Foto: Viviane Rocha/Portal Catarinas.

Quantos têm que morrer para a guerra racista acabar? – Marcha da Consciência Negra em Florianópolis

Postado em 23/11/2020, 10:22

“Valeu Dandara! Valeu Zumbi, com vocês aprendi a resistir!”, palavra de ordem cantada durante a manifestação.

Na manhã do último sábado (21/11), um dia nublado e quente, cerca de 250 pessoas ocuparam as ruas centrais de Florianópolis durante a “Marcha da Consciência Negra”. “O ato foi maior do que esperávamos, principalmente em decorrência do estado gravíssimo atual de transmissão da Covid-19. Foi muito potente!”, afirma Artur Favaretto, articulador da Frente da Juventude Negra e Anticapitalista (FREJUNA) e militante da Juventude Comunista Avançando (JCA), em entrevista ao Portal Catarinas. 

A organização para Marcha começou dias antes. Na reunião ampliada entre representantes de movimentos negros, populares, de comunidades periféricas e de partidos políticos, as pautas centrais foram decididas: garantia de políticas públicas de isolamento e proteção social ao povo preto; dignidade e direito de expressão política para professora Ana Lúcia Martins (1ª mulher preta eleita vereadora em Joinville, a qual foi ameaçada de morte); justiça para as comunidades periféricas (alvo de violência policial constante).

“A ideia inicial era celebrar e demarcar a luta do povo preto através da cultura e da arte”, conta Favaretto. Na véspera do ato, no entanto, João Alberto Silveira Freitas, um homem preto, foi brutalmente assassinado em uma unidade do Carrefour de Porto Alegre, pelo segurança Magno Braz Borges (30 anos) e pelo policial militar Giovane Gaspar da Silva (24 anos). A morte, claramente de cunho racista, ganhou destaque na Marcha.

“Marielle perguntou. Eu também vou perguntar: quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar? João Alberto, presente! Naninho, presente! Everton da Rosa, presente! Marcos Padilha, presente!”, palavra de ordem dita durante manifestação.

Antes mesmo da morte na capital gaúcha, a organização do ato já se preparava para denunciar o genocídio que ocorre na capital catarinense. “PM assassina a criança, mas nunca fez nossa segurança”, os manifestantes gritavam entre as ruas. Durante a Marcha, a mãe de um dos jovens assassinados pela Policia Militar (PM) fez emocionante fala sobre a morte do filho. No início do mês (12/11), outro jovem, Adriano Lima Gregório dos Santos, ou Naninho, foi morto pela PM catarinense. Naninho tinha apenas 12 anos. A Polícia Civil afirmou que não precisava de laudos para concluir que os PMs são inocentes.

Foto: Viviane Rocha/Portal Catarinas.

“Esse ano foi de muita perda pra nossa comunidade. Perdemos muito irmãos. Muitas mães sofreram com a perda de seus filhos. Só aqui no Morro do Mocotó, oito meninos foram mortos pela PM. A gente tem evitado fazer com que a polícia venha até o morro, mas o treinamento dos militares já é feito dentro da comunidade. Até na hora da formação a polícia já vem com truculência. Esse ano foi muito triste, muita perda, muito sofrimento. Aqui no morro, a polícia tem matado mais que a Covid”, relata um morador e integrante da Frente da Juventude Voz das Favelas que preferiu não se identificar. 

Foto: Viviane Rocha/Portal Catarinas.

Segundo o Boletim Semanal de Indicadores da Segurança Pública de Santa Catarina, de janeiro a 16 de novembro de 2020, a Polícia Militar catarinense matou 77 pessoas. O número ultrapassa o total de mortes de todo ano de 2019, que contabilizou 74 homicídios praticados pela PM. Como apuramos na reportagem “Epidemia de execuções”, durante o primeiro semestre deste ano, a polícia catarinense matou uma pessoa a cada três dias. Na pandemia, a partir de 16 de março, a letalidade cresceu 85%. No meio do ano, 12 cruzes foram fincadas no canteiro central da rua Silva Jardim, na entrada do Morro do Mocotó, no Centro de Florianópolis, em protestos as mortes de jovens negros e moradores da favela pela polícia. O mais novo dos mortos tinha 15 anos; o mais velho, 24.

A política genocida de segurança catarinense é um reflexo da necropolítica (isto é, o poder do Estado ditando como algumas pessoas devem viver ou morrer) de morte nacional, conforme lembra Favaretto. “O projeto de morte do povo preto está organizado há muito tempo. No atual governo Bolsonaro (sem partido) isso avança com a forte apologia à violência. Essa política nacional reflete localmente. O governo do Gean Loureiro (DEM) foi marcado por uma ostensiva ação da polícia, com agressão brutal tomando as ruas e reprimindo o povo periférico, especialmente o preto”, explica. Logo após divulgação midiática do assassinato de João Alberto, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) afirmou categoricamente que “não existe racismo no Brasil”.

Foto: Viviane Rocha/Portal Catarinas.

É importante destacar, também, que o racismo e o capitalismo andam lado a lado, facilitando a violência através de artifícios que inocentam aqueles que violentam o povo. No caso do Carrefour, por exemplo, o histórico de violências é contínuo: em agosto deste ano, em Recife, um trabalhador morreu após um ataque cardíaco e teve o corpo coberto com guarda-sóis para que o estabelecimento continuasse funcionando. Em 2018, em São Bernardo do Campo, um cliente preto foi espancado por falsa suspeita de furto. A cada violência, uma justificativa. Para a morte de João Alberto, uma nota explicando que o Carrefour terceiriza sua segurança e anunciando o rompimento do contrato com a empresa. Mesmo com todos os antecedentes de racismo, violência e desumanização, o Carrefour é a maior rede supermercadista do Brasil, com faturamento de R$ 62,2 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS).

“Esse é um sistema de retroalimentação. Há necessidade desse laço entre o capitalismo, o racismo e o patriarcado. No caso do racismo, historicamente, ele vem como ferramenta que alimenta e permite que o sistema capitalista se desenvolva melhor. A lógica racista colabora com a criação das desigualdades, explorações e opressões. O capitalismo precisa manter as desigualdades sociais que permitem a exploração dos trabalhadores, majoritariamente o povo preto e pobre”, ressalta Favaretto. 

Foto: Viviane Rocha/Portal Catarinas.

Os manifestantes saíram da praça Tancredo Neves, foram até o Morro do Mocotó, retornaram pela rua Silva Jardim e cruzaram o centro da cidade até o Largo da Alfândega – local onde finalizaram o ato com apresentações artístico-culturais. Foram quase duas horas de Marcha em um trajeto de aproximadamente 5 km.