Após um dia inteiro de atividades, o ato encerrou com catracaço no Terminal Integrado de ônibus/Foto: Catarinas

Em Florianópolis, mulheres se reúnem em mais de 15 horas de manifestações

Postado em 09/03/2017, 16:39

Os gritos de “Nem uma a menos”, “Sou mulher, sou feminista. Fora Temer, seu golpista”  e “Se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista”, ecoaram pelo centro de Florianópolis na noite desta quarta, 8 de março. As mulheres tomaram as ruas da região central da capital catarinense em reverência ao Dia Internacional da Mulher. A manifestação histórica reuniu cerca de duas mil pessoas, a maioria mulheres, acompanhadas por filhos e filhas e também muitos homens. Após um dia inteiro de atividades, o ato encerrou com catracaço no Terminal Integrado de ônibus do Centro (Ticen).

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A manifestação seguiu do Largo da Alfândega pela rua Paulo Fontes. Movimentos diversos acompanharam a marcha em manifestação de apoio às lutas manifestadas pelas mulheres. Entre as principais, o rompimento das estruturas sociais machistas, fim de todas as formas violência contra as mulheres e retirada do projeto de reforma da previdência, proposto pelo governo Temer. No retorno da marcha, próximo à entrada do acesso à ponte Pedro Ivo Campos, houve desentendimento com a polícia. Uma barreira foi montada para impedir acesso à ponte.

Por cerca de vinte minutos, houve negociações para que as manifestantes pudessem seguir com a marcha pela via. Não houve confronto, mas a repórter do portal Catarinas Clarissa Peixoto chegou a ser empurrada por um dos policiais. A tentativa de impedir o trabalho da imprensa ocorreu ao final da transmissão de vídeo ao vivo (veja aqui). A maioria das manifestantes decidiu, então, retornar e recompor o ato em frente ao Ticen. Por volta das 21h30, a marcha se dispersou em um catracaço, seguindo pelas vias das plataformas dos terminais.

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“Este 8 de março que aconteceu em vários cantos do mundo foi uma experiência importante, um exercício que deu a todas nós um sentido de unidade em torno de uma causa: a vida das mulheres. Vamos continuar todos os dias construindo este sentimento de unidade, de luta pelo fim de toda forma de opressão, contra o patriarcado, racismo e capitalismo neste processo de chamada internacional de construção da greve”, avalia Tânia Slongo da Marcha Mundial das Mulheres (MMM/SC).

15 horas de 8M
Em mais de 15 horas de atividades, as mulheres se reuniram na tenda 8M, no Largo da Alfândega, em rodas de conversas, exibição de vídeos, espaços de “embelezamento”, protestos e apresentações artístico-culturais. A mobilização começou cedo, às 6h30, com entrega de panfletos. “Entregamos essa fitinha para todas as mulheres em solidariedade àquelas que morreram vítimas de violência no mundo e no Brasil e para todas que estão sofrendo violência”, falavam as ativistas enquanto amarravam a fita “Nem uma a menos”, no pulso das mulheres.

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O apitaço, ao meio dia, simbolizou o barulho para alertar a sociedade sobre as diversas violências contras as mulheres. “Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”, gritavam em coro as manifestantes. “Lutamos contra a violência, a brutalidade, o machismo e a opressão diária que nós sofremos”, enfatizou a ativista Elaine Sallas.

O dia seguiu com manifestações em frente à sede do INSS. “Não à privatização da previdência”, era o grito de ordem. “Eu trabalho aqui na previdência. Vamos colocar a faixa na porta da sede em protesto e sensibilizar as trabalhadoras do INSS. Esse é o nosso basta, não aceitamos essa reforma”, afirmou a funcionária pública Cleusa Pereira.

As diversas vozes no 8M
“Yara Margareth Paz Steinbach, 28 anos, morta pelo marido. Esmagada contra o muro numa clínica, no bairro Itaguaçu, em Florianópolis, no ano de 2006. Eliza Samudio, 25 anos, morta em 2010. Esquartejada, teve seu corpo dado de comida aos cães pelo pai de seu filho, o goleiro bruno que já está em liberdade”. A intervenção teatral “Nem uma a menos”, do coletivo “Madalenas na Luta” lembrou doze mulheres assassinadas pelos seus companheiros no estado, país e América Latina. Enfileiradas, elas partiram da tenda e seguiram pelas ruas centrais até completar a encenação em frente à sede do INSS.

