Foto: arquivo pessoal

Viva Maria, 39 anos nas ondas do feminismo

Postado em 25/09/2020, 9:21

 

“Fala Mara Regia que é pela tua voz que a gente anda”. A frase vinda de uma desconhecida durante as coberturas nas ruas já indicava o reconhecimento do trabalho dessa jornalista e comunicadora à frente do Viva Maria, programa da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que em setembro deste ano completou 39 primaveras de um jornalismo posicionado pelos direitos das mulheres.

Pioneiro no debate sobre as questões de gênero no rádio brasileiro, o programa é distribuído pela Radioagência Nacional para mais de três mil emissoras em todo o Brasil. Inspirado na música “Maria Maria” de Fernando Brant e Milton Nascimento, Viva Maria, apesar de estar fora do ar temporariamente por causa da pandemia, hoje é podcast. Vai ao ar de segunda à sexta-feira em diferentes horários pela Rádio Nacional da Amazônia, Rádio Nacional de Brasília, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Rádio Nacional do Alto Solimões, Nacional FM e Rádio MEC e MEC FM. Acesse aqui. 

Mara Régia, âncora do programa, está na lista das mil mulheres do mundo indicadas ao Prêmio Nobel da Paz em 2005. Em 2016 foi condecorada com o Grau de Cavaleira pela presidente Dilma Rousseff, pelos serviços relevantes prestados às comunicações. Ao longo dessa trajetória, a jornalista e ativista construiu uma relação de afeto com as entrevistadas e ouvintes, principalmente as mulheres amazônicas, para as quais sua voz ecoou direitos até então desconhecidos.

“Nos limites da Amazônia foi onde vivi as maiores experiências com o projeto ‘Mulher nas ondas do rádio, corpo e alma, rompendo o silêncio’, onde me aproximei das parteiras da floresta, recuperando saberes, sabores e práticas de partejar”, conta a radialista.

Em entrevista ao Catarinas, Mara Regia fala sobre os embates feministas mais marcantes reportados pelo programa. São dois momentos de entrevista, uma parte está em texto e outra em edição de áudio para que possamos também ouvir a voz dessa jornalista que tem escuta atenta às demandas das mulheres brasileiras, em suas várias identidades, mulheres da cidade, das águas, do campo e da floresta.

Pelos microfones do Viva Maria passaram Marias e Clarices contra a ditadura, mulheres vítimas de violências e a voz das mulheres do Brasil no processo de abertura do regime militar e principalmente, durante a Constituinte. Viva Maria foi berço para a criação do Fórum de Mulheres do Distrito Federal e teve papel ativo para a construção da primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e do Conselho dos Direitos da Mulher, no Distrito Federal. Durante o processo constituinte, o programa encabeçou os abaixo-assinados pela garantia à licença maternidade de 120 dias, licença paternidade, e creche de zero a seis anos.

Foto: arquivo EBC

“As gerações mais jovens não fazem ideia do embate que foi o lobby do batom (movimento de mulheres) durante a Constituinte. As jovens têm as conquistas como dadas, hoje se fala em licença paternidade como aplicação até para 180 dias, existem várias propostas, coisa que à época nos custou vários embates terríveis no Congresso Nacional com desaforos impublicáveis, como ‘desde quando homem vai parir, vai ficar em casa pra quê, pra encher a cabeça de cachaça?’ Então, tinha toda uma resistência para entender que filho não era só da mãe. Esse e outros tantos momentos, a própria licença maternidade, creche de 0 a 6, e todas essas políticas que até hoje precisamos implementar”.

Em 1990, como forma de protesto à suspensão do programa Viva Maria, jornalistas e feministas criaram o Dia Latino-Americano da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação, em 14 de setembro, dia de início do programa. Em 2016, nesta data foi também fundada a Rede de Jornalistas com visão de Gênero das Américas ampliando o legado do programa.

