Janaina Piantino tatua voluntariamente mulheres que passaram por uma mastectomia/Foto: Alana Pastorini

Ressignificar: arte e autoestima após o câncer de mama

Postado em 16/12/2019, 16:18

A tatuadora Janaina Piantino voluntariamente tatua mulheres mastectomizadas em Florianópolis (SC). Caso a mulher que passou pela retirada da mama decida fazer a chamada micropigmentação paramédica, poderá escolher pelo desenho da aréola ou outro estilo de tatuagem para cobrir a cicatriz da cirurgia. O trabalho é totalmente gratuito e realizado em parceria com o Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon).

A entrevistada explica que não recomenda o procedimento para mulheres que ainda não colocaram a prótese ou não realizaram a reconstrução total da mama. Segundo orienta, a tatuagem deve ser feita seis meses depois do tratamento e pelo menos quatro meses após a mastectomia. Por isso, a importância de apresentar a liberação do médico. Confira a conversa com a tatuadora:

Alana Pastorini: Tatuagem na mama é seguro?
Janaina Piantino: Tatuagem na mama é seguro, sim, desde que seja realizada por profissional capacitado. Possuo especialização em micropigmentação paramédica com ênfase em reconstrução de aréola, mamilos e cicatrizes. A tatuagem pode ser realizada após quatro meses da última cirurgia. Qualquer pessoa pode fazer, seguindo as orientações médicas.

Há restrições de quem pode fazer?
Sempre peço uma autorização médica. Mas grávidas, lactantes ou pessoas com problemas de pele, com glaucoma, câncer, anemia e que estejam fazendo quimioterapia devem evitar a tatuagem.

Homens também procuram o seu trabalho?
Já tive contato de homens interessados na reconstrução de aréola, mas não voltaram.

Qual seu objetivo em fazer esse trabalho?
Meu objetivo é o fechamento desse ciclo, a reconstrução de uma mulher que teve uma parte do corpo retirada, o retorno da feminilidade.

Como começou a tatuar?
Sou tatuadora há oito anos e técnica em enfermagem há dois anos. Já trabalhava com tatuagens artísticas e conseguir unir a enfermagem e a tatuagem é gratificante. Se quem tatua sai feliz, imagina eu. É uma recompensa para todos.

Foto: Alana Pastorini

Quanto tempo dura cada sessão?
A sessão dura em média duas horas e depende se é bilateral (duas mamas), unilateral (uma mama), necrose (morte das células ou tecidos causada por uma doença ou lesão) ou apenas repigmentar a área afetada. Depende do grau de dor ou desconforto da cliente e de como esse tecido aceita a tinta.

Quantas sessões são necessárias?
Geralmente realizo em uma sessão, dependendo do tipo de tecido. Se necessário, agenda- mos outra sessão de retoque.

Precisa de alguma autorização?
Sempre peço uma autorização ou faço contato com o médico responsável, também utilizo formulário próprio para assinatura.

Quais as principais dúvidas de quem deseja fazer a tatuagem?
Se dói, se tem perigo de romper silicone. E respondendo: não rompe o silicone e a dor depende de cada paciente. SUS cobre reconstrução do mamilo.

O que é a Cirurgia de Reconstrução Mamária?
É a cirurgia plástica que, através de várias técnicas cirúrgicas, busca restaurar a mama, considerando a forma, a aparência e o tamanho, após a mastectomia parcial ou total, em decorrência de tratamento de câncer.

Quem tem direito?
Toda mulher que, em virtude do câncer, teve uma ou ambas as mamas amputadas ou mutiladas, tem direito a essa cirurgia, sendo necessária a recomendação do médico assistente da paciente. Tanto o SUS como os planos privados de assistência à saúde têm a obrigação de prestar o serviço de cirurgia plástica reconstrutiva de mama.

A Lei nº 13.770/2018 assegura às mulheres com câncer de mama o direito à cirurgia plástica reconstrutiva nos dois seios, ainda que a doença se manifeste em apenas um deles. A lei ainda determina que a reconstrução seja feita, quando houver condições técnicas, na mesma cirurgia de retirada do seio com tumor. Se não for possível, a paciente será encaminhada para acompanhamento.

Assim, havendo indicação médica, toda mulher tem o direito de realizar a cirurgia de reconstrução de mama durante a intervenção cirúrgica para tratamento da doença. Na hipótese de não ser possível a reconstrução imediata, a paciente será encaminhada para acompanhamento e terá garantida a realização da cirurgia imediatamente após alcançar as condições clínicas requeridas. A paciente também tem direito à cirurgia plástica de correção de eventual assimetria entre a mama afetada pelo câncer e a saudável, para manter a proporção estética entre ambas, assim como a reconstrução do complexo aréolo-mamilar.

Como solicitar o benefício?
Pelo SUS, a paciente pode agendar a cirurgia de reconstrução mamária no local do tratamento. Se ela não estiver mais em tratamento, deverá se dirigir a uma Unidade Básica de Saúde e solicitar o seu encaminhamento para uma unidade especializada em cirurgia de reconstrução mamária. A paciente deve se consultar com o médico cirurgião plástico credenciado ao seu plano de saúde. Com informações da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama).

*Alana é feminista, jornalista, trabalhadora do Sinjusc (Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Estado de SC) e pós-graduanda em Educação Profissional.

** O material foi publicado inicialmente na Revista Valente, editada pelo Sinjusc e dedicada a abordar temas feministas.