Estamos vivendo um momento absurdo na gestão das casas legislativas do Brasil. Tudo o que sempre consideramos essencial em termos de justiça, especialmente ocupando cargos públicos, parece ter perdido valor para muitos que hoje ocupam cargos de deputados estaduais, federais e até vereadores. Eles estão mostrando para nós que, para assumir esse lugar, não é preciso ser uma pessoa honesta, correta, íntegra. 

Você precisa ter um currículo que, na verdade, mostre que você sabe roubar, fazer rachadinha, se aliar a projetos que vão contra tudo o que prometeu à população quando pediu voto e que está disposto a fazer o que bem entender. 

Como já disse o deputado estadual Rodrigo Bacellar — presidente afastado da  Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), após ser preso por suspeita de vazar uma operação da Polícia Federal —, o importante é ter hombridade e integridade dentro da Assembleia. Fora dela, segundo ele, você pode ser e fazer o que quiser.

Então, por que tanta hipocrisia em punir, em matar mais de 100 jovens, como ocorreu há um mês, quando o Estado entrou nas favelas do Alemão e da Penha e alegou que estava eliminando “bandidos”?

De que bandidos estamos falando? Dos bandidos da favela, dos bandidos dos plenários ou dos bandidos das casas legislativas?

Bandidos que, em sua maioria, foram para a faculdade, aprenderam a manipular, de forma intelectual, o povo e a retirar o mínimo que este poderia ter para viver com dignidade, ter saúde, educação, cultura e uma vida justa. Já os bandidos “da favela”, como gostam de chamar, são jovens que prejudicam mais a eles próprios e suas famílias do que a nação, o país. 

Temos valores invertidos e um país construído sobre o racismo, onde a necropolítica determina quem pode viver e quem deve morrer, quem pode se beneficiar de todas as falcatruas e ainda assim continuar vivendo bem.

Enquanto isso, qualquer deslize de outros é severamente penalizado, muitas vezes com a própria vida ceifada. Que dois pesos e duas medidas são esses?

Nesta quarta-feira, dia 10 de dezembro, foi o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Para todo o país? Para toda a nação? Não. Nunca foi.

A cada dia fica mais claro que, na prática, os direitos humanos valem para aqueles que são brancos, bem-nascidos, bem-criados, pessoas que se beneficiam de falcatruas e continuam a usufruir de privilégios. Desde a construção deste país, é assim que funciona, e é assim que se espera que continue.

Quando uma pessoa negra se destaca pelo seu esforço, pela sua luta — aquilo que chamamos de meritocracia — ela até pode sobressair, mas nunca alcançar mais do que um homem branco. E tem que ser apenas uma, não pode ser um grupo, não pode ser um coletivo, porque existe o medo de que essa população branca perca seus privilégios, seu poder, seu assento, conquistado, muitas vezes, por uma vida inteira de conluios para se manter no mesmo lugar.

Rodrigo Bacellar, Hugo Motta e toda a corja de bolsonaristas só mostram que precisamos, de fato, parar de julgar as pessoas pela cor da pele ou pela sua origem. Pois se continuarmos lotando o sistema prisional e os cemitérios e apontando que o “bandido” ou o “fraudador” é sempre a pessoa negra, moradora de favela, estaremos reproduzindo mais Rodrigo Bacellar, Hugo Motta e outros como eles.

Vivemos dentro de uma prisão com grades invisíveis que não nos deixa, enquanto população negra, alcançar ou avançar em qualquer direito que entendemos que deveria ser garantido. E mesmo quando conseguimos sair dessa prisão, que está sempre apontando que o bandido somos nós e que eles são as “pessoas de bem”, precisamos saber: este é o Brasil que queremos? Este é o país onde queremos parir e criar nossos filhos, nossos futuros? 

Dentro desse lugar que só demonstra que, se você nascer branco, pode cometer todo e qualquer crime, porque para você está liberado? É o seu lugar de poder, de permissão.

É isso que uma mulher negra, mãe de vítima da violência policial, como eu, não quer mais.

Não quer mais para os filhos que estão vivos, não quer mais para os netos e para os sobrinhos, que representam o futuro.

E, principalmente, não queremos mais engrossar as estatísticas de mães de vítimas neste país, sofrendo a dor da perda enquanto vemos, todos os dias, aqueles que mataram ou mandaram matar os nossos, vivendo muito bem e cometendo cada vez mais crimes de todas as espécies.

Então, a gente pode mudar e deve mudar esse país para melhor, já que queremos uma democracia. Porque não vivemos em uma, mas ela é possível, basta a gente realmente querer.

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  • monica-cunha

    Educadora social, ativista, defensora dos direitos humanos, co-fundadora do Movimento Mol...

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