Pode falar um pouco da trajetória, dos momentos marcantes do Viva Maria?
O Viva Maria faz uma linha do tempo das lutas das mulheres porque são vários os momentos vividos pela cidadania das mulheres do Brasil. Começamos na luta pré-constituinte, que consolidou e recrudesceu às vésperas da promulgação da Carta com muitos embates e mobilização via megafone, porque sem rede social as coisas são mais complicadas. Em compensação tínhamos o clamor das ruas, era ótimo, lindo estar na cena e de repente uma mulher com uma trouxa na cabeça dizer “fala Mara Regia que é pela tua voz que a gente anda”.

Então, assim, são momentos impagáveis de mobilização e vigor, esperança, que permeava toda aquela ação cidadã de assinar as listas da proposta constituinte. Hoje, temos as petições on-line, com um clique você dá o seu recado, mas naquela época precisava de todos os documentos em mãos para emplacar a proposta na Constituição de 88, então é bom que a gente resgate essa história porque as gerações mais jovens não fazem ideia do embate que foi o lobby do batom. As jovens têm a conquista como dadas.

Hoje, fala-se em licença paternidade de até 180 dias, existem várias propostas, coisa que à época nos custou vários embates terríveis no Congresso Nacional, com desaforos impublicáveis, como “desde quando homem vai parir, vai ficar em casa pra quê, pra encher a cabeça de cachaça?”. Então, tinha toda uma resistência para entender que filho não era só da mãe. Esse e outros tantos momentos, a própria licença maternidade, creche de 0 a 6 e todas essas políticas que até hoje precisamos implementar, no campo da comunicação, então, nem se fala. Estamos no meio do caminho faz tempo.

Na trajetória do programa a primeira década foi mobilizadora, extremamente ativista, depois do período pós-constituinte com a era Collor a gente tem um momento de refluxo, já a caminho do impeachment do presidente, com o fim do Viva Maria na Rádio Nacional. Minha demissão ocorreu porque fui identificada como ativista, liderança negativa, contrária aquele governo. Tive que esperar a saída do Collor e a entrada do Itamar Franco, mesmo assim fiquei doze anos fora da Rádio Nacional, mas não fora dos microfones.

Primeiro levei Viva Maria para as praças, depois fui para a rádio Capital com ele. Nas ruas, Praça do Relógio, Praça do Povo e assim fazia ‘auê’. Não havia financiamento. Foi por pouco tempo, logo depois começou toda uma mobilização para a Rio 1992, quando fui convidada a fazer uma campanha pelo Planeta Fêmea, a gente precisava dar ao feminino um destaque dentro dessa conferência. Destaque que se corporificou com o Planeta Fêmea que também foi um desafio gigantesco unir mulheres do planeta inteiro entorno daquela ideia: fazermos do feminino um planeta capaz de traduzir o conceito de sustentabilidade.

E daí pra frente, olha a ironia da vida, Pós-Rio 92, a ONG WWF – Brasil e a rede GTA – Grupo de Trabalho Amazônico uniram-se à Radiobrás, que abrigava o meu programa, para fazer um programa voltado aos povos da Floresta, onde esse conceito da sustentabilidade pudesse ser traduzido. Eu não tinha mais o canal, mas eles fizeram uma parceria através da qual eu entrei pelas portas dos fundos da emissora, não era do quadro, mas trabalhava lá diariamente. A grande maioria das pessoas nem sabia que eu estava fora, para elas eu já havia sido reintegrada.

Enquanto estava fora, fiquei nos microfones da vida, reproduzindo várias experiências de programas “Mulher” em vários estados da federação, do Rio ao Pará. Fiz uma série, só de oficinas foram 83 que eu consegui contar. Então, perambulava, fazia acontecer o feminino nas ondas do rádio e a pauta feminista é claro, nem sempre escancarada dependendo do momento político, das forças em que ali estavam. Começa também o envolvimento com a temática ambiental, o Natureza Viva é esse programa que faço há 26 anos. Portanto, eu nunca deixei de pilotar o microfone, são 40 anos no ativismo seja para questão de gênero, seja para a questão ambiental.

