Tânia Ramos (50777) é candidata a vereadora em Florianópolis (SC) pelo PSOL/ Imagem: divulgação.

“Representatividade para diminuir a desigualdade” Entrevista com a candidata Tânia Ramos

Postado em 11/11/2020, 11:03

A trajetória de luta e militância das candidaturas feministas em Santa Catarina é marcada por pautas coletivas que buscam diminuir as desigualdades, criando espaços de debate para que as questões de gênero sejam colocadas. Esse panorama inclui o antirracismo, anticapitalismo, é contra a homofobia, contra a violência policial, pelo fim da violência contra a mulher, pelo respeito à diversidade, pelo direito ao acesso à saúde, moradia, educação, alimentação, trabalho, renda, cultura, entre outros aspectos.

Um movimento que revela as contradições sociais nos discursos e práticas cotidianas que segregam grande parcela da população. Compreender a perspectiva histórica no contexto dessas lutas faz com que as estruturas de opressão sejam reveladas, bem como os seus agentes de poder. Na democracia, a ocupação de cargos no legislativo é uma forma de mudar o caminho e transformar o futuro por um bem comum.

Hoje, vamos conhecer Tânia Ramos (50777), candidata ao cargo de vereadora em Florianópolis (SC) pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

PORTAL CATARINAS – Conte um pouco sobre sua trajetória de vida/militância e quais motivações a levaram a disputar essas eleições.
Tânia Ramos: Moro na Coloninha há mais de 50 anos. Fui mãe de gêmeas quando ainda tinha 14 anos. Tenho quatro filhos, sou técnica de enfermagem e sou apaixonada pelo carnaval. O samba faz parte da minha vida.

Fazemos política todos os dias, em cada ato: na luta diária pelo alimento na mesa, pela saúde, pela educação e cultura, pela moradia, pelo direito de ser quem somos, de ser mulher, de ter a pele negra, o cabelo crespo, de ocupar espaços, enfim, pelo direito de viver. Eu sou um conjunto disso tudo. Minha trajetória passa por muitas lutas em vários setores. Estou sempre na luta em defesa da democracia, contra as opressões e por serviços públicos de qualidade para todas e todos. Essa é a marca da minha trajetória militante.

Quero ser a primeira mulher negra da Câmara de Florianópolis para dar voz e vez à luta dos mais necessitados.

Na Gestão da Frente Popular participei do Núcleo Gestor do Plano Diretor do Continente e fui Secretária Executiva da Secretaria Regional do Continente. Também participei de diversos movimentos em defesa da Saúde e da Educação. E contribui, ainda, com o movimento por moradias em locais de disputa social. Na comunidade do samba contribui na abertura de espaços de participação e de discussão sobre a igualdade de gênero. Participei do Conselho Municipal de Habitação de Florianópolis e, atualmente, sou presidenta da Associação Cultural Creche A Casa do Povo, na comunidade da Coloninha, e membra do Conselho Municipal de Saúde de Florianópolis, além de ser diretora da União Florianopolitana de Entidades Comunitárias (UFECO). Também fiz parte do Fórum Catarinense contra as Privatizações e do Fórum Participação Catarinense de Mulheres na Política. E já exerci atividades de assessoria parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (ALESC) e na Câmara Municipal. Estou licenciada dos cargos eletivos e públicos, neste momento, por conta da minha candidatura.

É toda essa luta, que faz parte da minha trajetória, que quero levar para dentro da Câmara de Florianópolis.

PORTAL CATARINAS – Você tem conseguido verba para a campanha? Como são divididos os fundos eleitoral e partidário entre as candidatas? Você recebeu apoio e recursos do seu partido?
Tânia Ramos: O PSOL prioriza sempre as mulheres, o povo negro e LGBTQI+. Por isso, tive o privilégio de receber uma boa fatia do fundo eleitoral, que me permitiu fazer uma campanha mais ampla e mais profissional. Também estou com uma vakinha online, onde arrecado uma parcela muito pequena do total dos recursos utilizados na campanha.