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A ativista Dóris Furini interpreta uma mulher assassinada. Ao fim da encenação, ela é levantada pelas outras artistas e o público é chamado para uma roda. “O cortejo traz estações que marcam essa mulher assassinada. Tem a ver com a ideia de sororidade. Naquele momento sou essa mulher que foi morta. Ela pode ser da Índia, América Latina ou qualquer parte do planeta. É pela luta em conjunto que a gente se salva, mas uma luta amorosa. A gente se olha, se reconhece como mulher e aí consegue se superar, não na solidão e abandono, por isso a importância da rede. Vi meninas e mulheres chorando, foi muito forte e poderoso”, conta Dóris.

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“Ver as mulheres se unindo não é só bonito, é necessário”, disse a estudante Mirim Coelho, 19 anos, enquanto secava as lágrimas. A jovem se emocionou ao ver a representação de uma violência que já foi rotina na sua vida. “Fico triste ao lembrar do sofrimento da minha mãe que era agredida pelo meu pai e ao mesmo tempo feliz pela luta feminista. Nenhuma mulher merece apanhar ou ser morta pelo simples fato de ser mulher”, afirma.

“Mulheres indígenas lutam. A palavra da mulher é sagrada como a terra”, diziam os cartazes carregados por Josileia Caigang e outras ativistas do movimento indígena. Fundadora do Instituto Caigang, formado basicamente por mulheres, ela protestou contra a invisibilidade dos povos indígenas. “Existem mais de 300 povos no país. Continuamos existindo depois de 500 anos da invasão do Brasil e isso é ruim para o governo. Hoje existem outros organismos internacionais que não deixam o Brasil terminar de nos exterminar de vez. É difícil encarar isso enquanto indígena, sem saber até quando seu povo vai viver, se vai ter território para criar seus filhos e ser gente”, protesta Josileia.

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Segundo ela, o espaço dado às mulheres indígenas, como esse no 8M, tem contribuído para dar visibilidade à causa maior do movimento. “Fazemos parte de um movimento para lutar pelos nossos direitos enquanto povos indígenas. As mulheres indígenas têm tido acesso a movimentos que talvez os homens não tenham hoje. A gente tem feito com que a nossa voz seja ouvida, levamos a voz de todos, pelo direito de viver, de ter terra demarcada e lugar para morar. Ocupar um espaço enquanto mulher é importante para que as outras pessoas possam nos conhecer. Conhecendo o outro você vai aprendendo que ele tem um valor. Fortalece todo movimento indígena”.

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A greve contou ainda com o ativismo das mães, doulas e defensoras do parto humanizado e do aleitamento materno que refletiram sobre as diversas formas de violências, especialmente as obstétricas. Ao final da roda de conversas, fizeram um “mamaço” em protesto ao moralismo da sociedade relacionado à exposição do peito das mulheres durante a amamentação.

Um palco montando ao lado da tenda reuniu o movimento de mulheres compositoras em mais de cinco horas de apresentações. “As apresentações tiveram um caráter dialógico, cantamos e tocamos músicas autorais e de outras mulheres. Nos comunicamos muito com o público falando sobre o papel das compositoras na construção da música brasileira, como Dona Ivone Lara, que na década de 60 não assinava suas obras, porque não era permitido às mulheres compor samba enredo. Muitos sucessos eram assinados por um primo dela. Conversamos também sobre Chiquinha Gonzaga e sua importante representação”, relatou a musicista Natália Livramento.

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Questões centrais às mulheres negras foram levantadas durante a intervenção artística “Preta-à-Porter”, do Coletivo Nega – Negras Experimentações Grupo de Artes.  Durante a esquete, que usa de sátiras para tratar da objetificação dos corpos das mulheres negras, uma das atrizes protestou contra a discriminação que sofre cotidianamente e denunciou uma farmácia do centro da capital. “Um segurança se aproximou de mim e disse que havia uma câmera no local e eles saberiam se eu roubasse alguma coisa. Esse é o peso do estereótipo, porque tenho trança, porque sou negra. É como se não fôssemos consumidoras. Estou de saco cheio”, contou chorando Rita Roldan.

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Os movimentos artístico-culturais Trama Feminina e bloco Cores de Aidê fizeram a concentração para a saída da marcha. “Foi o melhor show que eu participei. É gratificante sentir a energia das mulheres e poder falar sobre a gente pra quem precisa ouvir”, afirma Andressa Versa cantora da Trama.