga me convenceu a marcar consulta com o médico de família do meu bairro. A contragosto e reunindo forças para levantar da cama, decidi ir. Quando cheguei no consultório, o médico me perguntou, sorrindo: “E aí, Evelin? Como vai a vida?”. Em vez de mentir como de costume, com lágrimas nos olhos, respondi: “Sinceramente? Eu não sinto mais vontade alguma de viver”.

A consulta, que deveria durar vinte minutos, acabou levando quase quarenta. Mais do que receitar remédios que aliviassem os sintomas depressivos, aquele médico me ouviu atentamente e me deu conselhos para vida. 

Quando eu disse que gostava muito de ler poesias e costumava escrever na infância, ele me sugeriu: “E se você tentasse direcionar o que você está sentindo nesse momento da sua vida para a escrita? A arte tem um poder curativo muito grande. Muitos pacientes meus relataram melhora de sintomas depressivos após começarem alguma atividade artística”.

Dali em diante, comecei a versificar tudo o que doía, tudo o que sangrava na minha alma. Me apeguei às palavras como quem se agarra a uma mão estendida na beira do precipício. Com o passar do tempo, a escrita começou a funcionar como uma terapia.

Aos poucos, voltei a comer, a dormir oito horas por noite e a fazer as coisas que eu gosto. O conselho daquele médico salvou a minha vida e acredito que tantas outras.

E foi assim que nasceu o meu primeiro livro “Cemitério de Coisas Vivas”, pela editora Donizela. Da dor, do luto, do coração partido. Com o passar do tempo, se tornou também sobre memória, infância, amor, ancestralidade e, principalmente, sobre resiliência. Sobre o que vem depois que a dor passa e a ferida seca. 

Atualmente em sua segunda edição (a primeira foi esgotada no dia do lançamento), ele tem ganhado cada vez mais leitores. Já enviei exemplares para São Paulo, Espírito Santo, Manaus, Distrito Federal e, é claro, por todo o Nordeste. Neste ano, o livro está concorrendo a quatro prêmios literários nacionais na categoria “Melhor Livro de Poesia”. 

A melhor parte de ser lida é quando os leitores se reconhecem naquilo que escrevemos. Contar as histórias por trás dos poemas. Compartilhar vivências. 

A arte, de fato, pode ser um poderoso instrumento de autoconhecimento e cura.

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  • Evelin-Moreira

    Jornalista, escritora, agente cultural e servidora pública. Baiana radicada em Curitiba desde 2018, é autora do livro "C...

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