PORTAL CATARINAS – Quais as principais questões a superar hoje em relação à desigualdade entre homens e mulheres? E quais suas propostas para isso na câmara municipal?
Tânia Ramos: Precisamos ter uma pauta feminista, a qual contemple, primeiramente, a representatividade da mulher. Quando temos representatividade, torna-se mais fácil diminuir a desigualdade. Nas minhas propostas, procuro inserir a mulher, de forma que ela tenha maior independência e liberdade. Por exemplo, é preciso garantir a prioridade às mulheres nos programas de habitação, visto que são a maioria do arrimo de família, fortalecendo o protagonismo das mulheres nos projetos de habitação popular.

Quero incentivar a formação permanente dos trabalhadores no serviço público municipal sobre assédio e violência sexual. Também vou defender a ampliação do serviço e monitoramento no transporte coletivo para coibir assédios e outros crimes sexuais, possibilitando a identificação dos agressores.

Também quero propor campanhas para estimular a divisão das tarefas domésticas entre homens e mulheres. Isso é muito importante na periferia, onde os dois precisam trabalhar para sustentar a família e a mulher acaba sendo sobrecarregada e adoece por excesso de trabalho.

Também quero trabalhar as questões de segurança da mulher em vários segmentos, para combater a violência e o assédio sexual. Tem muito mais para fazer. Isso é somente uma parte do rol de propostas que podem ser encontradas no meu site de campanha.

PORTAL CATARINAS – Quais os principais temas a serem debatidos, hoje, no município para o qual se candidatou vereadora? Quais propostas apresenta para pautá-los?
Tânia Ramos: Temos muito o que debater e propor para a cidade. Saúde, educação, habitação, transporte coletivo, alimentação, cultura, segurança, direito à cidade e meio ambiente são assuntos que estão na minha pauta para a Câmara e que, hoje, possuem muitas deficiências. Temos uma questão muito importante que é a regularização fundiária. Por isso, pretendo promover debates sobre as políticas de habitação e regularização fundiária, a fim de criar políticas públicas que resolvam os mais diversos problemas nessa área. Também vai ser necessário resgatar a construção do atual Plano Diretor Participativo, para ampliação dos projetos habitacionais, para famílias sem moradia e de melhoramento para as de baixa renda.

Quero fortalecer as creches municipais, que são uma necessidade das mulheres, para que possam trabalhar sem se preocupar com os cuidados com seus filhos. E, é claro, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) também está nas minhas pautas prioritárias. Ainda tem as questões do racismo, da homofobia e do machismo, que levam a uma série de violências. Vai haver muito debate nesse sentido. A questão da acessibilidade para pessoas com deficiência (PcD) também faz parte das minhas prioridades.

Tânia Ramos (50777), candidata a vereadora pelo PSOL em Florianópolis.

PORTAL CATARINAS – Como pretende atender as diferentes especificidades das mulheres, contemplando em seus projetos as mulheres negras, indígenas, lésbicas e mulheres trans?
Tânia Ramos: Com muita participação e debate. Dessa forma, vai ser possível elaborar projetos que contemplem as necessidades de cada mulher, dentro de sua especificidade. Eu tenho, por exemplo, entre a minhas propostas a ampliação de projetos e políticas desenvolvidas pelos ambulatórios trans, a criação de projetos de apoio a mulheres grávidas em situação de vulnerabilidade, o fortalecimento do parto humanizado, o acolhimento psiquiátrico e físico da mulher em situação de abortamento, o desenvolvimento de políticas públicas educacionais que combatam as discriminações de gênero, raça e classe social e promovam a cultura da igualdade, apoio a projetos coletivos protagonizados por mulheres, na perspectiva da economia solidária, com auxílio no acesso às linhas de crédito e apoio técnico necessário, entre outra tantas propostas. No meu mandato, nenhuma mulher ficará desamparada.