Nos limites da Amazônia foi onde vivi as maiores experiências com o projeto “Mulher nas ondas do rádio, corpo e alma, rompendo o silêncio”, onde me aproximei das parteiras da floresta, recuperando saberes, sabores e práticas de partejar.

Na Amazônia foi onde eu também me aproximei do campo, das plantas e ervas medicinais, porque o quintal amazônico é feminino e partir daí toda uma experiência que se consolidou nestes anos todos num trabalho de formação de lideranças, não que a gente forma, mas a gente sensibiliza lideranças que já estão aptas a pegar o bastão da resistência.

E ao mesmo tempo você também pode perfeitamente inspirar, mobilizar, depende do que está na pauta.

Foto: arquivo pessoal

Ocorreu a multiplicação da metodologia para ter a ideia de fazer programa de gênero, raça e etnia nas emissoras comunitárias principalmente, porque ali começa a minha militância em rádios comunitárias no Brasil afora. Tinha uma ONG no Rio de Janeiro que se inspirou no Viva Maria para uma série de atividades nesse campo da comunicação radiofônica e aí seguimos, em 2004 a gente retoma o Viva Maria nas ondas do rádio. Antes disso já fazia o Mulherio, programa para as mulheres do Rio de Janeiro. O rádio nunca mais saiu da minha vida. Mulherio foi experiência única das mulheres no jornal impresso, foi uma homenagem inclusive a esse jornal.

Qual é o público, como é a audiência do Viva Maria?
Não são todas as emissoras da EBC que são contempladas com o Ibope. Na MEC Rio, no Natureza Viva que vai ao ar aos domingos, são seis mil ouvintes por minuto. No Viva Maria, como tem formato podcast e entra em vários momentos da programação, aí depende muito do programa que está emoldurando o Viva Maria, do comunicador que vai valorizar a entrada do programa do ar para falar às mulheres. A EBC tem várias plataformas e a Rádio Agência é uma delas que multiplica o programa para mais de quatro mil emissoras que transmitem grande parte da programação. A EBC tem oito emissoras de rádio desde o Alto Solimões, na Tríplice Fronteira até a MEC do Rio de Janeiro. Para a Amazônia fala simultaneamente aos nove estados.

Foto: arquivo EBC

É possível definir o público do Viva Maria?
O programa está na quarta geração. Agora, estou me redescobrindo junto a uma audiência nova que sai para pesquisar programas sobre mulheres e acaba encontrando o Viva Maria e com isso se aproxima. Tivemos a grata surpresa de conhecer a Onda Feminina, essas garotas lá de Santarém no Pará, elas se inspiraram para fazer um trabalho de conclusão de curso a partir do que foi o Viva Maria nestes anos primeiros da nossa cidadania.

Você ainda enfrenta censura, especialmente para abordar temas mais estigmatizados como o aborto?
Eu não experimentei a censura no período em que eu não fiquei no ar nos programas que eu fazia na então falecida Radiobrás. O Viva Maria quando começou tinha duas horas de duração, era pilotar muita coisa e receber muita gente e fazer agito total. Depois que a gente perde esse espaço que nunca mais nos foi dedicado, eu também ampliei essa voz em outros canais, ainda não tínhamos redes sociais, mas tínhamos o alvorecer das rádios comunitárias, das rádios públicas. Eu fiz alguns programas para mulheres e meio ambiente na rádio Cultura do Governo do Distrito Federal. Eu não parei de pilotar microfone. Nos primórdios do Viva Maria, não sofríamos censura, porque a concepção de programa pra mulher era tão mal compreendida que eles não avaliavam que aquilo pudesse fazer alguma diferença, no imaginário era visto como “papo de mulher”, coisa menor. Então, assim não tinha muita essa questão de comando e controle que hoje existe, porque hoje você precisa de likes, de vários indicadores para compor a audiência e como o programa vai para os portais, como tem entrevistas que são dali repercutidas, infelizmente a gente tem muitas abordagens difíceis de emplacar.

