Bruna de 14 anos (que está com o microfone), irmã de Kauã, assassinado em Bangu, aos 10 anos, foi quem leu a carta/Foto: reprodução .

30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança: Carta das mães ao Rio de Janeiro

Postado em 21/11/2019, 16:55

As Mães da Baixada, Mães de Manguinhos, Mães da Maré, Mães Sem Fronteiras e o Movimento Moleque divulgaram nesta quinta-feira, 21 de novembro, o documento “30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança: Carta das mães e familiares para o Rio de Janeiro”. A carta foi lida, hoje, durante audiência no Ministério Público do Rio de Janeiro.

 

Leia a carta na íntegra:

Esta é uma carta com a história e a luta de muitas mães e familiares que tivemos nossos filhos assassinados, encarcerados e violentados pelo Estado e pela sociedade. 

Somos aqui as vozes de nossos filhos. Nossos filhos que foram baleados a caminho da escola. Nossos filhos que receberam tiro de fuzil nas costas, brincando em frente de casa. Nossos filhos que se renderam, mas assim mesmo receberam um tiro na cabeça. Nossos filhos que foram torturados, executados. 

Não mataram só corpos. Nossos filhos tinham nome, tinham rosto, tinham história. Eram meninos que gostavam de viver, namorar, brincar, sonhar. Eram craques em Matemática, gostavam de cozinhar e tantas outras coisas. 

É difícil falar. Vamos viver essa perda todos os dias de nossas vidas. Todos os dias, ouvimos eles dizendo: -Mãe, cheguei! Eles entrando em casa…. Hoje, vivemos só com a metade do nosso coração. 

Dizem que somos fortes, guerreiras, mas na verdade não temos opção: somos mães e o que nos mantêm vivas é o amor pelos nossos filhos que morreram e os que ficaram. Quando o esposo ou esposa morre, torna-se viúvo ou viúva, quando não se tem pai e mãe, são órfãos. Mas quando se perde filho, não tem nome para essa dor que sentimos. Mas temos outros filhos e temos que nos levantar. Buscamos Justiça para continuar em pé. Nossa luta é para que outras mulheres, negras, faveladas não sintam a nossa dor. 

E a luta é grande. Somos nós que não desistimos de investigar o que aconteceu e pedir Justiça. Muitas vezes, a polícia não investiga. No Ministério Público, as denúncias não são aceitas. Ou quando finalmente entramos no Tribunal, acreditando que a Justiça vai ser feita, matam ali o nosso filho pela segunda vez. Em vez de investigarem os culpados pela morte dos nossos filhos, nossos filhos passam ser os condenados. 

Outras vezes, enterram nossos filhos como indigentes, e temos que lutar para colocar na certidão de óbito que ele tinha nome, mãe e pai. 

A injustiça e o desrespeito se repetem por todos os lados: Quando perguntamos para o policial: o que fizeram com o meu filho? Ele me nos olha e diz que o filho dele está em casa. Mas teve outro policial que chorou junto… Não desejamos nossa dor nem para a mãe de quem matou os nossos filhos. A Justiça maior será feita. 

Você pode ser negro, ser favelado, mas a gente tem que ter direito de viver dignamente no lugar onde moramos. E nós descobrimos a nossa força nas outras mães. Viva o Movimento Moleque, as Mães de Manguinhos, as Mães Sem Fronteira, as Mães da Baixada, as Mães sem Fronteiras, do Chapadão! Viva cada mãe que luta! 

Muitas de nós já ficamos doentes, não conseguimos voltar a trabalhar. Perdemos o pouco que demoramos tanto em conquistar, porque ser mulher, negra, favelada nunca é fácil. Mas aí a gente conquista e matam nossos filhos e perdemos o chão. Nossos filhos deixam irmãos, que hoje dizem ter medo de morrer também e nos deixar sozinhas. 

Hoje, quando olhamos outros adolescentes, vemos neles os nossos filhos. E desejamos vida, proteção, oportunidades. Eles querem um curso, um trabalho, uma vaga de aprendiz. 

Queremos dizer aos meninos que não desistam, que estamos juntos por uma vida sem racismo, sem desigualdade. Queremos Justiça, queremos paz, queremos vida. Parem de nos matar! 

 

 




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