PORTAL CATARINAS – Enquanto uma candidata feminista, como pretende atuar de forma a enfrentar os discursos reacionários que não admitem que as mulheres tenham autonomia plena sobre seus corpos, que acreditam na existência de uma “ideologia de gênero” e que comprometem a implementação de políticas públicas, principalmente na área da educação, voltadas a equidade de gênero?
Tânia Ramos: Não será uma tarefa fácil, haja vista, o machismo e a misoginia que estamos enfrentando há muito tempo e que parecem não diminuir nunca. Em primeiro lugar, é preciso estar sempre atenta. Sei que não terei descanso e que todas as minhas ações serão vigiadas, criticadas e até questionadas, o tempo todo. Nenhuma mulher parlamentar pode se iludir que isso não acontecerá.

Temos muitos exemplos na Câmara Federal, em que as nossas deputadas são alvos constantes do machismo e da misoginia. Vai ser preciso ter muita força e coragem.

Mas, nunca fugi à luta e não vai ser dentro de uma casa legislativa que isso irá acontecer. Sei o que me espera. Vou combater tudo isso com discursos e com ações. E vou enfrentar de cabeça erguida e sempre contando com minhas companheiras de luta. “Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”!

PORTAL CATARINAS – Santa Catarina é o primeiro estado do País em taxa de tentativa de estupro, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020. De acordo com o mesmo relatório, em 2019, o estado ocupou a terceira posição em taxa de lesão corporal dolosa contra mulheres no ambiente doméstico. Como você pretende atuar para a redução da violência contra as mulheres em seu município de SC?
Tânia Ramos: É mais uma questão difícil, que vai necessitar muito empenho, coragem e participação da população. Já tenho algumas propostas nesse sentido, mas, como meu mandato será popular, vamos estar sempre discutindo com as comunidades e as pessoas envolvidas. Por isso, vou promover audiências públicas nas comunidades, a fim de identificar ações e políticas de segurança que melhor se adequem as suas realidades.

Quero incentivar a formação permanente dos trabalhadores no serviço público municipal sobre assédio e violência sexual. Também vou defender a ampliação do serviço e monitoramento no transporte coletivo para coibir assédios e outros crimes sexuais, possibilitando a identificação dos agressores.

PORTAL CATARINAS – A sua plataforma política prevê o incentivo à participação da sociedade na discussão e elaboração de políticas públicas. De que forma?
Tânia Ramos: Meu mandato será com a participação popular. Quero reunir cada segmento ou comunidade que tenham propostas. Vamos sentar, debater e encaminhar. O mesmo será feito com as minhas propostas. Nada será imposto. Nada será contra a vontade popular. Meu mandato será do povo.

PORTAL CATARINAS – De que forma você tem feito sua campanha neste período de pandemia? Que estratégias têm adotado para se comunicar com a sociedade?
Tânia Ramos: Trabalho basicamente com duas frentes: uma equipe de comunicação e uma de mobilização. Enquanto a equipe de mobilização trabalha nas ruas, seguindo uma agenda pré-elaborada pela coordenação geral, em busca de eleitores e novos apoiadores, divulgando meu jingle/samba e fazendo panfletagens e bandeiraços, tomando todos os cuidados necessários por conta da pandemia, a de comunicação trabalha no site, e-mail e redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter), divulgando as atividades de rua, pesquisando temas relevantes para a campanha, com dados e estatísticas, criando imagens, acompanhando e colocando em discussão a conjuntura, respondendo as mensagens recebidas, atendendo a mídia e confirmando participações em entrevistas e debates, atualizando agenda e fazendo o acompanhamento das interações nas redes, sempre respeitando a identidade visual. E eu trabalho entre as duas equipes, me colocando onde é necessário, seja nas ruas ou nas redes sociais. As decisões sobre as atividades são tomadas em conjunto, em reuniões semanais.

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