Hoje, estamos vivendo uma pauperização dos meios de comunicação em geral e, com isso, não temos recursos para bancar grandes pautas.

Pautas como aquelas que nos deram inclusive alguns prêmios, como o Prêmio Ayrton Senna, sobre uma denúncia de uma menina que havia sido vendida três vezes pelo próprio pai em Aripuanã do Norte (MT). Na época existiam recursos até porque o Natureza Viva estava ligado às ONGs, GTA e WWF que bancavam essas viagens que são sempre muito caras. Viajar pela Amazônia é sempre uma aventura econômica, financeira e social, não tem jeito (risos).

Como é desenvolver esse programa, hoje, em um contexto de governo autoritário?
A EBC foi criada por meio de uma lei no Congresso Nacional, como emissora pública e como tal com todas as ferramentas e instrumentos para que ali fossemos a emissora da pluralidade e estivéssemos ali representando todas as cores deste país. Nós tínhamos um Conselho Curador que refletia a sociedade brasileira com representações indígenas, negras, quilombolas, com jornalistas, ministros, enfim, a própria Maria da Penha fazia parte. A gente tinha um conselho que nos dava muita orientação, o próprio manual de jornalismo da EBC foi gerado à luz destas participações que sempre tiveram no horizonte da comunicação esse compromisso maior dos conteúdos com a população em geral. Mas infelizmente o conselho curador acabou, uma série de medidas foram tomadas, por razões que eles alegam ser econômicas, de forma que a gente acoplasse na programação da EBC as mensagens governamentais que vão desde a voz do Brasil até a programação da NBR que foi devidamente assimilada pela TV Brasil.

Então, hoje, estamos em um caleidoscópio de conteúdos que fogem à essência da lei que criou a EBC.

Neste momento fazer os programas de meio ambiente sem poder ir pra campo é muito difícil, a gente não tem financiamento para isso. Ao mesmo tempo para as questões de gênero, raça e etnia a gente tem sempre certa dificuldade de emplacar porque elas contrariam uma orientação que vai contra a cidadania, a voz das mulheres, contra algum protagonismo que eventualmente a gente tenha que trazer à luz, e nesse sentido a gente fica devendo.

Foto: arquivo EBC

Como você percebe a luta das mulheres, agora, em relação à luta no início do programa?
No início a gente queria direitos, hoje estamos lutando para não perder os direitos conquistados. Então, inverteu-se a roda, estamos aí numa via de mão dupla que infelizmente nos penaliza, a todo momento você tem a sensação de inventar a roda, porque tudo isso que a gente conquistou e a Constituição, como parâmetro maior orientadora de todas essas conquistas, a gente pensou que fosse para sempre, mas esquecemos que o pra sempre, sempre acaba. Agora é ter fôlego para a retomada desta luta, aí é claro que não sou mais a Mara que entrou no ar há 30 anos com o Viva Maria.

Quase 40 anos se passaram, a disposição da luta continua a mesma, mas às vezes você não tem perna suficiente para ganhar as ruas e praças desse país para fazer o movimento acontecer. Então, há algumas limitações físicas e logísticas. A sua mobilidade vai perdendo o tônus, o fato de eu estar sempre muito na Amazônia é mais um complicador porque as grandes insurgências do movimento acontecem nas capitais, Rio, São Paulo, Brasília, então muitas vezes algumas coisas importantíssimas, votações imperiosas, votações no STF, acontecem quando estou longe, no seringal ou alguma área contaminada por agrotóxico.

Há alguns meses consegui que o meu projeto sobre reportagens nos limites da Amazônia Legal fosse aprovado pelo Pulitzer. Estou voltando a uma cidade que em 2006 foi totalmente pulverizada porque um avião desavisadamente pulverizou a cidade inteira, hoje tenho que voltar lá para falar sobre a morte dos polinizadores, o fim da apicultura na região porque as abelhas estão morrendo em massa e as pessoas que lá estavam junto comigo à época adoeceram também. Então, vou fazer um diagnóstico desta devastação humana e ambiental. É assim, você tem que buscar novos caminhos, como lá atrás quando perdi o microfone para o Viva Maria, fiz o projeto para a Fundação MacArthur “Mulher nas ondas do rádio: corpo e alma movem o silêncio”.

