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Coluna da Maria Elisa Maximo

Caso Freixo: precisamos falar sobre o machismo na esquerda

Postado em 27/07/2017, 17:06

A nova denúncia de Priscilla Soares, ex-companheira de Marcelo Freixo, reacendeu, desde ontem, o debate sobre o machismo na esquerda brasileira. Aí está um tema que muito me preocupa e que, penso eu, deve ser discutido com urgência e seriedade. E o problema não é restrito aos partidos políticos e espaços de militância, mas se estende aos setores que se auto-proclamam progressistas, politizados, intelectualizados, comprometidos com a transformação da sociedade, incluindo os espaços acadêmicos.

Denunciar o machismo e a misoginia que se expressam a partir de espaços conservadores e conhecidamente reacionários é o óbvio e ululante. É como chover no molhado. Agora, falar do machismo que se expressa a partir dos espaços que, em tese, têm compromisso de transformar essa realidade, é sério, complexo e é uma necessidade que precisa ser encarada, principalmente pelos homens, com responsabilidade e serenidade. Não dá mais pra aceitar que nossos camaradas da esquerda recebam nossas denúncias como acinte, como autoritarismo, como levianismo.

Não dá mais pra aceitar que colegas e parceiros de militância, ao ouvirem nossos apontamentos, invertam os termos do debate dizendo-se “vítimas” dos nossos feminismos que se pretendem “puros” e “inquestionáveis”. As aspas, aqui, não são meras alegorias. Digo isso por experiência própria, por viver isso muito diretamente nos espaços pelos quais transito, por ter recentemente ouvido esses argumentos como reação à demanda por um debate profundo e despudorado. Mas, como é difícil emplacar um debate sobre o machismo institucional com a participação massiva dos homens, sem que a discussão fique restrita às mulheres e suas vivências, sem que o debate seja reduzido a um problema pontual, isolado, extraordinário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parece evidente que denunciar os abusos, os assédios e as violências de todos os tipos (sobretudo aquelas que moram nos detalhes) cometidas por colegas de trabalho e de militância é algo bastante delicado, mas não é possível exigir sutileza e didatismo o tempo todo. É preciso, urgentemente, romper com o senso comum de que na esquerda (ou na academia) estamos como que imunes ao machismo nas suas expressões mais graves e doloridas. Precisamos reagir à ilusão de que, por sermos “prafrentex”, o machismo e seus desdobramentos nos atingem de forma, digamos, mais tangencial. Precisamos admitir, de uma vez por todas, que a comunhão de um conjunto de ideais e bandeiras, que ostentar os mesmos títulos e cargos, não é, em hipótese alguma, garantia de igualdade de gênero.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por fim, a figura do “esquerdomacho” precisa deixar de ser só alegórica; tem que sair das hashtags e passar a ser definitivamente escrutinada nos espaços que lhe cabem. Homens do mundo, uni-vos. Reconheçam e desconstruam vossos machismos. Vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões. #ficaadica #abusonãotempartido




Doutora em Antropologia Social de Santa Catarina, atua no campo de estudos da cibercultura e das tecnologias da comunicação e informação. Desde 2007 é professora no ensino superior, já tendo atuado em diferentes instituições. Coordena, juntamente com outras professoras e ativistas, a organização do Seminário Inventando Gêneros que há 3 anos vem se consolidando como um espaço de formação e debates em torno das questões de gênero e diversidade sexual na região de Joinville.
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