A escrita sempre foi um refúgio e uma forma de desabafo para a poeta e multiartista curitibana Jô Macário, fundadora do coletivo Pretas com Poesia. Aos 12 anos, entre recreios solitários e estantes de biblioteca, ela começou a transformar sentimentos em literatura. Décadas depois, segue escrevendo, agora ao lado de outras mulheres negras que também encontraram nas palavras uma forma de reafirmar sua força pessoal e política.

Criado em 2023, o coletivo reúne mulheres negras de Curitiba, da Região Metropolitana, do litoral e da fronteira do Paraná. São professoras, agricultoras, estudantes, artistas, empregadas domésticas, lideranças quilombolas e ativistas que compartilham o desejo de colocar no papel suas vivências. A primeira coletânea do grupo foi lançada em 2024. A segunda, intitulada “Pretas com Poesia – Volume 2”, será lançada neste 31 de julho, na Biblioteca Pública do Paraná, no centro de Curitiba.

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Crédito: reprodução.

A organização é de Evelin Moreira, Laura Pinheiro e Vênus, com revisão de Sandra Andréia Ferreira, ilustrações de Bruna Bastos Santos, prefácio de Ana Agnolo, orelha de Shirley Pinheiro e publicação da Editora Donizela.

A obra é um caleidoscópio de sentimentos e trajetórias de 40 mulheres: reúne poemas, contos, crônicas e escrevivências — conceito criado por Conceição Evaristo para nomear o que se escreve a partir das próprias experiências. São textos sobre racismo, identidade, amor-próprio, afeto e ancestralidade. Sobre o que dói e o que pulsa. Sobre aquilo que, como diz Jô, poderia até ser ficção, “se essa sociedade fosse mais inclusiva”.

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Lançamento da primeira coletânia do Pretas com Poesia | Crédito: Valéria Pinheiro.

Em entrevista ao Catarinas, ela fala sobre a potência da escrevivência, a importância de formar novas gerações de autoras e a coragem necessária para tirar os textos da gaveta — e do coração — e lançá-los ao mundo. Confira. 

Como nasceu o coletivo Pretas com Poesia? O que te motivou a criá-lo? 

Na minha adolescência e juventude, senti a necessidade de ler mulheres negras que, até então, eu não conhecia. Não tinha acesso à internet, e a biblioteca era o meu refúgio para buscar conhecimento. Conheci Conceição Evaristo aos 30 anos e outras escritoras negras, como Laura Santos, só depois dos 40. O coletivo Pretas com Poesia nasceu dessa necessidade de dar visibilidade a mulheres negras em Curitiba, no Paraná, no Brasil e, quem sabe, no mundo. 

O coletivo também tem como objetivo incentivar a escrita criativa entre mulheres negras, como forma de expressão de sentimentos e resistência. Muitas delas encontrei em conversas simples, em espaços de militância. Eu perguntava se escreviam e muitas respondiam que não, mas diziam ter um verso perdido na gaveta ou ideias na cabeça. Na primeira antologia, há autoras que não sabiam que podiam escrever e produziram textos maravilhosos.

Assim como o primeiro, essa nova coletânea traz temas profundos, que falam sobre dores, descobertas e belezas que atravessam, especialmente, a vida de mulheres negras e periféricas. Como foi o processo de reunir as autoras que participam desta segunda coletânea? 

Na primeira antologia, publicamos apenas poesias, com a participação de 16 escritoras que fui encontrando pelo caminho e incentivando a escrever.

Não foi fácil descobrir essas pretas. Depois da visibilidade do lançamento, surgiram outras escritoras, algumas já com livro solo publicado. Autoras que eu não conhecia, e o mercado editorial também não. Vieram também mulheres dizendo que não sabiam se escreviam, mas que tinham pequenos textos guardados. 

Foi então que surgiu a ideia de fazer uma nova antologia mais diversa, com poesias, contos, crônicas e escrevivências, onde todas pudessem participar com liberdade. São mulheres negras diversas, falando da luta contra o racismo, de amor, desejo e ancestralidade.

A antologia também traz quatro textos seus. O que você quis compartilhar com as leitoras e leitores? Pode contar um pouco sobre o seu processo criativo?

 Na primeira antologia, participei com a organização e com quatro poesias. Neste segundo volume, contribuo com duas poesias, uma crônica e um texto na categoria escrevivência.
Meu processo criativo parte da minha vivência, meu dia a dia, minhas dores, a luta contra o racismo, o desespero de pertencer, a busca por identidade e ancestralidade.

Não escrevo para ser famosa; escrevo como forma de desabafo, como maneira de trazer à tona histórias reais da minha negritude para uma sociedade que muitas vezes não me enxerga. Crio também histórias que poderiam ser reais, se essa mesma sociedade pensasse de forma mais inclusiva.

Muitos dos textos da antologia são escrevivências, conceito cunhado pela escritora Conceição Evaristo. Como essa forma de escrever se conecta com a trajetória dessas autoras?

Escrevivência é a realidade que vivemos, a expressão da nossa luta e dos nossos sentimentos. Conceição Evaristo foi, e continua sendo, maravilhosa ao criar esse termo, que nos permite escrever de uma forma livre, sem precisar seguir as métricas impostas pelo mercado literário.

Os textos da antologia criam uma conexão entre empoderamento e quilombo. Sentimos e compreendemos umas às outras porque vivemos a mesma dor, nutrimos os mesmos desejos e compartilhamos experiências semelhantes. Tudo isso atravessado pela cor da nossa pele.

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Jô Macario no lançamento da primeira coletânia do Pretas com Poesia | Crédito: Valéria Pinheiro.

Também queria saber de que forma, na tua visão, o coletivo Pretas com Poesia ajuda a enfrentar o racismo dentro do campo literário. E como as ações que vocês realizam — os saraus, os lançamentos em escolas, bibliotecas — podem ajudar a formar uma nova geração de leitoras e escritoras negras?

Ocupamos espaços onde a branquitude ainda impera. Não é fácil estar onde, historicamente, nunca estivemos. Ainda falta muito para alcançarmos o lugar que nos é de direito. Nossa escrita segue invisibilizada e, muitas vezes, desqualificada como “mimimi” ou entendida apenas como violência. A branquitude, em geral, não conhece a nossa escrita e muitas vezes também não quer conhecer.

Por isso, realizamos saraus abertos, buscando conhecer e incentivar outras mulheres negras a escreverem. Promovemos rodas de conversa na periferia com o objetivo de criar espaços em que essas mulheres possam desabafar por meio da escrita, conhecer seus direitos e entender que não estão sozinhas. Sempre digo que o lançamento de um livro é só a cereja do bolo, a nossa luta é bem maior.

Para finalizar, queria te pedir uma mensagem para aquelas mulheres negras que ainda guardam seus textos na gaveta, talvez com medo ou insegurança de mostrar ao mundo o que escrevem.

Escreva sua vivência sem medo de julgamentos. Use a escrita como um caminho de cura, de força e de empoderamento.

Tudo é importante e bonito se fala de você. Não se cale, não se esconda. A sociedade racista quer isso e nós nascemos para fazer o contrário do que a branquitude espera. 

Serviço:

Lançamento Pretas com Poesia 2

Quando: quinta-feira, 31 de julho, a partir das 18h. 

Onde: Biblioteca Pública do Paraná – R. Cândido Lopes, 133, Centro – Curitiba (PR)

Mais informações: https://www.instagram.com/pretascompoesia/ 

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  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

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