Foram quatro anos fazendo oficinas com as mulheres, criando programas que falassem justamente da saúde sexual, direitos reprodutivos, enfim, o fato é um só: quando você quer o desejo te move. Então, não importa a idade, hora, tem que fazer acontecer.

Você está falando de duas pautas bem urgentes na atualidade: mulheres e meio ambiente. A Marcha das Mulheres Indígenas trouxe essa junção no lema “Território: nosso corpo, nosso espírito”.
Inclusive tem uma música linda que evoca essa pertença “Terra é meu corpo, água é meu sangue, ar é meu sopro, fogo é meu espírito”, que vem dessa confluência, desse fogo que nos leva a empulhar seja o arpão da flecha, seja a voz, o grito como elas tão bravamente fizeram em Brasília.

Foto: EBC

Você consegue estimar quantas mulheres entrevistou nesse período? Pode falar um pouco sobre a identidades dessas mulheres que habitam o Brasil?
Eu acho que por baixo, eu arriscaria umas dez mil mulheres e tenho essas vozes num banco que tenho aqui de fitas cassete, esperando o dia de digitalizar pra que a gente possa beber na fonte. Eu não posso esquecer sequer das Marias que lançaram seus livros. A primeira grande surpresa foi Rose Marie Muraro, minha inspiração para o Viva Maria e Mulherio, quando a nossa saudosa Nilcea Freire estava à frente do Ministério das Mulheres e aí fizemos o Mulherio pelo MEC do Rio de Janeiro. A Rose lançou Sexualidade da Mulher Brasileira nos microfones da nacional, Com ela percorria esse universo feminino e estivemos juntas rumo ao terceiro milênio, naquela fase onde ela através da libertação e da fé nos dava exemplos de como nos tornar uma mulher impossível.

De olho nas musas inspiradoras Marina Colasanti, que prazer tê-la também como colaboradora do programa, são tantas as lutas e mulheres. A liderança feminina das mulheres da floresta. Muitos os momentos, mulheres água, mulheres flor. Tive até a graça de estar com a Hilda Hilst, tenho aqui os livros todos autografados. Penso muito e choro. Tive também algumas incursões sobre aborto no livro da querida Regina de Castro, feito pela Editora Mauad.

Não posso esquecer de Zuleika Alambert e Rosiska Darci de Oliveira à frente do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres, Nélida essa mulher imortal que meu deu entrevista para comemorarmos os 100 anos de Clarice. Acho que Clarice dispensa apresentações. Mas Lispector é fortaleza.

Hilda Hilst, Mara Régia, Rosiska Darci de Oliveira e Nilcea Freire/Mosaico: Catarinas

Em 1990, como forma de protesto à suspensão do programa Viva Maria, jornalistas e feministas criaram o Dia Latino-Americano da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação. Quais são para você as coisas que ainda precisam ser resolvidas 30 anos após o primeiro dia da imagem da mulher na mídia?
Como tive oportunidade de dizer  há seis anos durante o “Primer Congreso Latinoamericano de Defensorías de las Audiencias”, em Buenos Aires, em setembro de 2014:

A mídia em geral continua sendo  preconceituosa, hipócrita e sensacionalista como nos anos 80 quando Viva Maria foi criado. No Brasil, especificamente a plataforma feminista consagrada na Constituição de 1988 ainda não foi de todo implementada, sem falar dos inúmeros retrocessos.

Exemplo maior e mais recente é a Portaria 2.282 do Ministério da Saúde, publicada em 28 de agosto. O documento estabelece novos procedimentos para interrupção de gravidez em casos de estupro, circunstância já prevista pela legislação brasileira. Essa Portaria que no momento mobiliza a opinião pública em geral, causa um inevitável constrangimento às mulheres e meninas em situação de violência sexual e, seguramente, poderá resultar em aplicação do aborto inseguro, uma vez que, de acordo com o IPEA, 7% a 15% dos estupros no Brasil resultam em gravidez.

A Portaria em questão  dificulta  o exercício do direito. Entre outras mudanças, os novos procedimentos propostos na 2.282 do Ministério da Saúde determinam que a vítima faça um registro policial do estupro.

O movimento feminista já pediu apoio ao deputado Rodrigo Maia da Câmaras dos Deputados para a revogação da Portaria alegando que a 2.282 além de absurda, é ilegal.

Outra questão imperiosa que está a exigir atenção especial da imprensa é o recrudescimento da violência doméstica em nosso país apesar da Lei Maria da Penha promulgada em 2006. Por fim, cumpre ressaltar o papel central dos meios de comunicação na valorização dos direitos humanos das mulheres, negras e negros, crianças e adolescentes, população idosa e pessoas com deficiência física. Viva Maria faz desse desafio sua prática diária na construção de uma cultura de paz que respeite a diferença com direitos iguais.

Ao mesmo tempo, Viva Maria se multiplica em oficinas de rádio voltadas para o direito à comunicação e a questão de gênero. De Norte a Sul aposta na formação crítica de lideranças dos movimentos sociais e comunicadoras/es comunitários. Tudo isso em nome de uma comunicação inspiradora: ética, responsável, plural e diversa.

Que mudanças que ocorreram na sua visão de mundo nesse processo de ouvir várias fontes do Brasil todo?
No campo da sexualidade foi justamente onde mais aprendi e mais me diverti. Muitas mulheres que conseguiram, através da agricultura, uma parceria verdadeira com seus companheiros para usufruírem de um tesão pela vida que é como um tesão sexual. Elas são muito livres no domínio do corpo, território, elas têm lá seus filhos, põe pra mamar, têm a liberdade de tirar o peito para fora e fazer a vida acontecer. Então tudo isso é liberdade, inspirada nelas tomei banhos de rio, de calcinha e sutiã, porque você se sente a natureza, e isso é o bem maior que a natureza me deu, esse desprendimento.

Também do ponto de vista de comportamento, a floresta me ensinou a testar meus medos, quando você pega um monomotor ou tempestade, como eu que fiquei em um igarapé perdida em uma madrugada inteira, os jacarés me olhando esperando a hora de comer. O barco com Mara Regia e o barqueiro dentro, tudo isso testa os teus limites, equilíbrio e função social. Toda vez que uma pessoa desta chega numa comunidade, seja pela semente que você mandou pra ela e ela plantou e virou uma árvore e que ela batizou com o teu nome, como lá em Riozinho do Anfrísio, na Amazônia, onde o seu Regis batizou a filha de Mara Régia, que hoje está com 17 anos e grávida. Assim, são histórias de vida transformadas pela comunicação e isso vale a vida.

Todas essas pessoas que passaram pelo meu rádio coração deixaram poemas, músicas, lições de vida e de resiliência. E é o que me faz estar aqui chegando aos 70 anos disposta a continuar nadando nessas ondas do Amazonas, do Tapajós, do Rio Negro, nas ondas do feminismo que sem dúvidas me deu a vida.

O movimento de mulheres é um divisor de águas na minha vida, e olha que fui batizada em 1976 na Inglaterra quando da primeira manifestação das inglesas contra a interferência do parlamento na lei do aborto. E depois na Conferência da Mulher em 1995, em Beijing, na China, encontrei Betty Friedan. Momentos impagáveis, estar com a Ruth Escobar, Dina Sfat, Marina Colasanti Jaqueline Pitanguy, a própria Maria da Penha que lutam incansavelmente por leis que possam nos fazer enfrentar essa chaga que é a violência no Brasil e no mundo. É isso, Viva Maria, viva as Catarinas!

 

 

 




Jornalista, cofundadora e diretora executiva do Portal Catarinas.
Veja a coluna da Paula Guimarães